19.1.05

In the end only kindness matters.
Now playing (mentally): Timbuk 3 - The future's so bright, I gotta wear shades.
Deambula lá pelos quartos mais interiores da Caverna.

Encontrarás respostas.

E mais perguntas, infelizmente.

Só no Sonho é que não há perguntas.
Até às 09:00, hiljentää... vou ver se tiro nexo.
Fresquinho que nem uma alface.

Temos que fazer isto mais vezes.

Acabei por não te dizer.

Há setas no teu olhar, e a queima dos planetas, acredita-me, confiaria plenamente em ti .

Também tu sabes ir pelo caminho que te torna invencível.

re-quoting


I am the one who has been hated everywhere
and who has been loved everywhere.
I am the one whom they call Life,
and you have called Death.
I am the one whom they call Law,
and you have called Lawlessness.
I am the one whom you have pursued,
and I am the one whom you have seized.
I am the one whom you have scattered,
and you have gathered me together.
I am the one before whom you have been ashamed,
and you have been shameless to me.
I am she who does not keep festival,
and I am she whose festivals are many.
I, I am godless,
and I am the one whose God is great.
I am the one whom you have reflected upon,
and you have scorned me.
I am unlearned,
and they learn from me.
I am the one that you have despised,
and you reflect upon me.
I am the one whom you have hidden from,
and you appear to me.
But whenever you hide yourselves,
I myself will appear.
For whenever you appear,
I myself will hide from you.


The Thunder, Perfect Mind

18.1.05

In a room with no doors I will loose myself to you
In a room with blackened walls I'm coming trough
In a room in my house you'll be seeing it trough my eyes
It's a perpetual sin, let the ritual begin tonight

It's alright, can't you see
It's ok, she is with me
Like the sand of our time
Clovenhoof

Are you the one they say you are, are you holy to the bone
Have you got faith enough to throw the first stone
Are you my flame when only darkness prevails
Are you my white whale, the hammer for my nails tonight

- Tiamat
AGISTHOS:
I´m the King of Fire, I am Anger, I am Pain
I am Savage in my Fury, I´m the World beneath your feet
Fools revere your Master, thoughts of War you will disarm
I´m the Nightmare with the Aegis and I will not be denied

ELDERS:
Harpies of no Morals, hands awash in ravaged lives
Witness your Perdition as you writhe... in AGONY AND SHAME!

AGISTHOS:
Bursting from the sidelines, locked in firmly now
I am Power and Dominion and I will not be denied
Don´t provoke this Quarrel, Thunder Roars inside
I will leave you to the Vultures stripped of all your sickly pride

ELDERS:
Tyrant of our Sorrow, coward towards the deed
(With your) Stolen bands of Courage, now Assault the Skies

AGISTHOS:
Don´t tempt me!

KLYTEMNESTRA:
Gods of War, Gods of our Ancient Might
Give me Power to tame the Savage of the Blood
Gods of War, Gods of our Painful Fight
Give me Power to break the Savage of the Blood
ELDERS:
Father Zeus, Lord of the Stars that shine
Where´s the answer that runs from above
Show me your Sign, what will I find
Eminence and Vision, Treasure, Balance, Pride...
OR AGONY AND SHAME!

AGISTHOS:
"FIGHT ME... I´ll be avenged for this"

KLYTEMNESTRA:
Life alone or Life as One
Faith in Heaven is Faith in Hell
Prince of Fortune ride, sadness leave our eyes and shine
On all we´ve Won
I Trust you, I want you, I need you... til the End of Life...
AGAMEMNON:
No Country, no Law, no Religion, no more
No God, no Light, no Power, this Night
Lord Priam you stand Horizons once Grand
I Slay, I Crush your Towers to Dust
Broken under Lash and Sword, on the Black Horizon Shine your Graves

KINGDOM OF THE FEARLESS-Kingdom of Gods
Light up the Sky, Light up the World as we run
KINGDOM OF THE FEARLESS-Kingdom of Gods
Light up the Sky, Burning the World as we run

Great Violence withstands the Blood commands
The Angel of Death, Black Wings caress
Your Kingdom of Lies, Immortal Youth dies
A Lion of Ruin, a Whirlwind of Doom
Broken under Lash and Sword, on this Dark Horizon Shine your Graves

KINGDOM OF THE FEARLESS-Kingdom of Gods
Light up the Sky, Light up the World as we run
KINGDOM OF THE FEARLESS-Kingdom of Gods
Light up the Sky, Burning the World as we

Ride down the Centuries into the Sun
Cursing the Dark, cursing the Light
Bronze wielding Sons of War, Fame Forged in Fear
I will be there, I will not cower
Flames of Violence soothe the Breast of Honour Burned
Into the Valley, into the Valley we cry again!!!

Die... to Kill... Your Daughter´s now mine
Your´re Flesh for the worms
In Bondage you weep/my Hatred will never die
Cry... the Blood Burns Black... in Fury
I will Fear no Man, for I am a God!!!


No Country, no Law, no Religion, for sure!
No Life, no Faith, no Quarter, Death waits
Lost Season in Shame, your People in Chains
For Honour, for Zeus, for Xenia, for Truth
To the Underworld advance, or the Dark Ships waiting
Cry your last!

KINGDOM OF THE FEARLESS-Kingdom of Gods
Light up the Sky, Light up the World as we run
KINGDOM OF THE FEARLESS-KINGDOM OF GODS
Light up the Sky, Light up the World as we
Ride like Thunder down from the Plains
Over the Mountains Bronze Shield and Flame
None can withstand Hatred Un-Masked
In Blood shall pay!!!
Estou transido sem perceber, o que é que se passou?
Em declarações à TSF, Francisco George, sub-director geral da Saúde, explicou esta segunda-feira que este é apenas o início de uma actividade gripal com expressão epidémica.

Apesar de os centros de saúde e as urgências hospitalares estarem a «romper pelas costuras», Francisco George desdramatizou a situação, sublinhando que já era esperado este aumento de casos de gripe.

«Neste momento, quer o serviço da direcção-geral de Saúde, quer o Instituto Ricardo Jorge e, em especial, o Centro Nacional de Gripe, estão a analisar este período que poderá corresponder ao início da actividade gripal, considerada por nós como esperada e que, no último inverno, começou mais cedo, ou seja, em Novembro», explicou aquele responsável.

A DGS está a trabalhar com os hospitais e com o Centro nacional da Gripe, esperando ter dados mais concretos durante o dia de hoje ou, o mais tardar, durante o dia de amanhã.

No entanto, Francisco George adiantou que se deve estar perante um vírus que não é novo e que está contemplado na vacina da gripe.


É ISSO E O PAI NATAL!

17.1.05

Show me Show me Show me how you do that trick
The one that makes me scream she said
The one that makes me laugh she said
And threw her arms around my neck
Show me how you do it
And I promise you I promise that
I’ll run away with you
I’ll run away with you
Spinning on that dizzy edge
I kissed her face and kissed her head
And dreamed of all the different ways I had
To make her glow
Why are you so far away? she said
Why won’t you ever know that I’m in love with you
That I’m in love with you

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Strange as angels
Dancing in the deepest oceans
Twisting in the water
You’re just like a dream

Daylight licked me into shape
I must have been asleep for days
And moving lips to breathe her name
I opened up my eyes
And found myself alone alone
Alone above a raging sea
That stole the only girl I loved
And drowned her deep inside of me

You
Soft and only
You
Lost and lonely
You
Just like heaven
The fire still burns.
Sursum vino, veritas.
Foi diferente do que esperava, como se um pano vermelho lhe tivesse caído sobre o rosto. Não sentiu dor nem angústia, pelo contrário a noção da sua total impotência aliviou qualquer culpa que por ética tentasse formar.

As mãos perderam o vigor, todo o peso do corpo estava subitamente aplicado no seu peito. Algures por trás da parede vermelha, pensou ver-se a si próprio, destacado do corpo e sem forma, sereno e imóvel olhando em frente.

As memórias irromperam em debandada, face ao destino iminente do seu repositório. Sons, imagens, emoções e desejos por concretizar atropelavam-se pela hipótese de serem sentidos uma última vez. Era verdade. A sua vida desfilava perante si no derradeiro momento. O tempo tendia para o infinito enquanto a trovejante procissão o ensurdecia por completo.

Comfortably Numb. Nunca mais vou viver.

Nada rompia o domínio hermético do vermelho. Até que este se ergueu, voou, partiu para atender a outro chamamento, devolveu-lhe as cores
da vida ainda um segundo, por ironia ou piedade nunca ficou escrito.

Não foi por coragem nem valor que lhe veio à mente “seize the day”. A frustração e o pavor comprimiam?lhe as entranhas, libertando-o do peso adicional do seu conteúdo por forma a garantir-lhe maior mobilidade, a reacção do caçador paleolítico.

Nos três segundos desde que o pano vermelho o tocara, teve tempo de tudo isto e ainda de guinar o volante.

O som chegou primeiro, e apercebeu-se capaz de identificar, sobrehumano, cada fonte de ruído. O guincho da borracha no asfalto, a toda a volta. A bomba dos travões a rebentar e a esguichar óleo negro e viscoso. A coluna da direcção a quebrar, com um clamor metálico horrível e arrepiante. Os vidros a ceder, estilhaçados, sob a pressão da travagem.

Simultaneamente, em sincronia perfeita, foi atingido por mil fragmentos afiados e pelo cheiro intenso dos materiais calcinados.

No turbilhão daquele percurso, o seu olhar ia pousando sobre os rostos dos outros condutores, um alfabeto de expressões diferentes a apostar morbidamente sobre o seu purgatório final. Poderia jurar que sobre cada face pendia um pano vermelho. À espera que um anjo o levasse.

Vocalizava expressões sem nexo.

Silêncio.



Dez dias depois converteu todas as suas posses em dinheiro e partiu à descoberta do tempo que lhe restava, a seu lado a mulher que amava e as crianças nas quais depositava a esperança de um mundo melhor, já liberto de quem lhe fizera crer que não vale a pena perseguir a utopia. A esses, deixava apenas uma oferta, uma recordação - a possibilidade de descobrirem, sozinhos e já muito, mas muito mais tarde na vida, o toque do pano vermelho.

Assassinos com Natas


Um dia Ricardo ensandeceu. A trip de hiperactividade comeu-lhe um neurónio a mais, fez-lhe arder as sinapses no sítio errado na altura errada.
Ao cair na sua prostração, logo de jorro foi assoberbado por todas as conclusões que negara, por todos os sentimentos que remetera em fast forward para a sopa dos pobres da sua mente. Afinal as emoções existem e o ruído de fundo da criação passa mesmo por elas. Nem sempre o Aspegic faz efeito.
A morte saíu à rua num dia assim. Não ia de Harley nem pingava azeite das melenas esvoaçantes, e muito menos levava uma foice na mão. Nada de tão rude.

Sentada no seu coma diário, Milena estava a palitar os dentes da frente com a tampa da caneta. Os tiques de secretária assentavam-lhe como uma luva de basebol, embora na realidade fosse directora administrativa e financeira de uma casa de pasto no Campo das Cebolas.
Não era um bom dia. Ainda por cima, o período tinha vindo em postas acima da média e doíam-lhe os rins como se tivesse feito doze horas de sexo anal com a alavanca das mudanças.
Tomada de assalto por um desejo irracional de ver as obras do metro, levantou-se de rompante e dirigiu-se para a rua, os saltos das botas a castigar o soalho como o toque erógeno dum par de matracas. Por entre a dentadura sintética, entoava o “1492” que lhe garantira melhores condições de vida, como um jipe, cabeleireira todas as semanas e três cartões de crédito. Lá fora o vento soprava inclemente.

“Já não há hora de ponta”, dizia a velhinha carcomida enquanto tentava perceber aquele símbolo estranho em forma de “E” no preço das couves. “Vá de metro, Sacanás!”.
A composição zunia pelos vetustos túneis, recheando as mentes dos 600 ocupantes de silvos feéricos e chiados não ardidos. Lisboa já não era Suíça só no ar, outrossim tornara-se uma grande e purulenta cratera com algum solo pelo meio. Cheirava a entremeada e caatinga quando a morte entrou na carruagem, gabardina cruzada sobre o peito e olhar esgazeado como um marciano acabado de chegar à cidade.

“OH PUTA METE ESSA MERDA NO CÚ, DEITA MAS É O BETÃO NA COFRAGEM!”
“VAI COMER NA PEIDA, BARDAMERDA DUM CABRÃO, OLHÁ SENHORA A OUVIR!”
“I DISPOIS USPRÊTÉQUIFAIZ MAL PRU PAÍS”
“CALATÓ ESCARUMBA DE MERDA CALATÓ ESCARUMBA DE MERDA”
As obras prosseguiam a ritmo normal. Milena divertia-se com as bojardas dos trabalhadores, apesar de manter sempre um ar distante e reprovador. Nuvens de poeira amarela cobriam a área do estaleiro, misturadas com a brisa carbónica vinda do Tejo. Talvez fosse altura de mudar... sair da cidade, pegar nas miúdas e convencer o Binau a ir engenheirar para outro lado... um dia este sítio haveria de acabar por estragar a vida a toda a gente. Acendeu outro cigarro.

De repente Ricardo apercebeu-se que o último instante da sua vida passara há horas atrás. A derradeira coisa em que pensou foi que mesmo que pudesse, não voltaria atrás. E puxou o aramezinho que prendia a cavilha.
Os primeiros pedaços de carne e ossos atingiram as paredes do túnel ainda pouco depois do Rossio. Nacos de músculos e tendões foram propelidos em todas as direcções numa orgia inflamada, enquanto a pressão do ar fazia o resto do trabalho. Litros e litros de fluidos corporais voavam em bátegas, fervendo, os guinchos dos carris indistinguíveis do estertor da mole humana privada, em menos de um segundo, de tantos anos de dúvida e angústia impotente.
O universo parido por Ricardo continuava o seu big bang macabro, abrindo caminho por entre vísceras, portas, vidro. A serpente de acrílico continuava a sua marcha inexorável, semper fi. Quando o gancho de cabelo da velhinha carcomida irrompeu da garganta do maquinista, como uma flor carnívora a desabrochar, este acabara de pensar que tinha comichão na nuca.

Desde tempos imemoriais, o grande problema de Portugal sempre foi a candura demonstrada pelo seu povo em relação a obrigações e deveres. Cheios de boas intenções, os régulos desta aldeia piscatória emitiram centenas de leis e decretos que, a serem correctamente aplicados e fiscalizados, teriam tornado aquela terra num poço de civilização. Infelizmente para Milena e para os que trabalhavam nas obras do metro naquele dia, tal jamais aconteceu, e os tubos do gás natural tinham ainda uma folga de um milímetro, desde que haviam sido colocados no início do mês. Bolhas e mais bolhas escapavam diariamente à torrente oriunda de Marrocos, disseminando-se no ar viciado à espera duma centelha de inspiração.
O comboio surgiu, crispado, levando à sua frente as barreiras improvisadas de cartão prensado. A todo o seu comprimento estava envolto em chamas e faíscas eléctricas, arrastava consigo o odor nauseabundo da matança infernal.
O corpo do maquinista ainda perdurava, hirto e empalado pelo pescoço no vidro da frente do comboio; Caronte na sua barca não seria uma visão tão aterradora.


Horas mais tarde, já pela madrugada dentro, o subdelegado de saúde deu o dia por terminado. Não se podia compreender onde raio a coisa tinha começado... Escarrou para o chão e foi para casa ver a bola.

O vento soprava inclemente quando o Sol se ergueu sobre o rio. A luz tímida saudou um novo dia de stress e abandono de valores. As botas chamuscadas do que um dia fora Milena tombaram, inertes, à passagem do autocarro, os saltos tingidos de carmim a beijar a calçada com um toque erótico, como duas matracas. Nada mudara, ou será que alguém ouviu esta história?
Luz branca por toda a parte. Sons agudos, estridentes, ruído branco. E vozes. Voz de uma gaja que devia ser boa. Voz de outra gaja a tremer de medo. Metal em metal. Som do éter a toldar as amarras. Tubos? Welcome, my son, welcome, to the machine... Não pensamos todos em inglês, a maior parte das vezes? Não sonhamos em inglês?Na---
CLEAR!!!!!
choque; onde? ah; gajo.
Pancada seca, peito arqueado, subir, gravidade zero, doente com gravidade, gravidez quando?!, pânico não, não, calma, Penguin Cafe. Penguin Cafe.
Voz branca Dêem-me 400 vou perdê-lo
CaLfEaAsRt!e!m!-!s!e
asdasd
asdasd Scroll Lock
Os teus olhos tão matter of fact. A tua certeza mais limpa que o meu receio. Amo-te e à vida. Não deixes o Mundo quebrar-te. Não quero ir Afastem-se. Na---



Preto. Sem tons de cinzento. Sozinho enroscado de regresso ao ventre. Deserto. À velocidade da luz por cima das terras quê, acordadas, the waking lands, à velocidade dum raio de sol a aquecer meias vidas. Campos de trigo. Crianças a correr. Flatliners? Toda a vida de um homem desfila ante si no momento da ida. Raio de sol. Era isto... é tão simples, simples, e fizeram-nos sempre acreditar que não, porquê, e não posso voltar, eu sei, esperar vai ser duro, e no entanto as tarefas, e a descoberta, e sem vos ver e pensar que não sabem e desesperam. Um sinal, qualquer coisa, furar o esquema... adeus, gostei, tudo faz sentido... alegria. Branco.



Soprava uma brisa a cheirar a bom tempo quando os torrões começaram a cair. A brisa trazia aquela sensação que se tem quando se é puto, de que as férias já não tardam, de que em breve poderemos passar os longos e solarengos dias como nos apetecer, capitães da vida. O sol e as árvores. Aqui há árvores, ficas bem. Ficas bem, eu venho ver-te. E eles também, e vais ver que havemos de voltar a ver-nos, ou se calhar já não sei. Acho que ela nunca mais volta a casar. Nem nada. O que é que querem de nós, quem é que deu valium a Deus antes dele acabar a obra? Não consigo chorar nestas merdas, nunca chorei, será por ter certeza de te voltar a ver ou por não valer a pena? A pá do coveiro tem a pega com ferrugem, ainda não vacinei o meu filho contra o tétano, há tanta coisa que não te disse. Não achas que às vezes sonhamos em inglês? Desculpa mas vêm-me canções à idéia. Não quero chorar.
Como fantasmas descemos a colina, a brisa estival a enfunar a gabardina do Nuno, é incrível, mas lembro-me do Matrix e do Aconteceu no Oeste. Devia aperceber-me dos meus olhos inchados, do estômago retalhado pela garrafa que bebi ontem, do peso que sinto nas pernas com cada passo que dou. Estaremos mortos e tu vivo? Se nos desses um sinal ia ter contigo. Mas não posso, tenho o meu dever. Ali havia uma oficina de estofadores. E o meu avô vinha aqui comigo apanhar caracóis. O Cola ainda se lembra deste sítio, já não consegue chorar mais e tem a cara a arder mas os olhos brilham como se tivesse outra vez dez anos. Fantasmas, errantes, piratas da vida. Lembro-me do filme em que o Tim Robbins encontra o puto no sopé da escada, em flashbackforward, helicópteros, vietname, a escada do Jacob. Tem piada, o meu sogro é o Jacob e vai ver-te primeiro que eu.

Abraço a brisa. Hoje foi a enterrar um bocado de mim.

Ébrios



Caminhei ao longo do cais, levado pelo silêncio das margens ainda sombrias na manhâ de Agosto. Espraiados, os botes coloridos bailavam sob o pêndulo do cachão, a ria a fazer toilette em antecipação ao despontar dourado. O molhe, fincado, acolhia as amarras dos batelões enferrujados, em merecido repouso da faina diária e redundante.

O céu levava traços púrpura e laranja, com laivos de meios-tons por nomear. O aroma era de maresia ou talvez da liberdade que espreitava já ali, ao virar da barra. Fazia-se sentir uma frescura que me acalentava os sentidos.

Dei com os três na escada do pontão, ainda envoltos no frémito da noitada, em cada mão esquerda um copo vazio a exprimir a fome de segurar os momentos já idos. Falavam e riam à toa, palavras que não me dei a interpretar, mas logo me deixei contagiar pela leveza do seu estar, e abri um sorriso, um olá cúmplice e tentativo.

Acenaram com os copos, os olhos da Ana a desmentir a nesga de sol que alvorecia sobre a velha fábrica de conservas à entrada da barra. A careca do Leonel reflectiu por um instante fugaz o primeiro raio do dia, chegadas as sete da madrugada e um pouco menos de roxo a leste.
Continuaram na sua ladainha, ambos e o outro que fazia a corte aos gomos de laranja no fundo do copo rachado. O troar suave das suas vozes dava nexo a querer ser jovem, levava de vencida a apatia de crescer e envelhecer submisso à História.

Quando o barqueiro veio cumprimentámos o sol ombros com ombros, pintando o alvor com palavras esdrúxulas e recém-nascidas. Assim nos transportou, vinte segundos ou dez horas de comunhão pueril, e quando finalmente atracou e os nossos pés calcaram a areia húmida de orvalho, soltámos um adeus tão curto quanto a nossa vivência, tão factual quanto o azul que já era a única cor do céu, íntimo não como ocorre entre indivíduos, mas antes entre exemplares de uma mesma espécie, de olhos postos na magia do momento presente.

Creio que não tornarei a ver a Ana, nem o sol reflectido na calvície do Leonel, nem o outro que assediava os gomos de laranja. Mas quando entrei na casa que era minha sem o ser, e me deixei vaguear nessa orla enevoada às portas do sono, voltou-me aquele sorriso que me invadira lá atrás, no molhe. A certeza reconfortante de que, tal como hoje me sucedera, haverá mundo fora miríades de alvoradas, de Anas, e de brisas refrescantes à espreita do Tempo parado, à beira de descobrir o que nos faz quem realmente somos.
Cafeína

Spamf rola pela A5 abaixo, alucinado a 50 quilómetros por hora, o arvoredo do Monsanto a bailar ao mesmo vento que lhe empurra as costas,os rolamentos do skate a rosnar baixinho sobre o tapete de asfalto. O seu cérebro é bombardeado pela sobrecarga de dados, o hiperorgasmo a sete sentidos. Pelos tímpanos dentro jorram pancadas de aríete em ritmo berbequim, guinchos harmónicos tirados à faca, o ruído de fundo da Criação. O subwoofer na mochila faz-lhe vibrar o corpo como o clítoris treinado de uma pécora tailandesa. 60 quilómetros por hora. O arquiduque do caos, um camaleão urbano, arauto da nova ordem, barão eléctrico. E 70 quilómetros por hora. Calcanhar direito força para baixo perna esquerda flecte shhhhhhk POC e HOP! weeeeeeeeeeeeee sobre o rail em ângulo assustadoramente recto, a duas rodas como os duplos nos vídeos de 600 paus, as mãos a desenhar rituais arcanos no ar de 40 graus que o fustiga, como que a buscar oequilíbrio numa cabala anacrónica. A prancha demoníaca arranca electrões ao metal que jaz torturado por baixo dos rolamentos, um tufão de coriscos que avassala o torpor de quem, sentado no trânsito, assiste transido à passagem da criatura ínfera, o elemental do speed. Curva,curva, curva, curva, curva, curva, curva em frente!, perdendo o contacto com a Terra, entregue às carícias dos espíritos etéreos, partindo sem pavor nem donuts à parábola que o leva em arco meteórico para cima, sobre o TIR, para no apogeu se deixar paralisar por um pico-segundo, o mar quântico a rugir lá embaixo e tudo em si Uno com a Vida, a pala do boné como uma catana zairense a reclamar para o seu brandidor o direito ao nirvana. 2 dread 4 sk8. Fim de pausa. Derivada negativa, constante gravítica de novo a trabalhar a seu favor, milimetricamente sobrevoa o Corsa branco e AAAAAAAAAAAAAHHH ei-lo em pleno eixo norte-sul, esquerda, direita, direita, pica, trava, Praça de Espanha 250 metros, faz sinal com a mão enluvada, afasta as pernas para ventilar o escroto, põe a cereja em cima do bolo com uma pirueta sobre o traço contínuo. Mergulha triunfante no vórtex citadino deixando atrás de si um rasto de feromonas e vibrações em megabass, o cereal killer da Cova da Moura, o cromo mais difícil.
Pikachuuuuuuuuuuuuuu!!!
Arlindo e a poeira

O escarro atingiu o asfalto com a precisão assustadora de um míssil de cruzeiro. A estalada sonora espantou alguns pardais que se coçavam ali perto, o ar quente e seco de Agosto a fazê-la ecoar por entre os prédios. Castanha com o café matinal, a coloidal descarga borbulhou durante dois segundos a fritar ao sol, e depois desapareceu deixando para trás alguns montículos mais espessos.
Ao passar pela igreja, viu uns vinte metros mais abaixo a Bina que se passeava, já a esta hora, a tresandar queca por todos os poros, os olhos raiados de sémen. Cabrona. Também tu hás-de roê-lo, pensou.
Raspou a unha crescida do mindinho por trás da orelha esquerda, arrancando milhares de células epiteliais há muito tempo mortas e esquecidas. Arreganhou o maxilar inferior, e com as presas afiadas libertou a unha do seu fardo.
Puxou de um cigarro. A chama do isqueiro bruxuleava à frente dos seus olhos, hipnotizando-o e levando a sua mente simples até outras paragens. Quem faria arder a chama? Não queria acreditar nos jeovás, nem nessa corja de manás e universais dum cabrão, que passavam a vida a besuntar-se com óleo de fritar e a mugir como se tivessem os pelos do cu a arder. Mas quem faria arder a chama, e onde iriam buscar tanta gaja boa a falar inglês tão bem para fazer as Marés Vivas? Doía-lhe a cabeça, fechou o isqueiro, deu uma passa que o encheu até à bexiga e continuou o seu caminho.
Abriu a porta da oficina com uma patada seca no sítio secreto que só ele e o Canina conheciam. Depois tropeçou na lata dos pregos, caíu em cima de uma cavilha e morreu. Sic transit gloria mundi.
Boa hora Nelso. Digo Nuno. Há que parir. Venha que iremos acalentar o bezerro com a força dos troncos. Carinhos.
Je ne t'en veux pas
Je ne te vois pas
Et j'ai oublié
Qui tu étais

Qu'est ce que j'ai bien pu faire
De ce souvenir
J'ai oublié

Je ne t'en veux pas
Je ne te vois pas
L'histoire de ce train
Ne me dit rien

De quoi nous avons parlé
A la fin de l'été
J'ai oublié
J'ai tout oublié

Oublié

- Bertrand Cantat (o assassino) / Noir Désir
Ainda mal refeito do susto, Pedro Alves, de 27 anos, referiu que “já passava das 22h00 quando os assaltantes chegaram. Estavam armados com gadanhas (uma espécie de catanas de lâmina curva) e apanharam-me quando estava a sair da casa de banho e pronto para ir para casa”.

“Começaram por me torcer um braço atrás das costas e depois obrigaram-me a dobrar. Nessa altura puseram-me um pé no pescoço e foi então que vi as gadanhas. Roubaram centenas de euros que estavam na caixa e na bolsa da gasolina, bem como tabaco, chocolates, isqueiros e outros artigos”, recorda.




Dasssssssssssssssssseeee gadanhas!