7.2.07

Escreveu, ainda, Patrícia Lança que


"A revoltante posição de Rothbard lembra-me a de uma militante comunista inglesa que conheci nos longínquos tempos em que o aborto era ilegal no Reino Unido e severamente penalizado. Uma mulher quarentona, ela gabava-se de ter feito quarenta e tal abortos. “Porque gastar dinheiro e esforços em procurar contraceptivos,” argumentava, “quando posso, por rotina, consultar a minha médica (camarada) três em três meses? Afinal, trata-se de livrar-me de uma parasita.” Recordo sempre essa pessoa quando ouço as palavras piedosas de certas portuguesas de esquerda que afirmam despudoradamente que nenhuma mulher encara o aborto de ânimo leve. É falso. As irresponsáveis estão sempre entre nós. E os homens irresponsáveis também. Deixando de lado os argumentos morais do André, e outros apoiantes do "Não" com os quais concordo, mas que serão discutíveis para alguns, o que é de recusar é que o contribuinte seja obrigado a subsidiar a irresponsabilidade."


Muito bem, Patrícia. O exemplo que cita é esclarecedor E REPRESENTATIVO, está à vista para quem quiser vê-lo não podendo ser refutado por juízos de valor, aquém do que é factual. O risco - calculado - de falha na contracepção tem de ser aceite como tal. Não conheço ninguém que, multado por ir a 200, pretenda ser despenalizado com base em dificuldades económicas, sociais, nem muito menos por reivindicar o direito a usar os seus pés para aplicar a pressão que bem entender no acelerador.
Rodrigo Adão da Fonseca, no Blue Lounge, escreve hoje


Fico com a sensação que o PS foi preguiçoso, deixou-se arrastar pelo estilo festivo e mediático, mas ao mesmo tempo vazio, de uma esquerda mais dogmática, convencido que bastaria acenar com a "tese penal" para que os portugueses corressem atrás do "Sim". Só que, passado o brilho dos foguetes, ficou claro que em Portugal, por aborto, só há mulheres algemadas e presas nos tempos de antena do Bloco de Esquerda, e que a previsão criminal, nos termos em que ela se assume, sendo desajustada, acaba por ser, friso, para boa parte do eleitorado, uma questão menor face às causas do aborto, aquelas que verdadeiramente são fonte de preocupação: a pobreza, a ignorância, as dificuldades que os jovens têm hoje em formar família, a ansiedade e o medo no futuro, o machismo que reprime as mulheres e as condena a soluções que contrariam a sua vontade. Questões para as quais o poder político não foi – nem tem sido – capaz de conjugar respostas.

6.2.07

Qual é o direito que a mulher quer proteger quando realiza uma IVG? A sua vida? Se é realmente a sua vida que está em causa, essa situação já está regulamentada e não é objecto deste referendo. Ou seja, não se põe o problema da vida da mulher grávida terminar. Então, o que estará em discussão são as condições em que a vida dessa mulher irá prosseguir. O que está em debate é a qualidade de vida dessa mulher. E assim sendo, é minha opinião, que esse valor não pode nunca sobrepor-se ao direito à vida, ao direito a nascer do feto. Compreendo que haverá situações em que as condições de vida de uma mulher grávida se possam degradar substancialmente. Mas, a mulher não deveria estar sózinha nesse combate. Em primeiro lugar tem de ser, mesmo que coercivamente, auxiliada pelo pai da criança. Em segundo lugar deve poder contar com o apoio da sociedade. Agora o que não pode e não deve ser posto em causa é o direito de outrém (o feto) nomeadamente o seu direito à existência.

Carlos Osório, aqui.
Atenção à opinião expressa ontem no Prós e Contras pela Drª Célia Neves, que falou da prorrogação mais que provável dos prazos aquando da entrada de uma grávida para execução de um aborto, e por causa, bom, de estarmos em Portugal - a grávida entra lá às 9 semanas e fará o aborto, mas somente quando toda a papelada, pessoal e demais requisitos estiverem conformes, às 15, 16 ou 24 semanas. O país é real, o humano indefeso é real e a estupidez do Sim cada vez mais real.

5.2.07

E afinal a geração rasca existe e veio 15 anos atrasada. É risível este nervoso miudinho, esta mediocridade achincalhante, em matilha que só sabe ser matilha e perde o norte sem os líderes, da "geração Sim". Ataques ad hominem, argumentos próprios das coortes jesuítas, intervenções à pintas do IC19. De chorar a rir, na verdade.
Reproduz-se integralmente o artigo de Paulo Marcelo no Diário Económico de hoje.


"Tenho acompanhado o debate do aborto e os argumentos de ambos os lados. O problema é difícil e mexe com as nossas convicções mais profundas. Com o referendo já este domingo, aqui ficam as três razões essenciais do meu “Não”.

A primeira razão é política. Começo por dizer que simpatizo com o argumento liberal de que o aborto é um assunto da mulher e que, por isso, o Estado não deveria envolver-se na questão. Acontece, porém, que ao contrário de outros temas onde a liberdade individual deve ser soberana, no aborto existe uma outra realidade a que não podemos fugir. Como disse Norberto Bobbio, “No caso do aborto há “outro” no corpo da mulher. O suicida dispõe da sua própria vida. Com o aborto dispõe-se de uma vida alheia”.

Pesando pois os valores fundamentais que estão em causa no problema do aborto voluntário - a liberdade de escolha da mãe e o direito à vida do feto - não posso deixar de optar pelo direito à vida. Amo a liberdade e defendo que o Estado não deve olhar pelo “buraco da fechadura”, mas neste caso a situação é distinta. Não está apenas em causa a “esfera privada” da mulher, pois existe um outro ser que precisa de ser protegido. Bem sei que, de modo geral, a mulher não abortaria por motivos fúteis. Mesmo assim não faz sentido que ela possa decidir sobre a vida do “outro” que leva dentro de si. Isso seria negar o mínimo de dignidade à vida intra-uterina.

A segunda razão é jurídica. Na pergunta do referendo está mais em causa do que uma mera despenalização do aborto, o que já acontece na lei actual em quatro situações (perigo para a vida ou para a saúde da mulher, malformação do feto, doença grave e incurável do feto ou gravidez resultante de violação, art. 142.º C.Penal). Por isso, quem defenda uma posição equilibrada já a pode encontrar na lei actual, não na liberalização do aborto até às dez semanas. Essa alteração obrigaria o Estado a organizar-se para garantir o “aborto a pedido” nos hospitais ou clínicas privadas. Por isso, aqueles muitos daqueles que são contra a penalização das mulheres não aceitarão que o Estado colabore e financie a prática do aborto.

O sistema jurídico deve ser coerente e enviar os sinais correctos para a sociedade (função pedagógica e de prevenção geral da lei). Por isso, apesar de tudo, o aborto deve manter-se como crime. A tendência recente do direito português vai no sentido do agravamento das penas, veja-se o direito rodoviário ou os crimes contra o ambiente. Qual o sentido de ser crime fazer um ‘download’ de uma música ou destruir ovos de cegonha, mas não destruir um feto com dez semanas?

A lei portuguesa permite distinguir o “erro” da pessoa que erra, conciliando firmeza na condenação da conduta, com compreensão para com aquele que a pratica. Só os juízes o podem fazer, tendo em atenção as circunstâncias atenuantes. Desconfio pois da argumentação algo “populista” que coloca em causa a legitimidade dos tribunais para aplicar a lei. Recordo que há mais de 30 anos nenhuma mulher é presa por ter abortado e que a enorme maioria nem sequer chega a ir a tribunal. E não se diga que a lei não é aplicada, esquecendo que a importância da lei está no “dever ser” que impõe à sociedade e não na aplicação de sanções (último recurso).

Note-se, ainda, que esta alteração legislativa não resolveria os “julgamentos” ou o aborto clandestino que, infelizmente, continuaria depois das 10 semanas ou fora dos “estabelecimentos autorizados”. O combate ao aborto clandestino não se faz pela legalização, mas sim apoiando seriamente a mulher grávida dando-lhe outras opções que lhe permitam manter a vida que leva dentro de si.

A terceira razão é existencial, talvez por isso mais fácil de explicar. Vi uma ecografia em três dimensões de um feto às 10 semanas. Foi uma experiência muito forte, onde observei o movimento das mãos e dos braços e ouvi o batimento do coração. Desde esse momento fiquei com a convicção profunda deque ali está “alguém” como eu. Aquele ser pode ser mais ou menos “desejado”, mas é único e irrepetível. Apesar de não ter voz para gritar merece ser protegido.

Depois de ouvir os argumentos do “sim” sobre a humilhação da mulher exposta a ser julgada, tenho de concluir que a maior das “humilhações” seria a do feto a quem não se reconhece a existência e o direito a viver."

Esta no Small Brother está muito boa:

Um grupo de pessoas passeia-se perto de um precipício. A certa altura, a pessoa X desiquilibra-se desequilibra-se, cai e agarra-se à pessoa Y de tal forma que fica dependente dessa para sobreviver. Se a pessoa Y resolver conscientemente largar a pessoa X, deverá ser punida criminalmente por isso?

a) Não, porque a pessoa Y não estava consciente que ao passear pelo precipício lhe poderia acontecer aquilo e, além disso, é dona do seu corpo e deve ser livre de fazer o que quiser com ele.

b) Não, mas apenas se a largar até 10 segundos após ter sido agarrada.

c) Sim, excepto no caso em que por agarrar a pessoa X, a vida da pessoa Y fique em perigo.

d) Sim, excepto se a pessoa Y tiver uma deficiência grave ou fôr mesmo muito feia (certamente não valeria a pena viver nesse caso, provavelmente até se suicidou, coitada...)

e) Sim, em todos os casos.

Novembro, 1975

Two days earlier, Pasolini had been killed. He had written,

"There is a grave danger - the poet and scholar warns us - that threatens the Radical Party just because it is responsible for great victories in gaining civil rights. A new left-wing conformism is ready to appropriate your battle for civil rights "creating a contest of false tolerance and false laicism". It is precisely the Radical culture of civil rights, the Reform, the protection of minorities that will be used by intellectuals of the system as a violent and oppressive terrorist force. In brief, power is on the point of assuming intellectual progressists as its own clerics. Pasolini's premonition came true, not only in Italy, but in the rest of western society where, precisely in the name of progressism and modernism, a new class of totalizing and transformist power was affirmed, certainly more dangerous than the traditional conservative classes. Against all this - Pasolini concluded, I believe that you should do nothing but continue simply to be yourselves: which implies continuing to be unrecognisable. Forget your great triumphs immediately and continue unperturbed, obstinate, eternally contrary, to claim, to want, to identify yourselves with the different, to scandalize, to blaspheme."

Pier Paolo Pasolini disse ainda

"Estou porém traumatizado pela legalização do aborto, porque a considero, como muitos, uma legalização do homicídio. Nos sonhos e no comportamento quotidiano - coisa comum a todos os homens - eu vivo a minha vida pré-natal, a minha feliz imersão nas águas maternas: sei que já lá eu existia. Limito-me a dizer isto porque, a propósito do aborto, tenho coisas mais urgentes a dizer. Que a vida é sagrada é óbvio; é um princípio ainda mais forte do que qualquer princípio da democracia, e é inútil repeti-lo."

"Não há nenhuma boa razão prática que justifique a supressão de um ser humano, mesmo que seja nos primeiros estádios da sua evolução. Eu sei que em nenhum outro fenómeno da existência há tão furiosa, tão total e essencial vontade de vida como no feto. A sua ânsia de realizar as suas potencialidades, percorrendo fulminantemente a história do género humano, tem algo de irresistível e por isso de absoluto e de jubiloso. Mesmo que depois nasça um imbecil".
A propósito da rábula insidiosa dos Gato Fedorento (cujo mérito regabófoteatral não discuto, embora gostasse de saber como conseguiriam satirizar a morte de uma ou duas das mãezinhas deles com a mesma veemência), escreveu hoje CN:

Já repararam que um par de estaladas está sujeito a pena de prisão até 3 anos?

Quantas estaladas são dadas por ano em Portugal?

Quantas delas resultam em penas de prisão? As poucas que resultam em tribunal devem provavelmente acabar em… pena suspensa. Humm … como o Aborto.

Bem, é a “tal” questão.

É crime?
Sim.
Acontece-me alguma coisa?
Nada.

Talvez uma campanha pela despenalização da estalada?

A dramatização feita pelo "Sim" sobre o estatuto de "Criminoso" e a "Pena de Prisão" é na verdade, um pouco ridícula.

E já agora, mudando de assunto ou talvez não. Proponho modestamente um argumento para os Gatos Fedorentos a propósito da actividade de fumar.

Então fumar é crime?
Não.
Então posso fumar?
Não.
Mesmo no meu Restaurante?
Não.
Mas é crime?
Não.
E tenho uma pena se o praticar?
Sim.

4.2.07

Carthago delenda est.

"Ontem, um grupo de representantes de movimentos cívicos pelo ‘não’ lançou um desafio a “instituições, aos deputados, às forças políticas e sociais”: “... que consagrem um novo quadro legal que, sem desproteger a vida em desenvolvimento, afaste as mulheres do tribunal, dos julgamentos e da prisão”, apelaram num documento apresentado publicamente. Esta é uma proposta da autoria das deputadas socialistas Rosário Carneiro e Teresa Venda, que se encontra na Assembleia da República desde 2004 mas que ainda não avançou por questões “político-partidárias”."




Sócrates recusou, com a prepotência fleumática que o caracteriza e que granjeou a admiração das camadas mais imediatistas da população votante (45% de 50%, portanto 22.5% da malta que anda por aí, o que não chegaria para mandatar alguém, com seriedade, mas que em Portugal passa por maioria absoluta indiscutível, decerto a bem do progresso - que é como sabemos um método colectivo...)
"Percorrendo o argumentário do sim, tenho por vezes a impressão de que muitos dos seus campeões estão interessados numa espécie de nacionalização do aborto, muito mais do que na sua descriminalização ou na sua despenalização. Ao passo que outros tratam sobretudo de agitação social e política, ao promoverem uma questão “fracturante”, que lhes serve tanto no plano da actividade subversiva quanto no da afirmação identitária, assaz problemática nestes nossos tempos em que partes maiores da direita e da esquerda tendem frequentemente a encontrar-se ao centro noutras matérias, a começar pelas económicas e sociais…"

(Manuel de Lucena, que se posiciona do lado do "sim"; só lhe falta um bocadinho, mais um esforço e verá o resto da verdade)
These are the last things before me. And as I stand here at the door of glory, I look behind me for the last time. I look upon the history of men, which I have learned from the books, and I wonder. It was a long story, and the spirit which moved it was the spirit of man's freedom. But what is freedom? Freedom from what? There is nothing to take a man's freedom away from him, save other men. To be free, a man must be free of his brothers. That is freedom. That and nothing else.

At first, man was enslaved by the gods. But he broke their chains. Then he was enslaved by the kings. But he broke their chains. He was enslaved by his birth, by his kin, by his race. But he broke their chains. He declared to all his brothers that a man has rights which neither god nor king nor other men can take away from him, no matter what their number, for his is the right of man, and there is no right on earth above this right. And he stood on the threshold of freedom for which the blood of the centuries behind him had been spilled.

But then he gave up all he had won, and fell lower than his savage beginning.

What brought it to pass? What disaster took their reason away from men? What whip lashed them to their knees in shame and submission? The worship of the word "We."

...

Here, on this mountain, I and my sons and my chosen friends shall build our new land and our fort. And it will become as the heart of the earth, lost and hidden at first, but beating, beating louder each day. And word of it will reach every corner of the earth. And the roads of the world will become as veins which will carry the best of the world's blood to my threshold. And all my brothers, and the Councils of my brothers, will hear of it, but they will be impotent against me. And the day will come when I shall break the chains of the earth, and raze the cities of the enslaved, and my home will become the capital of a world where each man will be free to exist for his own sake.
For the coming of that day I shall fight, I and my sons and my chosen friends. For the freedom of Man. For his rights. For his life. For his honor.

And here, over the portals of my fort, I shall cut in the stone the word which is to be my beacon and my banner. The word which will not die, should we all perish in battle. The word which can never die on this earth, for it is the heart of it and the meaning and the glory.

The sacred word:

EGO



(Ayn Rand, "Anthem")

Soltas, 1

"o que me faz confusão é uma certa sociedade querer opinar sobre o destino de um embrião mas depois está-se nas tintas para a criança"


pior é serem capazes de dizer "só é util se for desejado, nós os senhores da verdade colectiva vaticinamos que se nao for desejado vai ser um inferno, a sua vida!"
Como confiar num Estado que encerra maternidades e financia clínicas de aborto?
ha bocado li um comentario num blog que sumariza bem a estupidez das maiorias:

"se os defensores do nao consideram um embriao um ser vivo isso é problema deles"

ora o ser pusilânime que escreveu isso devia ser electrocutado sem delongas.

2.2.07

Não é uma questão. São quatro.

Despenalização? Sim.
Opção? Não.
10 semanas? Não.
Pago pelo Estado? Não.
Fere libenter homines id quod volunt credunt .
Contado quase em directo por um amigo e ex-colega.

Estava então o meu amigo ali a cortar o cabelo, no barbeiro da esquina, a um sábado, e entra um antigo colega seu da faculdade, todo engravatado, e com um ar de perfeito demente acerca-se dele com o rosto esbugalhado e diz,

"Épáatãohácatemposcanãoteviaeuagoratounaempresataletuoquéquetázafazerhã????"

Ao que o meu amigo respondeu,

"Estou a cortar o cabelo e depois vou com os putos ao cinema..."

Reza a lenda, ainda, que o outro gajo não percebeu a resposta.
O MNE diz que Kim Jong-nam não tem passaporte português, num tom a roçar o ultrajado. Parece que a notícia é vista, assim, como uma ofensa.

E se referendássemos qualquer coisa a propósito dessa notícia? Sei lá, podíamos argumentar que é uma violência sobre os orientais, e que ter regras de segurança cumpridas com bom rigor dá uma péssima imagem de Portugal, que assim passaria por uma país opressor e imperialista, tentando impor ao resto do mundo as suas convicções atávicas… Naaah, isto não seria imaginável… mesmo pela Ana Sá Lopes ou qualquer outra luminária do mesmo calibre… seria?

Oh meus amigos.
Como escreveu hoje Jacinto Lucas Pires,

Outra espécie de argumento consiste em dizer-se que o lado do "não" tenta impor as suas convicções a todos, ao passo que o do "sim" oferece a liberdade de escolha a cada um. A afirmação, que roça o antidemocrático, é inconsistente. Num referendo - por definição - escolhe-se. Não se trata de "impor" convicções a ninguém.
...
no plano político, esta parece-me das mais graves rendições da esquerda: a aceitação tácita de que o mundo, afinal, não é transformável e que, portanto, em nome da "falsa tolerância" de que falava Pasolini, o melhor é facilitar.

Não.

1.2.07

O post que se segue é uma manta de retalhos tecida com matéria-prima deste e daquele, blogs e amigos, temperada com o meu vinagre para enchimento à laia de trolha.



O argumento de que a lei não deve punir uma determinada conduta porque tal conduta não é moralmente sancionada pela maioria da comunidade é um bom argumento jurídico, mas totalmente irrelevante neste momento.

A comunidade também produziu um largo consenso acerca da necessidade de a questão se resolver mediante referendo (já que, em grande medida, o que se pretende é averiguar da vigência social da consulta anterior). Logo, a "consciência social maioritária" acha que a "consciência social maioritária" só será efectivamente conhecida com os resultados de dia 11.

O que dirão os defensores do "sim" que remetem para este argumento se o "não" vencer? Que o povo, estúpido como sempre, não sabe sequer que aquilo que pensa não é aquilo que pensa? Que a "consciência social maioritária" não sabe qual é a "consciência social maioritária"? Que mais valia que o povo descansasse e deixasse os destinos do país nas engenhosas e cuidadosas mãos do Daniel Oliveira?

Se o feto de 10 semanas é uma coisa, como diz Lídia Jorge, uma das sumidades intelectuais do Sim, e não um ser humano desde o momento da concepção, quando ocorre o momento mágico em que ele se transforma em vida humana? Que sinais podemos ter desse momento? Por exemplo, o ex-feto, olhar para o ecógrafo, esticar o polegar, e dizer, entre bolhas de líquido amniótico, «Já tenho sistema nervoso central»? E já agora, sendo coisa, será a ela que os poetas se referem quando falam na «coisa amada»?

Foi confrangedor ouvir os argumentos pelo SIM de Rui Rio ontem, na SIC - Notícias.
Rui Rio considera que a mãe aborta a pensar nos interesses do filho abortado. É um favor que a mãe lhe faz, portanto, a mãe defende o filho abortando-o e não o pondo neste mundo. E ele nem precisa de lhe agradecer.

Rui Rio afirmou até que diria à sua própria mãe que preferiria que ela tivesse abortado, acaso ela não o quisesse ter tido.

O que Rui Rio não compreende é que ele só poderia dizer isso à sua mãe se esta não o tivesse abortado pois se ela o tivesse abortado, Rui Rio não tinha possibilidade de lhe dizer coisa alguma, nem sequer lhe poderia agradecer a original defesa dos seus - de Rui Rio - interesses.

É por haver pessoas que pensam como Rui Rio, é por haver pessoas que não têm pudor de afirmar que estão a defender os interesses das crianças, ou dos embriões, eliminando-as, que o aborto a pedido NÃO pode passar. Com pessoas assim isto NÃO pode passar!

A pergunta do referendo no fundo engloba várias questões, o que a meu ver é grave porque baralha as coisas: 1 a despenalização das mulheres; 2 a despenalização de quem se dedica ao negócio (deste modo o aborto clandestino vai continuar e até aumentar porque muitas continuam sem querer dar o nome no Serviço Nacional de Saúde); 3 a liberalização total e absoluta do aborto até às 10 semanas sem necessidade de invocar quaisquer razões (o que torna as mulheres muito mais vulneráveis às pressões dos familiares e entidades patronais); 4 a obrigatoriedade do estado em financiar o aborto (em detrimento de outros tratamentos médicos à população em geral, que como sabemos já é muito mal servida).

Porque é que estou contra ? A questão fundamental é porque desde a concepção que está ali uma pessoa, seja ela perfeita ou não, seja ela desejada ou não. Não temos o direito de a matar em qualquer circunstância, no meu entender nem mesmo no caso de violação. Para mim o aborto só se devia praticar em caso de risco de vida para a mãe. O aborto também não é um método de contracepção. Não acredito que haja alguém que não saiba, hoje em dia, que pode engravidar se tiver relações sexuais. As pessoas arriscam e pensam que não vai acontecer com elas e assim continua a desresponsabilização.

No entanto sei que é impossível impor esta posição, que seria a ideal, pois a maioria das pessoas vê as coisas do ponto de vista imediato.

O que acontece se o Não ganhar ? Mantém-se a lei actual que, embora como já disse, não seja para mim a lei ideal, é uma lei equilibrada.

Em primeiro lugar o que acontece às mulheres ? A lei actual prevê para as mulheres que praticam aborto a pena máxima de 3 anos. No entanto, apresenta várias excepcões: mal-formação do feto, violação, risco de vida para a mãe e risco de saúde incluindo a saúde psíquica, o que permite invocar um leque muito grande de razões. Uma mulher que neste quadro jurídico se proponha abortar falará do seu problema com os técnicos de saúde que na situação desejável a tentarão ajudar a ponderar. Nao tenho a certeza que isto funcione da melhor forma mas pelo menos é melhor do que fazer as coisas a despachar e sem qualquer reflexão.
O que tem acontecido às mulheres que praticam aborto clandestino ? À portuguesa, muito poucas foram julgadas e tanto quanto sei nenhuma foi incriminada. Portanto todo esse alarido à volta das mulheres é desproporcionado. A lei actual confere assim maior protecção ao feto.

O que acontece a quem se dedica ao negócio ? Aqui a lei actual tem mão pesada e a meu ver muito bem. Pois se as razões para provocar aborto legal são bastante abrangentes não se justifica o aborto ilegal. E as parteiras, essas sim, põem de facto em grande risco, se não a vida, pelo menos a saúde física e psíquica das mulheres.

Também não concordo que o Estado pague a quem fazer o aborto só porque sim.

A nossa lei actual é semelhante à que existe pelo menos em Espanha e Alemanha. A que se pretende aprovar que eu saiba não tem paralelo na Europa.

Eu também não consigo julgar uma mulher que pratique aborto. Se alguém viesse ter comigo com esse problema, tentaria demovê-la de fazê-lo e tentaria ajudá-la o mais possível. Se mesmo assim persistisse e o fizesse, nem por isso deixaria de lhe oferecer apoio e amizade. Esse caso nunca se me apresentou directamente. Provavelmente conheço algumas que o escondem de tudo e de todos porque particar aborto é mesmo uma coisa traumática. Por outro lado, conheço várias mães solteiras que tiveram a coragem de continuar com as suas gravidezes e nenhuma se arrependeu, por mais difícil que tenha sido a situação. Todas estão contentes com as suas crianças, mesmo que actualmente a vida lhes seja difícil. Uma parte delas casou com outros homens que perfilharam as crianças como suas.

A vida tem muito mais saídas que a morte, que é irremediável.



Apetece-me desmontar o argumento do "eu confio na mulher, que não faz um aborto levianamente, por isso voto sim".

É tão simples que chateia.

Não faz? Qual mulher? Esta? E quanto àquela? Estão dentro da cabecinha de todas as mulheres? Conhecem a realidade fora dos gabinetes e do carrinho com ar condicionado? Confiarão igualmente que mulher alguma deitaria crianças no caixote do lixo, claro. E uma prostituta, uma drogada, ou uma assassina são todas vítimas da sociedade. Todos e todas, umas vítimas.

Despenalizem então a cópia "ilegal" de música; proíbam a SportTV de cobrar o fornecimento do serviço; legalizem o consumo de drogas, duras e leves; acabem com o limite de alcoolemia ao volante; vão-se todos, e todas, para a origem, para quem não vos abortou, e deixem-se lá estar.

Portugal ao mesmo nível da América Latina, nos salários, credibilidade e tolerância!

01.02.2007 - 09h04 PUBLICO.PT

Kim Jong-nam, o filho mais velho do líder norte-coreano, vive em Macau e tem passaporte português, avança a cadeia de televisão sul-coreana YTN.

...

Em 2001, sabe-se que foi deportado do Japão por ter entrado no país com um passaporte falso da República Dominicana. Na altura, Kim Jong-nam justificou-se, dizendo que estava apenas a tentar visitar a Disneylândia de Tóquio. O jornal South China Morning Post, de Hong Kong, afirma também que Kim Jong-nam viaja com passaportes de Portugal e da República Dominicana.


Sabe-se ainda que os salários auferidos por uma população são, de acordo com Manuel Pinho, directamente proporcionais à competitividade, mesmo num mundo infoglobalizado, onde o teletrabalho e a deslocalização já são endémicos há quase uma década.

Não importa que um Finlandês, para um custo de vida pouco superior no cabaz de compras essencial e com uma protecção social INCOMPARÁVEL COM A OFERECIDA EM PORTUGAL, por um lado aufira no mínimo o triplo de um português, e por outro NÃO GASTE metade sequer com a saúde, educação, consumo energético e comunicações.

É pá, façam-me um favor, ganhem vergonha e arrumem de vez com a fantochada das eleições.