
Wat Arun (Temple of Dawn), Bangkok, Thai
When I hear music, I fear no danger. I am invulnerable. I see no foe. I am related to the earliest times, and to the latest.
- Henry David Thoreau -
Condensing fact from the vapor of nuance since 2003
In general a highly trained, elite, runner will have a marathon pace just under their lactate threshold; for less conditioned/slower runners it might be closer to their 10k pace (or about the fastest pace they can maintain for an 1 hour)."
"Nasci e cresci num Portugal onde vigorava o medo. Contra eles lutei a vida inteira. Não posso ficar calado perante alguns casos ultimamente vindos a público. Casos pontuais, dir-se-á.
Mas que têm em comum a delação e a confusão entre lealdade e subserviência. Casos pontuais que, entretanto, começam a repetir-se. Não por acaso ou coincidência. Mas porque há um clima propício a comportamentos com raízes profundas na nossa história, desde os esbirros do Santo Ofício até aos bufos da PIDE. Casos pontuais em si mesmos inquietantes. E em que é tão condenável a denúncia como a conivência perante ela.
Não vivemos em ditadura, nem sequer é legítimo falar de deriva autoritária. As instituições democráticas funcionam. Então porquê a sensação de que nem sempre convém dizer o que se pensa? Porquê o medo? De quem e de quê? Talvez os fantasmas estejam na própria sociedade e sejam fruto da inexistência de uma cultura de liberdade individual.
Sottomayor Cardia escreveu, ainda estudante, que "só é livre o homem que liberta". Quem se cala perante a delação e o abuso está a inculcar o medo. Está a mutilar a sua liberdade e a ameaçar a liberdade dos outros. Ora isso é o que nunca pode acontecer em democracia. E muito menos num partido como o PS, que sempre foi um partido de homens e mulheres livres, "o partido sem medo", como era designado em 1975. Um partido que nasceu na luta contra a ditadura e que, depois do 25 de Abril, não permitiu que os perseguidos se transformassem em perseguidores, mostrando ao mundo que era possível passar de uma ditadura para a democracia sem cair noutra ditadura de sinal contrário.
Na campanha do penúltimo congresso socialista, em 2004, eu disse que havia medo. Medo de falar e de tomar livremente posição. Um medo resultante da dependência e de uma forma de vida partidária reduzida a seguir os vencedores (nacionais ou locais) para assim conquistar ou não perder posições (ou empregos). Medo de pensar pela própria cabeça, medo de discordar, medo de não ser completamente alinhado. No PS sempre houve sensibilidades, contestatários, críticos, pessoas que não tinham medo de dizer o que pensam e de ser contra quando entendiam que deviam ser contra. Aliás, os debates desse congresso, entre Sócrates, eu próprio e João Soares, projectaram o PS para fora de si mesmo e contribuíram em parte para a vitória alcançada nas legislativas. Mas parece que foram o canto do cisne. Ora o PS não pode auto-amordaçar-se, porque isso seria o mesmo que estrangular a sua própria alma.
Há, é claro, o álibi do Governo e da necessidade de reduzir o défice para respeitar os compromissos assumidos com Bruxelas. O Governo é condicionado a aplicar medidas decorrentes de uma Constituição económica europeia não escrita, que obriga os governos a atacar o seu próprio modelo social, reduzindo os serviços públicos, sobrecarregando os trabalhadores e as classes médias, que são pilares da democracia, impondo a desregulação e a flexigurança e agravando o desemprego, a precariedade e as desigualdades. Não necessariamente por maldade do Governo. Mas porque a isso obriga o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) conjugado com as Grandes Orientações de Política Económica. Sugeri, em tempos, que se deveria aproveitar a presidência da União Europeia para lançar o debate sobre a necessidade de rever o PEC. O Presidente Sarkozy tomou a iniciativa de o fazer. Gostei de ouvir Sócrates a manifestar-se contra o pensamento único. Mas é este que condiciona e espartilha em grande parte a acção do seu Governo.
Não vou demorar-me sobre a progressiva destruição do Serviço Nacional de Saúde, com, entre outras coisas, as taxas moderadoras sobre cirurgias e internamentos. Nem sobre o encerramento de serviços que agrava a desertificação do interior e a qualidade de vida das pessoas. Nem sobre a proposta de lei relativa ao regime do vínculo da Administração Pública, que reduz as funções do Estado à segurança, à autoridade e às relações internacionais, incluindo missões militares, secundarizando a dimensão administrativa dos direitos sociais. Nem sobre controversas alterações ao estatuto dos jornalistas em que têm sido especialmente contestadas a crescente desprotecção das fontes, com o que tal representa de risco para a liberdade de imprensa, assim como a intromissão indevida de personalidades e entidades na respectiva esfera deontológica. Nem sobre o cruzamento de dados relativos aos funcionários públicos, precedente grave que pode estender-se a outros sectores da sociedade. Nem ainda sobre a tendência privatizadora que, ao contrário do Tratado de Roma, onde se prevê a coexistência entre o público, o privado e o social, está a atingir todos os sectores estratégicos, incluindo a Rede Eléctrica Nacional, as Águas de Portugal e o próprio ensino superior, cujo novo regime jurídico, apesar das alterações introduzidas no Parlamento, suscita muitas dúvidas, nomeadamente no que respeita ao princípio da autonomia universitária.
Todas estas questões, como muitas outras, são susceptíveis de ser discutidas e abordadas de diferentes pontos de vista. Não pretendo ser detentor da verdade. Mas penso que falta uma estratégia que dê um sentido de futuro e de esperança a medidas, algumas das quais tão polémicas, que estão a afectar tanta gente ao mesmo tempo. Há também o álibi da presidência da União Europeia. Até agora, concordo com a acção do Governo. A cimeira com o Brasil e a eventual realização da cimeira com África vieram demonstrar que Portugal, pela História e pela língua, pode ter um papel muito superior ao do seu peso demográfico. Os países não se medem aos palmos. E ao contrário do que alguém disse, devemos orgulhar-nos de que venha a ser Portugal, em vez da Alemanha, a concluir o futuro Tratado europeu. Parafraseando um biógrafo de Churchill, a presidência portuguesa, na cimeira com o Brasil, recrutou a língua portuguesa para a frente da acção política. Merece o nosso aplauso.
Oque não merece palmas é um certo estilo parecido com o que o PS criticou noutras maiorias. Nem a capacidade de decisão erigida num fim em si mesma, quase como uma ideologia. A tradição governamentalista continua a imperar em Portugal. Quando um partido vai para o Governo, este passa a mandar no partido, que, pouco a pouco, deixa de ter e manifestar opiniões próprias. A crítica é olhada com suspeita, o seguidismo transformado em virtude.
Admito que a porta é estreita e que, nas circunstâncias actuais, as alternativas não são fáceis. Mas há uma questão em relação à qual o PS jamais poderá tergiversar: essa questão é a liberdade. E quem diz liberdade diz liberdades. Liberdade de informação, liberdade de expressão, liberdade de crítica, liberdade que, segundo um clássico, é sempre a liberdade de pensar de maneira diferente. Qualquer deriva nesta matéria seria para o PS um verdadeiro suicídio.
António Sérgio, que é uma das fontes do socialismo português, prezava o seu "querido talvez" por oposição ao espírito dogmático. E Antero de Quental chamava-nos a atenção para estarmos sempre alerta em relação a nós próprios, porque "mesmo quando nos julgamos muito progressistas, trazemos dentro de nós um fanático e um beato". Temo que actualmente pouco ou nada se saiba destas e doutras referências.
Não se pode esquecer também a responsabilidade de um poder mediático que orienta a agenda política para o culto dos líderes, o estereótipo e o espectáculo, em detrimento do debate de ideias, da promoção do espírito crítico e da pedagogia democrática. Tenho por vezes a impressão de que certos políticos e certos jornalistas vivem num país virtual, sem povo, sem história nem memória.
Não tenho qualquer questão pessoal com José Sócrates, de quem muitas vezes discordo mas em quem aprecio o gosto pela intervenção política. O que ponho em causa é a redução da política à sua pessoa. Responsabilidade dele? A verdade é que não se perfilam, por enquanto, nenhumas alternativas à sua liderança. Nem dentro do PS nem, muito menos, no PSD. Ora isto não é bom para o próprio Sócrates, para o PS e para a democracia. Porque é em situações destas que aparecem os que tendem a ser mais papistas que o Papa. E sobretudo os que se calam, os que de repente desatam a espiar-se uns aos outros e os que por temor, veneração e respeitinho fomentam o seguidismo e o medo.
Sei, por experiência própria, que não é fácil mudar um partido por dentro. Mas também sei que, assim como, em certos momentos, como fez o PS no verão quente de 75, um partido pode mobilizar a opinião pública para combates decisivos, também pode suceder, em outras circunstâncias, como nas presidenciais de 2006 e, agora, em Lisboa, que os cidadãos, pela abstenção ou pelo voto, punam e corrijam os desvios e o afunilamento dos partidos políticos. Há mais vida para além das lógicas de aparelho. Se os principais partidos não vão ao encontro da vida, pode muito bem acontecer que a recomposição do sistema se faça pelo voto dos cidadãos. Tanto no sentido positivo como negativo, se tal ocorrer em torno de uma qualquer deriva populista. Há sempre esse risco. Os principais inimigos dos partidos políticos são aqueles que, dentro deles, promovem o seu fechamento e impedem a mudança e a abertura.
Por isso, como em tempo de outros temores escreveu Mário Cesariny: "Entre nós e as palavras, o nosso dever falar." Agora e sempre contra o medo, pela liberdade."
"Referindo-se à recente visita de Sócrates à Rússia, a HRW publicou no seu site, na página dedicada a Portugal, inserida na secção da Europa/Ásia Central, sob o título Atraiçoando os direitos humanos na Rússia, uma forte crítica a uma alocução de Sócrates pronunciada durante essa visita, em que o acusa de traição aos Direitos Humanos na Rússia. Nesta página encontram-se ainda outras acusações contra os governos portugueses – reconhecidas como justas e que nós também sabemos que por corrupção – como a condenação declarada pelo Parlamento Europeu por cumplicidade nas actividades ilegais da CIA, o relatório sobre os soldados crianças de 2001, o relatório sobre o incumprimento do tratado internacional que baniu as minas.
A HRW publicou ainda um artigo muito mais longo sob o mesmo título e sobre o mesmo assunto, em que apresenta uma lista mais extensa das desastrosas consequências provocadas pela impudência de Sócrates. A HRW critica fortemente várias alusões do discurso de Sócrates pondo em causa a defesa dos Direitos Humanos, considera esta atitude como um mau presságio para a presidência de Portugal na União Europeia e pondera que em lugar destas atitudes, Portugal deveria promover um "diálogo mais robusto sobre os assuntos dos Direitos Humanos entre a UE e a Rússia, pressionando o Kremlin para restaurar a liberdade de expressão", etc. Em suma, a HRW encara o comportamento de Sócrates como atípico, desleal para com a UE e uma traição aos Direitos Humanos.
Em 29-5-2007, o International Herald Tribune chamou delicadamente “linguagem colorida” ao discurso de Sócrates, enquanto a Angela Merkl questionava o tratamento do governo russo aos seus opositores.
Muitos outros jornais fizeram menções idênticas sobre o discurso do Sócrates, classificando-o das mais diversas formas sobre as suas críticas veementes contra os valores do Ocidente sobre os Direitos Humanos e a democracia.
Como se nós não conhecêssemos já a cambada de canalhas e parasitas corruptos dos neo-cons que actualmente domina o partido que se faz passar por socialista, e que, para nosso mal, não é melhor que a cambada precedente de neo-cons que queria terminar com a Segurança Social e que praticamente acabou com o direito à defesa. Decisões contra os Direitos Humanos são comuns em Portugal, como matar velhos à fome e sem medicamentos pôr as mulheres a parir nas ambulâncias, perpetuar a miséria, vender Portugal ao estrangeiro e destruir a riqueza e o futuro do país, dizendo que é investir (belo género de investimento, proibido noutros países, por ruinoso!). Agora, na Rússia, Sócrates apoia também outros actos contra os Direitos Humanos, como o massacre das populações que se querem libertar de jugos, a proibição da liberdade de expressão ou qualquer outro direito à liberdade. Que melhor prova daquilo que já sabíamos e que os governos corruptos teimam em desmentir?
Estas páginas no site da HRW foram publicadas em 11-6-2007 (a mencionada em segundo lugar está datada no URL). Alguém ouviu ou leu algo sobre o assunto nos noticiários de cobertura nacional? Que significa então este caso encoberto? Após tantas demonstrações no mesmo sentido, a conclusão parece simples. Para além da praga dos políticos, estamos rodeados por um bando de pseudo jornalistas, jornaleiros, que pasteurizam notícias e informações, escondem ou mostram, anunciam ou escondem de acordo com os interesses da corrupção mafiosa que encobrem e defendem num conluio declarado e aberto. São os profissionais da impostura.
Temos um governo que se declara abertamente contra os Direitos Humanos e o tem provado consistentemente. Temos uma oposição que já provou não ser melhor, pois que o mal no país não se poderia ter desenvolvido em dois anos. Onde vamos dar? A única solução possível é a união nacional para dominar as oligarquias de gananciosos, corruptos e abusadores. Acabar com regalias a que não têm direito. Desfazer as leis corruptas que protegem a corrupção e os seus autores e participantes. Impedir que se apoderem dos lugares de chefia de toda a administração, do estado e municipal. Colocá-los no seu lugar: cumpridores dos seus deveres e servidores obedientes do povo soberano. Mantê-los domesticados e com rédea curta."