11.7.05

acerca-te da minha janela
contar-te-ei o que há nela
olha, vês
a merda dum francês
velho e seco nos anos de usura
os olhos baços, a fronte dura
agarrado como um nojento caracol
às pastas castanhas a tiracolo
conta cabeças como dinheiro
e tem na barriga o mundo inteiro.

7.7.05

Everything that irritates us about others can lead us to an understanding of ourselves.

-Carl G. Jung
não te peço mais do que as pedras
algumas pedras, gentis
subtis
a métrica de um copo
dos socalcos e reflexos
de trinta mil rubis
junta-mas todas num copo de ti
e atira-me a este pinhal
cedendo-me o penedo da fé
o pomar que sempre quis
e pede-me um fogo
pede-me um planeta de amor
arranca-me todos os dias
os que guardo secretos
com a altivez dos cativos
e não me dês mais que a tua boca de mel.


Vodka intimate, an affair with isolation in a blackheath cell,
Extinguishing the fires in a private hell,
Provoking the heartache to renew the license.
Of a bleeding heart poet in a fragile capsule,
Propping up the crust of the glitter conscience.
Wrappped in the christening shard of a hangover,
baptized in tears from the real, tears from the real...

Drowning in the liquid seas on the picadilly line, rat-race,
scuttling through the damp electric labyrinth.

Caress Ophelia's hand with breaststroke ambition,
The albatross courtship marrytime tradition.

Sheathed with the walkman wear the halo of distortion,
aural contraceptive aborting pregnant conversation.

But she turned the harpoon and it pierced my heart,
she hung herself around my neck.

From the Time-Life guardians in their conscience bubbles,
safe and dry in my sea of troubles.
Nine to Fives, with suitable ties,
While I'm cast adrift as their sideshow, (sideshow),
peepshow, (peepshow), stereo hero,
becalm, bestill, bewitch, drowning, drowning in the real...

The thief of Bagdad hides in Islington now,
praying deportation for his sacred cow.
A legacy of romance from a twilight world,
the dowry of a relative mystery girl.

A Vietnamese flower, a dockland union,
a mistress of release from a magazine's thighs.
This magdalene contracts more than favours,
the feeding hands of western promise hold her by the throat.

A son of the swastika of '45, parading a peroxide standard.
Graffitti disciples conjure testaments of hatred.
Aerosol wands whisper where the searchlights trim the barbed wire hedges.
This is Brixton chess.

A knight for embankments - folds his newspaper castle,
a creature of habit, begs the boatman's coin,
He'll fade with old soldiers - in the grease stained roll call,
linger with the heartburn of good friday's last supper.

Son watches father scan obituary columns,
in search of absent school friends.
While his generation digests high-fiber ignorance,
cowering behind curtains and the taped up, painted windows.
Decriminalized genocide, provided door to door Belsens.
Pandora's box of holocausts,
gracefully cruising satellite infested heavens,
Waiting, wait..waiting the season of the button,
the penultimate migration,
Radioactive perfumes for the fashionably,
for the terminally insane ... insane

Do you realize,
This world is totally fugazi!

Where are the prophets, where are the visionaries,
where are the poets, to breach the dawn of the sentimental mercenary
Escrevi o primeiro "Assassinos com Natas" quando ainda havia Forum Literário. Este já andava pensado há cerca de dez anos, mas acabou por sair só hoje, em 15 minutos durante os quais voltei a ter vinte e poucos anos (até se nota na escrita patética ;) )

Tornou-se agora uma espécie de director's brand, como os reflexos do Shyamalan, aliás os do Hitchcock. E Ricardo é o Randall Flagg que Stephen King pensou em versão urbano-stressada.





O vento soprava, o uivo da nortada inclemente enfiando poeira e pólen no cabelo de Ricardo. A harmónica, suspensa por duas tiras de couro preto, baloiçava gargarejando um sussurro premonitório com cada bátega de ar gelado. Amachucou a carteira de Aspegic, atirou-a para o passeio coberto de lixo do fim-de-semana, e selou, com um passo resoluto em frente, o fado daquele primeiro dia de Primavera.

Salvador Maria e Serafim de Deus, hirtos na cinzenta verticalidade instantânea com que se faziam cobrir todos os dias, subiam desde o piso -27 no elevador, herméticos na seriedade Ovídica própria das pessoas de bem. As leis da termodinâmica confluiam a favor da maré libertária que tomara conta de Ricardo quatro horas atrás, quando acordara ensopado em sal e ureia, um avatar plutónico, a metamorfose de César em estrela ígnea. Gotículas de uma atmosfera asséptica pousavam, agitavam-se e desapareciam esquecidas sobre os números que iam surgindo, pálidos como os dedos de um Lapão em Novembro.
Os dois sócios subiam assim na paz beatífica de uma rectidão assumida. Todos os seus dias eram indistintamente agradáveis e sem prejuízo da mediania completa, afinal o único objectivo inteligível de qualquer homem.

Precisamente quando as portas de vidro triplo, polido até à estupidez, se abriram de par em par, cavalgou pelo ar o tinido sintético da campainha do elevador. A bota de Ricardo agrediu as lajes, de mármore do Congo, ao mesmo tempo que os pés direitos de Salvador e Serafim.
A recepcionista e os dois vigilantes respiravam quietos, em posição de sentido, de frente para a
porta do elevador. A gabardina castanha esvoaçou adornando a entrada de Ricardo como as asas de Uriel. A sua tocha era divina, a natureza fractal do mundo era isto.

Duas franciscas, lâminas recurvadas sequiosas, saltaram como rolhas das mãos de Ricardo e atingiram os vigilantes em pleno nó de gravata. Os sicários tombaram, sem urdir reacção, um quilo de ferro e madeira plantado em cada pescoço.

Salvador e Serafim permaneciam no limbo entre o elevador e o átrio, protegidos do violento cenário pela indecisão entre o pasmo e o fascínio. Seguramente que se trataria de um erro, e não de uma realidade diferente da sua. Com toda a certeza que tais situações, tão pontuais, teriam uma probabilidade diminuta de suceder ali, no átrio de entrada da sede global do grupo Bello e Gallo, em perfeito vilipêndio dos valores mais cristalinos aos quais cada homem, claramente, almejaria.

Ricardo deixou cair a gabardine. Trazia às costas um paralelipípedo translúcido com uma tampinha vermelha, cheio até ao gargalo de um fluido dourado e viscoso. Sentiu os olhos traírem a sua doutrina, saíndo-lhe das órbitas na antecipação do exercício da justiça. Avançou devagar, inumanamente devagar, até se postar como um totem malaio perante os dois esbirros do Nada. Ninguém vertia um só dedo de suor. O corpo da recepcionista pendia desengonçado sobre o balcão de granito, a língua roxa e inchada do último esforço em busca de um sopro de vida. Esganara-se fulminada num enfarte ao ver que iria possivelmente perder o seu direito às quinze horas diárias de trabalho.

Se quaisquer palavras houve, trocadas entre os três ícones que embarcaram na caixa inoxidável, rumo ao Hades gasocarbónico que jazia por baixo do edifício, esta crónica já vetusta não as traz recordadas. Cabe apenas assinalar o notável, porque não relativo, silêncio com que o pilar idólatra de aço e cristal veio a ruir, quando as centenas de veículos ali estacionados, com os seus grandes depósitos de combustível, se juntaram à celebração vulcânica começada às espaldas de Ricardo, temperada com a matéria vil de Salvador e Serafim.
É incrível: as explosões em Londres sabe-se lá com quantos mortos, e aqui todos ignoram, e fazem de conta que é um dia normal com o seu trabalhinho de escriturários normais.

É o nojo, Amor!, é a raiva.

É a cabra dos atadinhos.
At 4.48
when sanity visits
for one hour and twelve minutes I am in my right mind.
When it has passed I shall be gone again,
a fragmented puppet, a grotesque fool.
Now I am here I can see myself
but when I am charmed by vile delusions of happiness,
the foul magic of this engine of sorcery,
I cannot touch my essential self.

Why do you believe then and not now?

Remember the light and believe the light.
Nothing matters more.
Stop judging by appearances and make a right judgment.

- It's all right. You will get better.

- Your disbelief cures nothing.

Look away from me.



- Sarah Kane

6.7.05

excerto (b)

porque debaixo das nuvens
abres os olhos
solta
humedeces a causa
na eira dos amantes
em busca do plano
a natureza sou eu
e tu
perdida entre os meus dedos
és o odor de um jogo de sombras.
canto as milhas
a celebração do sol
o espírito azul de três faixas sem fim
e afinal
afinal a criança baila no bosque
não há Outono em Berlim
o teu cabelo é um mar de humores
e eleva-me ao sonho
na ansia dos dias completos
o que tenho que dizer é que estoiro
é que a tua pele
na minha
torna o mundo brilhante
o teu cabelo é um mar de humores
e eleva-me ao sonho.

29.6.05

Não falhes a hora marcada
entre as labaredas do sal
Ruma aos astros, cândidos,
Cava este horto de desejo
Abre-me a boca seca
com palavras de Outono
E nutre a alma conjunta
até os anos caírem.
Estou vivo e escrevo sol

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

- António Ramos Rosa

27.6.05

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida verdade, o Sentimento!
-- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

- Florbela Espanca

24.6.05

as palavras que derivam
do recanto às minhas costas
são penas gravadas em mármore
são andorinhas de agosto
odores das peles intermédias
da gente que tira férias em si
férias de si mesma onze meses por ano
das palavras deste piano, rumores
um travo a desgraças interpostas
na fugacidade que cultivam.
sobe a nuvem,
solta
livre
salta a espuma,
corre
vive
desce a paixão
numa onda d'oeste
e faz-se pousar em paz
nos teus lábios molhados.
quando com voz rompes o céu
e por essa lagoa imutável vais
há pomares túrgidos da ânsia que sobra
há mãos lavadas na ordenha da flor
quando com estrondo destronas arcanjos
e entre mares de doçura produzes a glória
esvai-se o artista no mel da escultura
tomba o lavrador, lábios na terra inundada.

16.6.05

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A mão no arado

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solitário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tuido isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.

- Ruy Belo