17.4.07

Blog do dia

http://wehavekaosinthegarden.blogspot.com/

"Há dias e dias que se fala da licenciatura do Sócrates e muito se tem discutido e escavado a sua existência, mas em tudo isto onde está o facto verdadeiramente relevante? Está em haver a possibilidade de alguém ser quem na verdade não é, apenas por ser quem é ou por ter uma conta bancária bem recheada. Resumindo está na mentira. Esta, é a minha posição, mas pelos vistos não represento a voz da maioria das pessoas deste país. Talvez por ela, a mentira, já fazer parte do nosso dia a dia, muita gente a considere como algo de normal e aceitável. Afinal somos governados por um Partido Socialista que nada tem de socialista, partidos de direita que querem ser do centro, partidos sociais-democratas que na verdade são partidos de direita e partidos mais à esquerda que acabam a fazer o discurso do centro ao aceitar a economia de mercado, o liberalismo e a soberania europeia. Vivemos na mentira, na aldrabice dos números, das estatísticas e das promessas. Somos enganados diariamente por uma comunicação social que nos vende as mentiras encomendadas, que nos lava o cérebro para nos retirar o ânimo e a força para resistir. Somos embalados em notícias sem valor, em futebois coxos, com histórias de vidas alheias, com sonhos de milhões e imagens de miséria. A Democracia em que vivemos é toda ela uma enorme mascarada em que nos dão o poder de voto, mas não alternativas. Vivemos numa ignorância fabricada, e na certeza que mesmo na desgraça, ainda tivemos sempre muita sorte. A sorte de ter um salário de miséria, porque há muitos que perdem o emprego, a sorte de ter uma codea de pão para comer porque há muitos que nada têm, a sorte de morrer agora porque houve muitos que morreram ontem. Vivemos na mentira e por isso a aceitamos tão calmamente. Será que ainda suportaríamos viver num mundo livre dela? Eu gostava de tentar."


(retribuindo)


A Late Good Night

My lamp is out, my task is done,
And up the stair with lingering feet
I climb. The staircase clock strikes one.
Good night, my love! good night, my sweet!

My solitary room I gain.
A single star makes incomplete
The blackness of the window pane.
Good night, my love! good night, my sweet!

Dim and more dim its sparkle grows,
And ere my head the pillows meet,
My lids are fain themselves to close.
Good night, my love! good night, my sweet!

My lips no other words can say,
But still they murmur and repeat
To you, who slumber far away,
Good night, my love! good night, my sweet!

- Robert Fuller Murray

16.4.07

Querido / Sócrates

Paulo Querido e José Sócrates têm agora algo evidente em comum: o sr. Pinto de Sousa usa, à boca cheia, a expressão "os portugueses" (os portugueses querem, os portugueses sabem bem, os portugueses não gostam) como se fosse dono, senhor, enfim déspota reinante sobre o conteúdo programático de cada membro da Nacinha, vivo, morto ou nascituro; ao passo que o outro rapaz, projecto "uber-geek" de nano-controlador, pretende fazer de si mesmo a voz de uma blogosfera que só existe nos delírios que vem alimentando há vinte e tal anos.

15.4.07

To all Isabels

maggie and milly and molly and may


maggie and milly and molly and may
went down to the beach (to play one day)

and maggie discovered a shell that sang
so sweetly she couldn’t remember her troubles,and

milly befriended a stranded star
whose rays five languid fingers were;

and molly was chased by a horrible thing
which raced sideways while blowing bubbles:and

may came home with a smooth round stone
as small as a world and as large as alone.

For whatever we lose(like a you or a me)
it’s always ourselves we find in the sea


- ee cummings

Roubado de fresco ao nova-frente.blogspot... :)

NOVAS OPORTUNIDADES

Nos postais abaixo, uma visão nova-frentista sobre a grande aposta na qualificação. A empresa do século.

ESTE É O BILL GATES QUE ACABOU OS ESTUDOS

Aos 19 anos quis abandonar a universidade e iniciar um negócio de informática na garagem. A mãe, muito avisada, demoveu-o da tolice. O jovem William acabou os estudos e hoje é programador de sistemas no Ministério da Agricultura.
Não desistas de estudar. Aprender compensa.

ESTE É O LUÍS FIGO QUE ACABOU OS ESTUDOS

Ainda adolescente, pretendeu abandonar a escola e o seu clube de bairro, na Cova da Piedade, para ser profissional de futebol. Os pais não consentiram. Luís Figo acabou os estudos e hoje é chefe de contabilidade na Câmara Municipal de Almada.
Não desistas de estudar. Aprender compensa.

ESTE É O BERARDO QUE ACABOU OS ESTUDOS

Aos 18 anos pensou em emigrar para a África do Sul, mas prosseguiu na escola. José Berardo acabou os estudos e hoje é chefe de segurança no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Não desistas de estudar. Aprender compensa.

ESTE É O SARAMAGO QUE ACABOU OS ESTUDOS

Quando jovem pensou em exercer a actividade de serralheiro mecânico e dedicar-se à literatura. Os amigos convenceram-no a matricular-se no Técnico e expandir os seus horizontes culturais. José Saramago acabou os estudos; hoje é director de produção da AutoEuropa e conselheiro nacional do PSD.
Não desistas de estudar. Aprender compensa.

ADENDA 1: ESTE É O PINTO DA COSTA QUE ACABOU OS ESTUDOS



ADENDA 2: ESTES SÃO OS SÓCRATES QUE ACABARAM OS ESTUDOS


Jantei com meus pais, que de viva memória sabem bem o que foi a PIDE/DGS; eu somente o sei por interposta experiência, já que ainda não senti na pele o rigor aberto de a ver na rua, impune; de a cheirar em cada autocarro, em cada paragem; nos mercados, nas farmácias; sei apenas que funciona em gabinetes, sob um cone de biombos sem cor. Mas persiste. Persiste e prepara-se para comer, a cada português, um dia de vida, como em tempos Costa Martins, ministro traidor, lhes comeu um dia de trabalho, assim haja memória. E eu não quero permitir que a PIDE/DGS renascida, refeita a partir da argamassa daqueles que andavam há uns anos em cima das mesas a arder, declamando inflamados por uma vida liberta, venha agora cobrar aos nossos filhos aquilo que jamais terá direito de cobrar: o ar que respiram.
http://tvi.iol.pt

José Sócrates foi questionado pelo tribunal de Guimarães sobre a origem do dinheiro usado para adquirir a sede do PS de Felgueiras. A magistrada está a investigar a possível existência de um segundo saco azul em Felgueiras.

Com as respostas do secretário-geral socialista, a juíza ficou a saber que a sede não pertence ao PS e que o partido não paga qualquer renda por estar ali instalado há oito anos.

A TVI tentou obter uma explicação de José Sócrates para a situação, só que o líder do PS diz que não conhece o assunto, apesar de ter trocado cartas com o tribunal há apenas quinze dias.

No processo está a ser investigado se alegadamente a sede não terá sido comprada por Fátima Felgueiras com dinheiro de empresários alegadamente em troca de favores da Câmara. A magistrada Maria Fortuna Rodrigo perguntou a José Sócrates qual a origem do dinheiro que permitiu comprar a sede. A resposta, datada de 29 de Dezembro do ano passado, Sócrates revelou que afinal a sede não pertence ao partido. «Nos registos do património propriedade do PS não consta qualquer imóvel em Felgueiras», informou o secretário-geral por ofício ao tribunal.

A TVI teve acesso a um contrato de compra e venda em nome de Júlio Faria, presidente da câmara anterior de Felgueiras, deputado do PS e um dos principais arguidos do processo Saco Azul.

Não satisfeita com a resposta de Sócrates, a juíza voltou a perguntar, a 24 de Janeiro, a quem é que o PS paga renda pelo uso das instalações do PS. A 30 de Janeiro o chefe do gabinete de José Sócrates respondeu; «o local onde actualmente se encontra sedeado o PS de Felgueiras não é arrendado e nada consta sobre a eventual futura aquisição por parte do partido».

A sede é um dos andares de um edifício no Campo da Feira e a TVI sabe que continua registado em nome da empresa SOCOFEL, uma construtora de grande relevância em Felgueiras. Para além do edifício da sede, a construtora fez o maior prédio de habitação da cidade e dois centros comerciais com andares de habitação que ocupam quase meia avenida.


    Watch the sun
As it crawls across a final time
And it feels like
Like it was a friend
If it's watching us
And the world we set on fire
Do you wonder
If it feels the same?

And the sky is filled with light
Can you see it?
All the black is really white
If you believe it
As the time is running out
Let me take away your doubt
We can find a better place
In this twilight

Dust to dust
Ashes in your hair remind me
What it feels like
And I won't feel again
Night descends
Could I have been a better person?
If I could only
Do it all again

But the sky is filled with light
Can you see it?
All the black is really white
If you believe it
And the longing that you feel
You know none of this is real
We will find a better place
In this twilight
    (Reznor)
I sometimes feel like an alien creature
for which there is no earthly explanation

Sure I have human form
walking erect and opposing digits,
but my mind is upside down.
I feel like a run-on sentence
in a punctuation crazy world.
and I see the world around me
like a mad collective dream.

An endless stream of people
move like ants from the freeway
cell phones, pc's, and digital displays
"In Money We Trust,"
we'll find happiness
the prevailing attitude;
like a genetically modified irradiated Big Mac
is somehow symbolic of food.

Morality is legislated
prisons over-populated
religion is incorporated
the profit-motive has permeated all activity
we pay our government to let us park on the street
And war is the biggest money-maker of all
we all know missile envy only comes from being small.

Politicians and prostitutes
are comfortable together
I wonder if they talk about the strange change in the weather.
This government was founded by, of, and for the people
but everybody feels it
like a giant open sore
they don't represent us anymore

And blaming the President for the country's woes
is like yelling at a puppet
for the way it sings
Who's the man behind the curtain pulling the strings?

A billion people sitting watching their TV
in the room that they call living
but as for me
I see living as loving
and since there is no loving room
I sit on the grass under a tree
dreaming of the way things used to be

Pre-Industrial Revolution
which of course is before the rivers and oceans, and skies were polluted
before Parkinson's, and mad cows
and all the convoluted cacophony of bad ideas
like skyscrapers, and tree paper, and earth rapers
like Monsanto and Dupont had their way
as they continue to today.

This was Pre-us
back when the buffalo roamed
and the Indian's home
was the forest, and God was nature
and heaven was here and now
Can you imagine clean water, food, and air
living in community with animals and people who care?

Do you dare to feel responsible for every dollar you lay down
are you going to make the rich man richer
or are you going to stand your ground

You say you want a revolution
a communal evolution
to be a part of the solution
maybe I'll be seeing you around.

- Woody Harrelson
Manha e Falso Prestígio
Os dois males de que sofre a vida portuguesa

José de Almada Negreiros*

Há, sim senhor!
Há um Portugal sério, um Portugal que trabalha, que estuda; curioso, atento e honrado! Há um Portugal que não perde o seu tempo com inimigos fantásticos e cujo o único desejo é apenas e grandemente ser Ele próprio! Há um Portugal, o único que deve haver e que afinal é o único que não anda por causa dos vários Portugais inventados de todos os lados de Portugal! Há um Portugal profissionalista, civil e insubornável! Há, sim meus senhores!
Mas entretanto…
Entretanto, a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos. E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a falso prestígio. É o que mais há agora por aí em Portugal: os falsos prestígios.
E vai-se dizer de quem é a culpa de haver manhosos e falsos prestígios: a culpa é nossa, é só nossa! Não há nenhum português, nem o escolhido entre os melhores, que não tenha forte parte nesta culpa. Porque os portugueses, os bons, os melhores, os sérios, os inteiros, enfim os portugueses (se se entendesse bem esta palavra) não sabem, ou melhor, não desejam lutar contra a manha dos que chegam a ser ou favorecem os falsos prestígios. Ora, a maneira de lutar contra a manha não é manha e meia, antes pelo contrário, é a de detestá-la absolutamente, e mais, desmascarando-a publicamente e ali mesmo. Senão ouvi:
É completamente impossível esmerar-se cada qual apenas no que produz de correcto dentro da sua profissão. Para que fosse possível seria necessário que o conjunto colectivo correspondesse de facto à qualidade de toda e qualquer profissão. Impossível aqui em Portugal. O momento tem a realidade imperativa do seu instante. Aqui não se distingue o correcto do impróprio. É necessário vir explicá-lo na praça pública.
Todo aquele que cuide que lhe bastará para progredir na sua profissão o ser probo nos seus estudos e produções, engana-se terrivelmente, pois que lhe falta ainda e sobretudo o seu dever cívico de encarreirar as gentes e livrá-las dos glosistas, pasticheurs e até mixordeiros de toda e qualquer profissão. É urgente e actualíssimo vir até ao público e denunciar-lhe como o comem por parvo com falcatruas, e lhe dão gato por lebre.
Efectivamente o único complicado aqui é a maneira de liquidar os manhosos. É complicado porque eles escapariam até aos gases asfixiantes! É complicado porque eles conhecem a fundo e melhor do que ninguém como funciona a superstição sentimental das gentes e, confessamo-lo, servem-se dela admiravelmente. Tão admiravelmente que ganham sempre com as recansadas fórmulas que ainda são inéditas para tantos: oficiais do mesmo ofício, invejas, concorrências, etc… evitando simplesmente a polémica técnica e a discussão do mérito. E francamente, eles não deixam de ter carradas de razão, carradíssimas de razão ao confiar em que isso do mérito em Portugal é questão de cara ou coroa. Pois apesar disso ainda fazem batota por cima. Por cima, não, por baixo: de cócoras, beijoqueiros, manteigueiros e por último descarados. Um autêntico e constante desfile de atropeladores à coca do lugar de falso prestígio. E chegam lá. Depois rebentam.
A culpa de ser a nossa querida terra tão propícia à vegetação dos manhosos e à arribação dos falsos prestígios, essa culpa é incomparavelmente menos misteriosa do que possa parecê-lo à simples vista. Ela não está na inocência dos simples e dos leigos que servem sem querer e sem saberem de trampolim elástico para o salto mortal dos cambalhoteiros. A culpa, meus senhores, é de nós todos e sobretudo nossa. Nossa porque tivemos sempre muitíssima mais razão do que serenidade para dizermos com toda a claridade a razão que temos. Esta nossa falta de serenidade tem sido, oiçam-nos bem, meus senhores, a grande vantagem, a maior de todas, e da qual os manhosos melhor se servem para acabar de convencer o público lá pelos seus processos nada invejáveis. Este terreno é deles e são naturalmente dos maitress chez soi. Façamo-los vir para o nosso. E não esqueçamos tão pouco que eles sabem muito bem que o público se convence melhor com o sonoro do que com o mudo. Sejamos, pois, tão sonoros como eles mas nitidamente contrários.
Declaremos a guerra ao empenho, à cunha, à apresentação, ao salamaleque, à porta travessa, à côterie, às amizades e às inimizades pessoais, e a toda essa gama de pechotice que medra e faz medrar a marmelada nacional. E, sobretudo, com toda a serenidade, lancemo-nos definitivamente ao ataque dos manhosos e dos prestígios, esta vergonha maior de Portugal, e que seja tão nítido o nosso ataque, tão clara a nossa razão e tão serena a nossa atitude, que, nunca mais aconteça o que até aqui, em que a nossa indignação e protesto eram movidos com tão justo calor português que nem se davam conta das falhas que arrasta consigo a serenidade, essas falhas legitimamente nossas e que as sabem tão bem pescar os manhosos, ou como diz o povo, os aldrabões!
A verdade é esta: o nosso combate aos manhosos até hoje teve o triste resultado de se poder confundir com o dos caluniadores e dos invejosos. Façamos grandemente atenção a isto mesmo e teremos liquidado o último recurso dos manhosos. Estamos a nós próprios um desaire a que estão sujeitos os caluniadores e os invejosos, os quais são, bem contrariamente, o único gás com que afinal sobe de verdade o aeróstato do falso prestígio!
Conheceis certamente aquela história da Antiga Grécia, onde um homem que tem de castigar um escravo é tomado de ira, de tal maneira que é forçado a suspender o castigo, dizendo-lhe: o que a ti te vale é eu estar tão irado, senão, se eu tivesse serenidade neste momento, não perdias nenhuma das que eu te queria dar.
Ora, meus senhores, nem toda a gente é susceptível de dispor de serenidade, e os menos susceptíveis de todos são francamente os manhosos.

* in Diário de Lisboa de 3 de Novembro de 1933
Até não haver partidos, fantoches ou ilusão.

Que denominador comum pode haver entre o zeitgeist corrente e as reeleições, sistemáticas, de energúmenos e chico-espertos? Quanto a mim, haverá três: o medo; a falta de auto-estima; e o egoísmo. Sendo o segundo consequência do primeiro, e o terceiro consequência do segundo, torna-se claro que, atavicamente, o motor primário (o medo) deriva numa consequência última - a substituição do raciocínio, que devia ser o único crivo das escolhas e das acções, por reflexos de nível inferior traduzidos em comportamentos de negação, reacção histriónica e, ultimately, de matilha.

É por isso que o português visível, médio, o que anda na rua e alimenta os regimes, é um pobre macaco sufocado, condicionado, amedrontado, mas que não sabe sê-lo e, como tal, reage em defesa daquilo que lhe proporciona a mais imediata noção de segurança, conforto e pertença.


"O filho-da-puta é sempre aquilo que os outros filhos-da-puta do momento e do lugar são; é, porque é isso que «convém» ser, e portanto é isso que ele é. O filho-da-puta insere-se sempre no processo em curso qualquer que ele seja, e esse é mais um traço distintivo do filho-da-puta. O filho-da-puta colabora, e está sempre no vento, sempre na maré, sempre na onda. O filho-da-puta é sempre no mais alto grau possível aquilo que «convém» ser no lugar e no momento em que vive.

O grande problema, a grande desorientação, a infelicidade suma do filho-da-puta ocorre naqueles momentos de transição, de incerteza quanto ao rumo dos acontecimentos, naqueles momentos em que a balança está parada por instantes e não se sabe qual o prato de maior peso; é nesses momentos que o filho-da-puta se torce e contorce, na busca desesperada de «parâmetros», dos seus queridos parâmetros, ou simplesmente de uma via, de um rumo, da sua via, do seu rumo de filho-da-puta. É nessas ocasiões sobretudo que ele, o filho-da-puta, se queixa, que aparece em todos os lugares dizendo «isto está mau», e não adiantando mais nada. Sim, para o filho-da-puta nada pior que não saber qual é a preocupação dos outros, não saber enfim o que os outros pensam, o que os outros acham, o que os outros sabem. É por isso que organiza testes, toda a espécie de testes, e programas, toda a espécie de programas, e sondagens, toda a espécie de sondagens, e inquéritos, reuniões de grupo, reciclagens, estágios, exames, modos de através de um ritual de perguntas e respostas tentar apurar dos outros o que os outros normalmente tentam também apurar dele: o que pensam, o que acham, o que sabem da vida uns dos outros. Mas quanto mais normalizadas são as perguntas e as respostas, maior é também a sensação que o filho-da-puta experimenta de nada saber. É por isso que cada vez mais promove órgãos de orienta*ção geral, instrumentos para levar a pensar ou a não pensar, a fazer ou a não fazer, a falar ou a não falar, sempre segundo os mesmos critérios nas mesmas circunstâncias. Serviços técnicos, gabinetes de coordenação, institutos de apoio, centros de divulgação e de documentação, departamentos de planejamento, setores de estatística, gabinetes de gestão, comissões do am*biente, núcleos de inspeção, canais logísticos, serviços de reconhecimento, postos de fomento, institutos de reorganização, delegações de investigação, grupos de trabalho permanente, «workshops», centros de observação, serviços coordenadores de estudos, registros centrais, divisões de fiscalização e comissões de apoio às iniciativas centrais. Por sua vez, estes órgãos são apoiados por outros de mais largo alcance; se, para esse efeito, em certos lugares e épocas utiliza a sua psiquiatria, noutros utiliza a sua inquisição, e noutros serve-se da sua televisão e demais órgãos de qualidade de vida; pode servir-se do seu jornal ou da sua falta de jornal, do seu partido único ou da sua pluralidade de partidos, pode servir-se de prêmios ou de castigos, de gratificações ou de transferências. Isso mesmo. Não há nada que o filho-da-puta não faça e não há nada que não sirva os seus desígnios."

- Alberto Pimenta, Discurso sobre o filho-da-puta, Ed. Codecri, 1983

O que eu adoro esta demonstração

Here is the well known identity that e^(ix) = cos(x) + i.sin(x)

Then let x = pi. cos(pi) = -1, sin(pi) = 0
so e^(i.pi) = cos(pi) + i.sin(pi)
= -1 + 0
and so e^(i.pi) = -1

From this you can also write the FAMOUS FIVE equation connecting the
five most important numbers in mathematics, 0, 1, e, pi, i

e^(i.pi) + 1 = 0

To show the truth of the identity quoted above we let
z = cos(x) + i.sin(x)
Then dz/dx = -sin(x)+i.cos(x)
= i{cos(x)+i.sin(x)}
= i.z

So dz/z = i.dx Now integrate
ln(z) = i.x + const. When x=0, z=1 so const=0
ln(z) = i.x

z = e^(i.x)

So cos(x) + i.sin(x) = e^(i.x)

-Doctor Anthony, The Math Forum.

14.4.07

Como não podia deixar de ser, saudamos a estreia do João Miranda, curiosamente no DN, mas pronto.


A vida humana é quase inviolável

A Constituição da República Portuguesa no seu artigo 24 diz expressamente que "a vida humana é inviolável". Trata-se de uma ideia sensata se pensarmos em questões como a pena de morte ou o infanticídio. No entanto, o artigo 24 poderá revelar-se um empecilho ao avanço da civilização no caso do aborto a pedido da mulher até às dez semanas. É que quando se diz que a vida humana é inviolável pretende-se com isso dizer precisamente que a vida humana é inviolável. Não se pretende dizer que é violável até às dez semanas.

Um feto com menos de dez semanas encontra-se inegavelmente vivo. Aliás, creio que o problema é precisamente esse. É por estar vivo que se coloca a hipótese de aborto por vontade da mulher até às dez semanas. E um feto é humano. Por incrível que possa parecer, tem um genoma idêntico ao de um ser humano adulto. É inegavelmente um Homo sapiens sapiens. Não adianta desconversar, alegando que um feto não tem as características necessárias para que possa ser considerado uma pessoa, porque a Constituição não protege apenas a vida das pessoas, protege a vida humana, mesmo as vidas humanas que não têm consciência ou não sentem dor.

Felizmente, o sr. Presidente da República teve a sensatez de não enviar a nova Lei do Aborto para o Tribunal Constitucional. Tal seria extremamente cruel para os juízes do Tribunal, os quais, para não colocar em causa a vontade popular expressa em referendo, teriam que se contorcer para mostrar que, apesar das aparências em contrário, o feto não está vivo nem é humano.

Mas se calhar não precisariam de chegar a tanto. Como se sabe, o constitucionalismo é bem mais do que uma ciência exacta. É duas ciências exactas, uma de esquerda e outra de direita. É possível encontrar pareceres, escritos por doutos constitucionalistas, irrepreensivelmente sustentados, a defender qualquer ideia, desde que vá de encontro às preferências políticas do seu autor.

Esta tarefa encontra-se facilitada, porque a nossa Constituição é a mais avançada do mundo. Nela está consagrado tudo e o seu contrário. Por isso não devemos subestimar as nuances da ciência constitucional. Um constitucionalista mais astuto pode sempre contornar a questão da vida humana do feto, alegando que a lei do aborto é a melhor forma de manter a vida humana inviolável. Contraditório? Só para mentes pouco sofisticadas. Um constitucionalista astuto argumentaria que, dado que vivemos num mundo imperfeito em que se praticam abortos todos os dias, a melhor forma de preservar a vida humana é através da institucionalização da eliminação do feto, de preferência se a prática não tiver custos para quem aborta, isto é, se for realizada em hospitais públicos e se for subsidiada pelo dinheiro dos contribuintes.

Com vénia à Punctum contra Punctum,

...que escreveu hoje no BraganzaMothers que...



no papel timbrado da Universidade Independente, no rodapé, entre outras informações, constam o endereço (físico e electrónico) e os números de telefone e de fax ( 351 21 836 19 00 e 351 21 836 19 22). Só que,... em 1996, os números de telefone não apresentavam os indicativos 21, 22, 290, mas sim, 01, 02, 090... etc, como aliás, pude confirmar (a alteração só foi feita em 31 de Outubro de 1999).

Um pouco mais à frente, consta ainda, um código postal composto por sete algarismos (1800-255), o que é deveras estranho, uma vez que só em 1998 começa a ser utilizada esta nova forma de indicação.

Conclusão: o certificado parece ter sido emitido, não em 26/08/1996, mas em data posterior a 31 de Outubro de 1999.

O problema ("o maior dos problemas") reside no facto de o Gabinete do primeiro-ministro já ter esclarecido, que a data válida era mesmo a do certificado que se encontra na Câmara da Covilhã.
http://jn.sapo.pt/2007/04/14/nacional/socrates_enganouse_referencias_reito.html

O professor Luís Arouca não era, à data em que comunicou a José Sócrates o plano necessário para concluir a licenciatura, reitor da Universidade Independente (UnI). Ernesto Costa, actual docente do Departamento de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra, confirmou ao JN ter sido o primeiro reitor do estabelecimento, de Junho de 1993 a Junho de 1996 (altura em que Sócrates estava a terminar o ano lectivo).


Em toda a informação até agora vinda a público, Luís Arouca, que sucedeu a Ernesto Costa, foi citado como sendo o reitor da instituição quando Sócrates a frequentava. Tal facto foi sublinhado pelo primeiro-ministro na entrevista conjunta à RTP e à Antena 1. Questionado sobre as dúvidas surgidas em relação ao docente que leccionou a disciplina de Inglês Técnico e se este era o reitor Luís Arouca, José Sócrates responde "Quem me deu a cadeira de Inglês Técnico foi o reitor da universidade".

A referência, repetida seguidamente, é justificada pelo gabinete do primeiro-ministro como resultante do facto de Luís Arouca ter desempenhado aquele cargo "durante anos, a partir de 1996". O que importa, acrescenta a mesma fonte do gabinete, é que toda a documentação do aluno é dirigida simplesmente "ao reitor da universidade".

O que falta clarificar é em que qualidade assinou Luís Arouca a carta, datada de 12 de Setembro de 1995, em que comunica ao candidato José Sócrates as quatro cadeiras que a comissão científica da Faculdade de Tecnologias lhe exigia que completasse. Esclarecimento que o gabinete do primeiro-ministro remete para a Universidade Independente, enquanto Arouca se escuda no silêncio. "Estou em blackout sobre esta matéria", disse ao JN.

Ernesto Costa, que será decisivo para esclarecer as dúvidas levantadas, explica que esteve toda a semana numa conferência no estrangeiro. Ao final da tarde de ontem, acabado de regressar, assegurou não ter ainda visionado a entrevista do primeiro-ministro. Daí que, por enquanto, não preste quaisquer declarações. "Neste momento, tudo o que direi é isto era reitor da universidade entre 1993 e Junho de 1996".
Transcrevo um comentário da autoria de alguém que assina, imagine-se, Conde de Abranhos :) A bem da verdade, as dúvidas suscitadas parecem-me, no mínimo, pertinentes.



No 2º Certificado de Habilitações de José Sócrates
cujo original (Timbrado com os dados da Universidade Independente) está na posse da Câmara Municipal da Covilhã, assinado pelo Reitor (Prof. Doutor Luis Arouca) e atestado no Espaço Reservado aos Serviços por "O Chefe de Secretaria" (Ass. irreconhecível) consta "Declaração Nº 601" "Data 96/08/26", como se pode verificar na 1ª Pag.

Surge em Rodapé os contactos da UNI, Morada com o Código Postal 1800-255, Tel.: 351 21 836 19 00 e Fax.: 351 21 836 19 22,etc...

A ANTECIPAÇÃO, OUTRA VEZ...
Como seria possível já nessa data (96/08/26) a UNI usar papel Timbrado com Normas que só viriam a ser adoptadas em 1998 para o Código Postal e em 1999 para os Números de Telefone????

Introdução do Código Postal de 7 Dígitos em 09/10/1998

Introdução do Plano Nacional de Numeração telefónica de 9 Dígitos em 31/10/1999

13.4.07

De concursos, Malato e Sinistras

É natural, sob uma sequência de regimes que têm privilegiado a omnisciência do Estado em detrimento do mais elementar senso comum e do rasgo intelectual do indivíduo, que seja raro alguém acertar numa maioria das questões apresentadas no concurso "Um contra Todos". Não é que sejam difíceis - não o são, e se algum dia lá for, o que direi a JCM será, em tanto rigor quanto possível, aquilo que está escrito no primeiro parágrafo deste post. E a consubstanciar a minha afirmação, recordo um caso que me é caro, de alguém outrora próxima, que embora dotada de extrema acuidade mental e académica, jamais deu um passo no seu percurso que não fosse orientado pelo aparente modus faciendi preconizado pelas instituições, mesmo que tal implicasse atrasar tudo sete ou oito semanas, para depois chegar às instituições e lhe ser dito, por mecanizados funcionários, algo do género "mas porque é que esperou estas sete semanas, podia ter feito logo isto e depois vinha cá carimbar". Grave é quando as pessoas aplicam este mesmo procedimento ao lado socioemocional da vida, e neste país, neste momento, a anestesia imposta já é de tal ordem que são poucos os que não o fazem.
Há muitos anos, numa certa noite de Verão, um carro fazia a grande velocidade a estrada marginal em direcção a Lisboa. Devia ser bonita a viagem porque bonito é o traçado dessa estrada e porque bonitas são todas noites de Verão ao pé do mar. E bonitas, lindíssimas até, eram as ocupantes que, seguindo em automóveis particulares de boa marca em direcção a Cascais, se cruzavam com esse carro oficial. Não é provável que os viajantes – os dos automóveis particulares, por um lado, e os da viatura oficial, por outro – tenham sequer cruzado um olhar nessa noite de Setembro. O mais certo é que apenas o mar e a Lua tenham notado como os sorrisos de quem viajava para Cascais contrastavam com o olhar inquieto dos homens que seguiam no carro de Estado, como então se chamava às viaturas oficiais. E tinham razões para sorrir os primeiros pois dentro de minutos estariam num dos acontecimentos mais extraordinários que até então tivera lugar em Portugal, a festa Patiño. Quanto aos segundos, a cada quilómetro vencido viam confirmados os seus piores receios. A dado momento, um dos passageiros perguntou ao homem que ocupava as suas atenções em que universidade se tinha ele formado. Não sabia. Peguntou-lhe em seguida em que ano se formara. Também não se lembrava. Nesse momento os outros ocupantes do carro de Estado perceberam que o Estado português era chefiado por um incapacitado.

Salazar, porque é dele que se trata, não sabia quem era. Cada vez mais apressada, a viatura segue para o hospital dos Capuchos. Também apressados, os convidados de Antenor Patiño, o rei do estanho, vão chegando a Alcoitão. Uma passadeira vermelha leva-os até àquilo que a imprensa define como um palácio suspenso. Enquanto, ao ritmo frenético dos Pentágono, nas pistas de dança se cruzam Gina Lollobrigida, Maria Félix ou a princesa Margarida da Dinamarca, Salazar, sentado numa cadeira de rodas, é submetido a exames nos velhos hospitais de S. José e dos Capuchos e, por fim, é levado para a Cruz Vermelha. Durante a madrugada, a claustrofóbica nomenclatura do regime é confrontada com a realidade. “O país está sem Presidente do Conselho” repete Gonçalves Rapazote. Perante o vazio de poder, os médicos tomam uma decisão: “Vamos operar o doente do quarto nº 68”. Enquanto, em Benfica, Salazar é operado, em Alcoitão, os convidados mais festivos de Patiño, vêem nascer o dia bebendo taças de chocolate à volta da piscina. A essas mesmas horas a censura atrasa a publicação, pel’O Século, da notícia da hospitalização de Salazar, notícia essa conseguida em primeira mão por um jornalista daquele periódico que se encontrava no hospital de S. José quando Salazar ali chegara vindo do Estoril. Será a Emissora Nacional quem anuncia o sucedido aos portugueses através da leitura dum oficiosíssimo boletim médico.
Quase quarenta anos depois alguns dos elementos deste drama teimam em voltar à cena: um chefe de governo que perde a capacidade de liderança; uma nomenclatura que não sabe viver sem chefe, até porque o chefe gostava de o ser e não autorizava outros protagonismos; élites económicas desdenhando do poder político que as alimentou assim que percebem que este está descredibilizado; um país que não distingue autoritarismo do exercício do poder e por isso fez e faz do princípio do mal menor o seu critério para entronizar os líderes. E como metáfora de tudo isso, vagueando em São Bento, alguém que acredita ser primeiro-ministro. E na rua um povo que mais do que acreditar em quem o governa, precisa de acreditar que tem governo.

- Helena Matos
(PÚBLICO, 12 de Abril)

12.4.07

http://www.wienerzeitung.at/Desk...=wzo& cob=279357

Hat Portugals Premier Diplom gefälscht?

Lissabon. Vorwürfe, sein Hochschulabschluss sei gefälscht, bringen den sozialistischen portugiesische Ministerpräsident José Socrates in Bedrängnis. Seriöse Zeitungen wie "Publico" oder "Expresso" berichten in diesem Zusammenhang von "Unregelmäßigkeiten". Socrates, der Bauingenieurwesen studiert hat, habe laut Unterlagen der privaten Universidade Independente an einem Tag bei demselben Professor gleich mehrere Abschlussprüfungen abgelegt. Außerdem würden auf Studienunterlagen die Unterschrift des Dozenten oder das Siegel der Universität fehlen.
Socrates selbst sagt in einem Interview, die Vorwürfe seien "Teil einer böswilligen Kampagne", um seinen Ruf zu schädigen und seine Regierung zu schwächen.

Donnerstag, 12. April 2007
A ditadura dos inspectores

João César das Neves



O nosso tempo é desconfiado. Um dos traços de carácter mais influentes e ocultos da nossa era é a suspeita latente dos cidadãos. Ao mesmo tempo, porém, a nossa sociedade céptica tem uma fé ingénua na lei. O resultado desta insólita combinação é que a vida hoje é regida, estatuída e restringida de uma forma que não tem paralelo em qualquer outro tempo e lugar.

Existem regulamentos, decretos, portarias para todos os temas e assuntos. De vez em quando os jornais denunciam indignadamente a falta de regulamentação de uma qualquer actividade, manifestando assim esta patética exigência: os detalhes mais ínfimos da nossa vida têm de estar sujeitos ao minucioso controlo da legislação.

Para que essas cláusulas sejam cumpridas existe um enorme exército de fiscais, inspectores e vigilantes que, em variados sectores, se dedicam a acompanhar, denunciar e punir a violação dos tais regulamentos.

Tudo isto é feito, obviamente, em nome de princípios elevados: a saúde pública, qualidade alimentar, educação responsável, segurança nas estradas, combate ao crime, eliminação da corrupção, defesa do ambiente e mil outros objectivos louváveis.

Mas o Estado democrático suporta aí um poder mais totalitário e minucioso que as piores ditaduras.

O problema é que a lei é um instrumento grosseiro e brutal. Ela não consegue, de facto, substituir a adesão livre, a cooperação social, a honorabilidade pessoal. Assim, as leis têm muita dificuldade em promover os objectivos proclamados nos seus articulados.

Quando chega um inspector a uma escola, não lhe interessa se os alunos são bem ensinados ou se aquela é uma comunidade educativa saudável e funcional. Ele tem é de medir as janelas, contar as sanitas, calcular os metros quadrados por criança. Se algum dos miríades de indicadores prescritos estiver fora do nível fixado pela lei da Nação, a escola é multada, obrigada a obras incomportáveis ou até fechada. Que os principais prejudicados por isso sejam os alunos é absolutamente irrelevante para os fiscais.

Uma visita de inspecção a um restaurante ou loja alimentar não se ocupa da qualidade da comida ou da satisfação dos clientes. Tem é de registar os prazos nominais dos alimentos, observar as condições de exaustão de fumos, exterminar galheteiros, colheres de pau e outros instrumentos nocivos. Normalmente, a presença da Inspecção implica a destruição de toneladas de comida em excelentes condições, cometendo os fiscais um desperdício muito mais criminoso do que os que tentam evitar. Entretanto, os comerciantes são multados ou até presos, não por venderem produtos avariados, mas por terem nas instalações "condições de embalagem e refrigeração desadequadas".

Naturalmente que os casos de sucesso atraem mais as fiscalizações. Uma empresa lucrativa, uma escola procurada, um festival gastronómico são presas apetecidas. E há sempre algum parágrafo por cumprir, o que alegra o estéril fiscal, satisfeito por revelar a fútil aparência do tal sucesso. Toda a criatividade, inovação, originalidade é contra os regulamentos. Só a mediocridade apática passa na inspecção.

Já a Antiguidade dizia que a lei tem de ser aplicada com equidade. Esta virtude resume o bom senso do juiz na análise das circunstâncias concretas do caso. Quem viole a letra da lei com razões poderosas, justificáveis e até legítimas, deve ser absolvido. Mas como se pode exigir esta elevação a uma multidão de inspectores, em múltiplas visitas diárias? Aliás, mesmo que um fiscal seja sensato e compreenda as razões do incumprimento, o mais provável é que venha a ser denunciado como negligente ou corrupto por um colega zeloso. Os regulamentos são sagrados. A severidade, mesmo injusta e destruidora, é o sinal que consola a sociedade nos seus propósitos elevados.

Devido à obsessão moderna pela saúde, educação, ambiente e outras abstracções, e sobretudo à enorme desconfiança em que vivemos, os inspectores têm uma autoridade que nenhuma outra classe possui. Eles são, ao mesmo tempo, detectives, acusadores, juízes e executores. Quanto mais elevado é o valor em causa, mais graves os efeitos. Hoje é concedido a funcionários o poder supremo de tirar filhos a seus pais.

Os poderes regulamentar e inspectivo são muito mais eficazes que os poderes legislativo e judicial. Exagerados, ficam asfixiantes. A sociedade que substitui a confiança nos cidadãos pela letra da lei acaba na ditadura, por mais elevados que sejam os seus propósitos.

4 sobre 1

(fonte: Público, via http://contra-a-corrente.blogspot.com/2007/04/4-sobre-1.html)

Vasco Pulido Valente
"O sr. primeiro-ministro negou ontem na televisão, indignadamente, que fosse "um especialista em relações públicas". Temos de o acreditar. Mas não há dúvida que ontem na televisão o sr. primeiro-ministro até pareceu "um especialista em relações públicas". Para começar, arrumou com brandura o caso da sua carreira académica, que afinal não é um caso. A Universidade Independente mandou e ele cumpriu. Quanto à burocracia, não sabe, nem se interessa. Quanto ao dr. António José Morais, que lhe "deu" quatro cadeiras, não o conhecia antes. Quanto ao resto, toda a sua vida de estudante só revela "nobreza de carácter", vontade de "melhorar" e de se "enriquecer" (intelectualmente). Um exemplo que ele, aliás, recomenda aos portugueses. Ponto final.
A minha ignorância não me permite contestar explicações tão, por assim dizer, "transparentes". Claro que nunca ouvi falar de um professor que "desse" quatro cadeiras no mesmo ano ao mesmo aluno, nem num reitor que ensinasse "inglês técnico", nem num conselho científico que fabricasse um "plano de estudos" para "acabar" uma licenciatura. Falha minha, com certeza. Se calhar, agora estas coisas são normais.
O sr. primeiro-ministro também declarou que ele e o seu gabinete não telefonam a jornalistas com a intenção malévola de os "pressionar". Pelo contrário, só os querem esclarecer. Ficamos cientes.
Fora isto, Sócrates demonstrou facilmente que o governo é óptimo e que ele é determinado, decidido, inabalável, responsável e bom. Portugal inteiro está, como lhe compete, agradecido."

António Barreto
"Simplesmente patético! Um primeiro-ministro a defender-se como um arguido! Um primeiro-ministro a considerar insinuações as mais legítimas dúvidas da imprensa e da opinião pública!
Um primeiro-ministro que acha normal que um deputado, ministro depois, se matricule em curso superior e obtenha diploma académico de recurso (feito em três universidades diferentes), ainda por cima em estabelecimento não reconhecido pela respectiva Ordem profissional!
Um primeiro-ministro que não percebe que um deputado e um membro do governo não têm os mesmos direitos, ou antes, as mesmas faculdades que os outros cidadãos e não podem nem devem apresentar-se como candidatos a cursos pós-laborais que lhe confiram estatuto académico a que aspiram!
Um primeiro-ministro que considera normal e desculpável que os seus documentos oficiais curriculares sejam corrigidos e alterados ao gosto das revelações públicas!
Era tão melhor julgar os políticos por razões políticas e não por motivos pessoais ou de carácter! São, infeliz e necessariamente, sinais dos tempos. Dinheiro, sexo, cultura, vida familiar, gosto e carácter transformaram-se em critérios de avaliação. O facto, gostemos ou não, faz parte das regras do jogo.
Com a política totalmente centrada na personalidade do líder, é natural que a totalidade da personalidade seja motivo de interesse e escrutínio. A ponto de, infelizmente, superar os fundamentos e os resultados da acção política. Sócrates está a pagar os custos desta nova tendência. E a verdade é que ele não soube, não quis ou não pôde matar o abcesso à nascença. O facto de o não ter feito avolumou o episódio. Ter dado à imprensa e à opinião pública espaço e tempo para deslindar o confuso mistério dos seus diplomas foi um erro fatal. Ter tentado exercer pressões sobre a imprensa e os jornalistas foi igualmente uma imperícia infantil. Ter a necessidade de mostrar diplomas na televisão revela uma situação em que a palavra já vale pouco e a confiança se esvai. Ter tentado justificar o facto de se matricular, como "humilde deputado", e de se graduar, como ministro, é inútil. Mas revela uma crença perigosa: a de que acha natural e legítimo que um deputado e um membro do governo possam fazer tudo isso!
É possível que este homem seja Primeiro-ministro mais dois anos ou até que consiga ser reeleito. Mas uma coisa é certa: a confiança está ferida. Ora, enquanto a utilidade pública vai e vem, a confiança, quando quebra, não tem cura. As feridas de carácter não cicatrizam."

Miguel Gaspar
"O único momento verdadeiramente surpreendente da entrevista do primeiro-ministro à RTP foi quando explicou que escreve o pronome seu no fim das cartas, para ser como o inglês yours. Isso e a ideia de que, afinal, o substantivo engenheiro não designa uma competência mas sim um rótulo social, definiram uma entrevista que valeu pelo que não se viu. Desde logo não se viu o balanço dos dois anos do Governo, que era a justificação da entrevista. Ora, gastou-se mais tempo com a Independente. A entrevista ou era uma coisa ou era outra. As duas, não podia ser. O dois-em-um não podia dar certo. José Alberto Carvalho conseguiu o tom certo numa conversa que o entrevistado queria de bom tom. Esforçou-se e tinha sem pre uma pergunta engatilhada. Nomeadamente no dossiê Independente. Maria Flor Pedroso, que é da rádio, estava a jogar fora e deixou-se ficar num papel mais apagado. Ganhou a noite, o primeiro-ministro? Pareceu-me que sim. E como, nestas coisas de televisão, o que importa é parecer, se pareceu, deve ter sido. A entrevista foi um bom sintoma daquilo a que está reduzida a política portuguesa: um aeroporto que ainda não existe e uma coisa que não se sabe se alguma vez foi uma universidade. Onde estão a ideologia, a Europa, as questões sociais? Nada. Sócrates gosta de passar a imagem do homem de acção que fala pouco. O problema é não ter obra para mostrar. Pouco mais pode fazer do que imitar o treinador do Benfica: prometer a Lua, iludir as derrotas e prometer a taça no ano que vem. Mas os eleitores sabem que é a fingir."

Pedro Mexia
"O debate começou bem e foi ficando progressivamente mais complicado, a partir mais ou menos dos 20 minutos. Porque um debate que normalmente seria sobre o estado da Nação a meio de um mandato do Governo, acabou por ser sobre o currículo académico do primeiro-ministro.
José Sócrates começou bem, tentando mostrar algum sentido de Estado ao querer separar o seu caso do da Independente. Foi habilidoso. O seu caso exigia, porém, prova documental, e talvez uma entrevista numa televisão não fosse a melhor maneira de a produzir. Conseguiu desmontar bem o alegado caso de assassínio de carácter, mas acabou por se atrapalhar nos pormenores. Ficou muito emperrado na questão emenda dos documentos da Assembleia da República, bem como nas notas lançadas pela Independente a um domingo. As questões de facto foram remetidas para casos de secretaria.
José Sócrates quis ainda reconhecer que existem diferenças entre dar explicações aos jornalistas e fazer pressões e foi cínico sobre a OPA. Ninguém acredita que o Governo não tivesse dado indicações à Caixa Geral de Depósitos. Foi de uma candura que soou a cinismo.
Foi interessante nesta entrevista a palavra blogosfera ter entrado na discussão política."
http://cachimbodemagritte.blogspot.com/2007/04/e-ao-vigsimo-dia-ressuscitou-dizem.html

Onde Sócrates falhou, inevitavelmente, foi na explicação dos comezinhos factos só a ele atribuíveis. Por exemplo, a já célebre biografia oficial de deputado em que aparece como licenciado em Engenharia quando era apenas bacharel, em 1993, mais tarde corrigida. Sócrates protestou que não se lembra e que terá corrigido para que não houvesse qualquer erro. Ficam-lhe bem tais sentimentos, mas Maria Flor Pedroso pôs os pontos nos iis com a frase mais assassina da noite: "é estranho que alguém se engane na profissão". O estatelanço do Primeiro-Ministro português deve ter-se ouvido na Índia e na China, para já não falar da Ota.
http://mario-rodrigues.blogspot.com:

Dentro de poucos dias, todos seremos democraticamente chamados a decidir sobre os destinos de Portugal. Para uma decisão consciente e informada, convirá que, para além das afinidades partidárias ou das simpatias pessoais e da apreciação dos programas de governo de cada um dos partidos, atendamos ao currículo dos seus dirigentes.

Limitemos a observação à vida e obra dos dois principais candidatos: José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa e Pedro Santana Lopes. Leia-se, para o efeito, o que cada um deles disponibiliza na página oficial do seu partido na Internet.

José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, nasceu em «Vilar de Maçada, concelho de Alijó, Distrito de Vila Real, em 06.09.1957». Sobre a família nada diz, se é casado, solteiro ou divorciado e se tem filhos e quantos. Pedro Santana Lopes diz-nos que «nasceu em Lisboa, a 29 de Junho de 1956, e é pai de 5 filhos».

Quanto a habilitações académicas, José Sócrates é «licenciado em Engenharia Civil» e «concluiu depois uma pós-graduação em Engenharia Sanitária, na Escola Nacional de Saúde Pública». Não sabemos com que classificações. Santana Lopes diz-nos que «em 1978 termina o curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com média de 15 valores».

No que concerne à actividade profissional, José Sócrates nada nos diz. Na página da Assembleia da República apresenta-se como Engenheiro Civil, mas ficamos sem saber se alguma vez, onde e como exerceu tal profissão. Santana Lopes diz-nos ser «investigador do Instituto de Direito Europeu e do Instituto para a Investigação da Ciência Política e Questões Europeias da Universidade de Colónia; advogado e assistente universitário na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, na Universidade Moderna e na Universidade Lusíada; Presidente do Conselho Fiscal do Totta Leasing; Presidente do Conselho de Administração do Instituto de Estudos Políticos; assistente do Departamento de Direito da Universidade Lusíada».

Relativamente a obras publicadas, nenhum dos dois candidatos nos diz nada. Pesquisando na base de dados da Biblioteca Nacional, encontramos cinco obras da autoria de Santana Lopes: “Os sistemas de Governo Mistos e o Actual Sistema Português”, “Portugal e a Europa: que futuro?”, “Causas de Cultura”, “PPD-PSD: a Dependência do Carisma”, “Sistema de Governo e Sistema Partidário”, este último em co-autoria com Durão Barroso. Quanto a José Sócrates, em vão foram todas as buscas para encontrar um só livro ou opúsculo que fosse da sua lavra.

No que respeita à actividade política, José Sócrates informa-nos que «pouco depois do 25 de Abril, com 16 anos, ingressou na JSD, saindo em ruptura logo no ano seguinte, de 1975». Depois disso, foi «militante do Partido Socialista desde 1981, Presidente da Federação Distrital de Castelo Branco entre 1986 e 1995», membro do Secretariado Nacional do Partido Socialista desde 1991», Porta-voz do PS para a área do Ambiente nesse ano, «Deputado à Assembleia da República desde 1987, pelo círculo de Castelo Branco», a cujo cargo regressou em Abril de 2002. Foi, finalmente, eleito «Secretário Geral do Partido Socialista em Setembro de 2004». Santana Lopes apresenta-se como «militante do Partido Social Democrata desde Outubro de 1976, Adjunto do Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro do IV Governo Constitucional (1978/1979), Assessor Jurídico do Gabinete do Primeiro-Ministro do VI Governo Constitucional (1980/1981), Presidente da Comissão Política Distrital da Área Metropolitana de Lisboa (1981/1985), Deputado à Assembleia da República (1980, 1983, 1985, 1987 e 1991), Deputado ao Parlamento Europeu (1987/1989), Presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz (1998/2001), Presidente da Câmara Municipal de Lisboa (2002/2004), Presidente da Mesa da Assembleia Geral dos Autarcas Sociais-Democratas, Presidente do Conselho da Região Centro, Presidente da Mesa do Congresso e do Conselho Geral da Associação Nacional dos Municípios Portugueses, Presidente da União das Cidades Capitais Luso-Afro-Américo-Asiáticas (2002/2004), Vice-Presidente da UCCI para a Península Ibérica, Vice-Presidente da Mesa do Comité das Regiões, Vice-presidente do Comité Executivo do Fórum Europeu de Segurança Urbana (2002/2004), Presidente do Partido Social Democrata (2004)».

Quanto a condecorações, José Sócrates, porque não as tenha ou por modéstia, nada nos diz. Santana Lopes informa terem-lhe sido atribuídas a Grã-Cruz da Ordem de Mérito da Hungria, a Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul, do Brasil, a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco, do Brasil e a Grã-Cruz da Espanha.

Finalmente vêm as funções governamentais. José Sócrates foi Secretário de Estado Adjunto do Ministro do Ambiente no XIII Governo Constitucional, entre 1995 e 1997; Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro no XIII Governo Constitucional, entre 1997 e 1999; Ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território no XIV Governo Constitucional, entre Outubro de 1999 e Abril de 2002. Santana Lopes foi Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do X Governo Constitucional, entre 1985 e 1987; Secretário de Estado da Cultura do XI Governo Constitucional, de 1990 a 1991; Secretário de Estado da Cultura do XII Governo Constitucional, de 1991 a 1994; e Primeiro-Ministro do XVI Governo Constitucional, desde 17/07/2004.

Por uma questão de objectividade e de imparcialidade não dizemos mais nada: nem tecemos comentários, nem suscitamos interrogações. Cada um dos currículos fala por si.


posted by Mário Rodrigues @ Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005