29.6.05

Não falhes a hora marcada
entre as labaredas do sal
Ruma aos astros, cândidos,
Cava este horto de desejo
Abre-me a boca seca
com palavras de Outono
E nutre a alma conjunta
até os anos caírem.
Estou vivo e escrevo sol

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

- António Ramos Rosa

27.6.05

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

- Florbela Espanca

24.6.05

as palavras que derivam
do recanto às minhas costas
são penas gravadas em mármore
são andorinhas de agosto
odores das peles intermédias
da gente que tira férias em si
férias de si mesma onze meses por ano
das palavras deste piano, rumores
um travo a desgraças interpostas
na fugacidade que cultivam.
sobe a nuvem,
solta
livre
salta a espuma,
corre
vive
desce a paixão
numa onda d'oeste
e faz-se pousar em paz
nos teus lábios molhados.
quando com voz rompes o céu
e por essa lagoa imutável vais
há pomares túrgidos da ânsia que sobra
há mãos lavadas na ordenha da flor
quando com estrondo destronas arcanjos
e entre mares de doçura produzes a glória
esvai-se o artista no mel da escultura
tomba o lavrador, lábios na terra inundada.

16.6.05

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A mão no arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tuido isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.

- Ruy Belo

3.6.05

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A seguir, Terreiro do Paço.
"Ó pai, este é o Campos ou é o Cunha?"