5.8.07

Mausoléu de Falácias, #2

Hoje, faz-se colagem à Grande Loja do Queijo Limiano. Tardiamente (a culpa é tua...) mas sem deixar cair o rasto. Afinal, o trilho ainda está bem quente.

Datação referente a 02.08.2007.

"Curso de Sócrates livre de ilegalidades, é o título do Diário de Notícias, dirigido por João Marcelino.

Um título falso, uma notícia incorrecta e uma manipulação, também assessorada pelo gabinete do primeiro-Ministro que ontem, logo após se saber o resultado do Inquérito acerca da eventual falsificação do diploma, se apressou a comunicar a mesma mensagem, em nome do chefe do Governo. Pura propaganda, manobras de spin doctors reciclados, é o que temos como informação do Gabinete de um Governo, já abertamente acusado de tentar silenciar vozes incómodas nos organismos que dependem do Executivo e perseguir politicamente quem discorda ou diverge do discurso único governamental . Ficamos cientes e o último exemplo, é o da directora do Museu Nacional de Arte Antiga, substituida por não alinhar no discurso único.

Quanto ao Diário de Notícias de João Marcelino, o Público de hoje , dá conta que corre na redacção do jornal um abaixo-assinado, mostrando a apreensão com a forma como a direcção do jornal tem lidado com os trabalhadores. A redacção de 135 pessoas, já logrou concitar o protesto de 45 redactores e é um inequívoco sinal de crise no jornal.

Parafraseando um dito de guerra, em tempo de crise, a primeira vítima, é a verdade. É o que acontece com o Diário de Notícias. As questões de sobrevivência, obrigam a esconder as verdades inconvenientes, para quem manda. Mais tarde ou mais cedo, o velho ditado sobre os romanos pagarem a traidores, vai aparecer bem visível, num editorial de um outro jornal qualquer. Um 24 Horas, por exemplo."

Carlos Guimarães Pinto expõe bem o motivo pelo qual também eu defendo a abolição do casamento enquanto figura miscigenadora de fisco, confissões religiosas e atavismos comportamentais:


"O casamento é uma convenção legal arbitrária que beneficia um conjunto de pessoas que toma certas opções de vida. Ao permitirmos um contrato de casamento entre pessoas do mesmo sexo, apenas estaremos a alargar o âmbito do contrato, mantendo a sua arbitrariedade e as injustiças que daí advêm. Do ponto de vista liberal, é, obviamente, indiferente."

4.8.07

Via No Mundo:

"O governo português entrou no infame terreno das políticas de natalidade. O “engenheiro” no título do primeiro-ministro pode não passar de uma reles impostura, mas José Sócrates pelo menos já deu provas de se sentir à vontade na pele de engenheiro social. E é eficaz. À esquerda e à direita, o anúncio feito na semana passada agradou a quase todos. É natural. A maioria dos eleitores portugueses, independentemente da cor partidária, está contaminado pela crença nas virtudes divinas do Estado. O governo regula e interfere em assuntos privados? Não faz mal, é para isso que serve o Estado, para nos aliviar desse imenso fardo chamado “responsabilidade individual”. O governo conduz a nação com políticas colectivistas? O Estado tem que zelar pelo bem comum, nem que isso implique sacrificar o orçamento de alguns (muitos) cidadãos, ou mesmo devassar-lhes a vida privada e arrestar o outro fardo, a “liberdade individual”. Com um ambiente destes, ninguém se pode surpreender com a boa receptividade a essa coisa das “políticas de natalidade”. Lembrar que o Estado “dá” x, depois de tirar 2x, gastando o restante na Máquina, é inútil. Estamos a lidar com Fé, e a Fé não se discute."
O sonho do pequeno filho da puta é ser um grande filho da puta.

- Alberto Pimenta

Mausoléu de Falácias, #1

Uma melhor cobrança conduzirá a uma redução na carga fiscal? Filipe Melo Sousa, certeiro, abate a múmia:
Antes: O Sr. Vilela é mecânico de automóveis, e factura mensalmente 20.000 €. Como o Sr. Vilela trabalha 50% para particulares, e 50% para empresas, apenas passa factura para metade dos arranjos, declarando assim 10.000 € de facturação. Paga sobre esses 10.000 uma taxa de Imposto de 20%.Colecta Fiscal: 2.000 €
Depois: Os Inspectores das Finanças metem um piquete 24h/dia, e cadastra os clientes, de maneira a que todos os arranjos estejam sujeitos a factura. O Sr. Vilela passa a declarar 20.000 € de arranjos. O Sr. Ministro baixa então o imposto para 10%, graças à "eficácia fiscal".Colecta Fiscal: 2.000 €
Questões que se colocam:
(1) Se os impostos baixaram (de 20% para 10%), porque é que o Sr. Vilela não está a pagar menos dinheiro ao estado?
(2) O custo do piquete absorveu 500 €, o que significa que o estado ficou com 1.500 € em vez dos 2.000 € disponíveis. E agora? Quem vai pagar o défice do ano (n+1)?
(3) E eficácia da extorsão é uma maneira de reduzir a extorsão? Trata-se de um instrumento autofágico? Pretende-se dar início a uma doença auto-imune que permitirá colapsar o status quo?

3.8.07

Apaziguamento cobarde

Isto aconteceu em Portugal, é uma jornalista Portuguesa, e o entrevistado é o embaixador do Irão.



Almighty ruler of the all
Whose power extends to great and small,
Who guides the stars with steadfast law,
Whose least creation fills with awe -
Oh grant Thy mercy and Thy grace
To those who venture into space.

- Robert A. Heinlein
Escreveu MC no sempre aceso Purgatório (realces de minha escolha):


"Os portugueses estão a tornar-se claramente mal intencionados. É uma tendência genérica do mundo ocidental que, como se sabe, é pródigo em alimentar aqueles que o querem destruir por dentro e, não raras vezes, através do exterior. Há umas décadas atrás os portugueses podiam ser descritos por uma série de características negativas. Um povo analfabeto, de alcoólicos, com crenças que hoje nos parecem inacreditáveis, onde a utilização da violência era a primeira medida para impor respeitinho. Por incrível que pareça, os tempos que correm são bem piores.

Continuamos a ser um povo de analfabetos funcionais, onde licenciados não conseguem interpretar textos simples mas acham que adquiriram automaticamente o direito a um emprego bem pago. Os analfabetos de outro tempo, que ainda tinham coragem de dizer “não sei”, foram substituídos por um tropel de escolarizados que acham que já tudo sabem e se esforçam por nada mais saber. Os alcoólicos de antes, ignorantes e criados com “sopas de cavalo cansado”, foram substituídos por universitários que acham que o paroxismo da vida académica encontra-se com um copo na mão.

No passado, o povo tinha no seu quotidiano a utilização de mezinhas e pedidos ao além, mas o de hoje não passou a ser mais racional. Jornais e revistas não dispensam o horóscopo. As mezinhas de antigamente foram substituídas por doutos conselhos médicos que, se todos somados e confrontados ir-se-iam anular em grande parte, prescrevendo um jejum quase completo ou um enfartamento mortal por forma a atingir a saúde perfeita em todos os domínios, providenciada pelas propriedades miraculosas dos mais diversos alimentos, de preferência os de origem exótica. O racismo contra africanos foi substituído pelo antiamericanismo. As crenças no além foram substituídas pela crença no Estado nosso Senhor, e pela fé nas alterações climáticas, com consequente veneração do arcebispo Al Gore.

O respeitinho está aí de novo em força, mas se antes era explícito, previsível, hoje aparece de inúmeras formas, mascarado como a necessidade de aplicar os valores da modernidade, que não só urge cumprir como penalizar quem lhes está à margem. A violência não diminuiu, pelo contrário, mas ganhou novas matizes. A insegurança aumenta e só não é mais patente porque outras preocupações a fazem diluir na memória. A violência ganhou sobretudo uma sofisticação psicológica, que começa a ser visível nos primeiros anos de escola. Há 15 anos atrás as crianças ainda brincavam horas a fio nas ruas e se de manhã podiam brigar, na parte da tarde já tudo estaria esquecido. Às crianças de hoje foi-lhes vedada, por diversos motivos, a socialização espontânea. As valências prometidas sobre o ensino pré-escolar e a respeito dos novos métodos de ensino não foram cumpridas. Se nada aprendem os nossos jovens, pelo menos dominam os métodos de exercer a pior violência mental sobre os seus colegas e professores, por vezes durante meses de forma recorrente. Os mais afoitos já perceberam até que ponto podem partir para a violência física, sabendo que vivem sob um paradigma que nunca os responsabilizará.

Os pais que antes diziam aos educadores para baterem nos filhos sempre que tal fosse necessário, no fundo da sua ignorância estava o desejo de darem à sua prol um futuro melhor que aquele que tinham tido, estando conscientes dos maus caminhos que só podiam ser evitados com disciplina. Nos pais de hoje não se percebe qualquer objectivo, nem para si nem para os seus filhos. Prisioneiros do niilismo, esqueceram as palavras de Platão, de que é pior cometer o mal do que o sofrer. Não agem, reagem quando acossados. A realidade para eles é uma afronta, e apontar as falhas patentes dos seus filhos é sentido como um insulto que se tem de retribuir da forma mais dura que lhes for possível.

Muito mais podia ser avançado a este respeito, a honra que foi substituída pela mentira rotineira, os velhos que se passaram a colocar nos lares para morrerem, a explosão das maleitas do espírito, a falência da Justiça e a fraude da Segurança Social. Urge deixar de lado as palavras mansas. É preciso assumir que não há forma de tratar ou simplesmente descrever certas pessoas a não ser utilizando palavrões. As nossas energias devem ser entregues àqueles que se esforçam por ser respeitados.
Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud,
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find me, unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

- William Ernest Henley


Bu Po Bu Li.

2.8.07

A vida não reserva quaisquer surpresas: o crime do Estripador da Póvoa prescreve ao fim de 15 anos, e o processo da licenciatura de Sócrates é resolvido por arquivamento em 3 semanas.

Escreve ainda JPP:

"Quem gostar de ser enganado e manipulado leia os títulos (a maioria, mas não todos) e as fontes governamentais sobre o arquivamento do inquérito da Procuradoria centrado num único documento da saga do diploma de José Sócrates. (O Público diz com ironia: "comunicado apenas refere conclusões sobre a alegada falsificação de um certificado emitido em 1996 num impresso que só podia existir depois de 1998"). Quem não gostar de ser enganado leia o resto e o que falta esclarecer."

Citações do dia

De Rodrigo Adão da Fonseca,

"Lisboa vai voltar a ser menina e moça, um enorme Chapitô: bairros populares cheios de jovens a reflectir sobre a economia mundial e os malefícios da globalização, enquanto os restantes atiram mocas ao ar. Cães selvagens a viverem em harmonia com o ser homem. Bicicletas em cada esquina, milhares de biclas, num número que deixaria arrepiado o senhor Mao Tse-Tung. Estacionamentos em abundância para trabants, smarts e citroens dois cavalos. Jardins, muitos jardins! Chocolate, muito chocolate! Um Rivoli em cada colina! Fontanários, réplicas alfacinhas do Manneken Piss mas com a estátua do La Feria! Pierrots a brincar às mimicas enquanto ajudam as velhinhas a levar as compras a casa. Lisboa, és linda, qual Alice no Pais das Maravilhas!"


e de João Gonçalves:

"Esta tarde, o eixo Praça do Município-Praça do Comércio era um local mal frequentado. Os cortesãos do regime, por consequência, do PS, concentraram-se para a posse de António Costa como edil de Lisboa. Costa começou, aliás, muito bem com a aliança com o quinto ou sexto classificado na miserável eleição que lhe deu a vitória, o senhor do "Bloco". Faltam só os "cidadãos" de Roseta, mas esses vêm já a seguir. Costa deu, assim, na cidade, um estatuto de respeitabilidade ao BE que, no meu jargão, significa entregar o ouro ao bandido. Estão muito bem uns para os outros."



Nem de propósito, revi o "1900" de Bertolucci há poucos dias.

Aquando do primeiro visionamento que dele fizera, há vinte e poucos anos e toldado pela juventude, senti-o um filme de esquerda, libertário, agrária e profundamente comuna. Desta vez, a impressão foi outra. O campesinato é mais puro? É. Subverte-se estatisticamente em menor volume? Sim. Envelhece mais colado aos cavernícolas originais de cujas andanças brotámos? Também.

E no entanto...

A numerização grotesca ocorre da mesma forma que no fascismo.
A demissão do exercício intelectual, aspas aspas.
A que conduz a "liberdade" por aquela estrada? À ignorância, a um mundo eternamente néscio, cantando e rindo, blissfully unheeding de tudo quanto exorbite às esferas do que for imediato.

Ora um homem não é uma formiga.

E eu, enquanto homem, estou farto de ver analfabetos como António Costa, Sá Fernandes e as respectivas clique-claques, nas mesmas ruas por onde às vezes tenho que andar.

O problema é que o actual eleitorado, ou seja, "as pessoas que se vê na rua", já são a primeira tranche do produto criado com as experiências de facilitismo e prestidigitação oriundas do pós-cavaquismo. Ou seja, estão mesmo bem uns para os outros.

1.8.07



Fotografia de Robert Jalarvo.

Lisboa paralisada em nome da eco-obsessão

José Sá Fernandes com o pelouro do Ambiente na câmara de Lisboa
01.08.2007 - 14h24
PUBLICO.PT

José Sá Fernandes, eleito para a câmara de Lisboa pela candidatura "Lisboa é Gente", apoiada pelo Bloco de Esquerda, vai ficar responsável pelo pelouro do Ambiente, que gere espaços verdes, jardins e cemitérios, apurou o PÚBLICO.

A decisão terá resultado do acordo firmado entre o vencedor das eleições intercalares do dia 15 de Julho, o socialista António Costa, e o candidato apoiado pelo Bloco de Esquerda.

O acordo — que motivou a marcação de uma conferência de imprensa para esta tarde — prevê uma quota mínima de 25 por cento para a habitação social na construção; a proibição da construção de barreiras físicas na zona ribeirinha da cidade; e a construção do corredor verde entre Monsanto e o Parque Eduardo VII, idealizado pelo arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, e da via ciclável entre Belém e o Parque das Nações, entre outros pontos.

Após breve interlúdio...

Resultado óbvio do conluio entre a amálgama esquizóide de tios socialistas com a esquerda detonante do Zé, por Carlos Novais:

"Construtores obrigados a vender 20% das casas em Lisboa a preços sociais"

- Os restantes 80% vão ficar mais caros

- Os 20% "mais baratos" vão abrir um novo mercado de influências já que vai ser preciso limitar e definir quem vai poder aceder e em que condições às mais baratas. E ultrapassar as compras feitas em nome de terceiros. Ou seja, a hiper-regulação vem aí. Os construtores vão ter que provar que os compradores dos 20% caiem no âmbito do "social".



Finnmark.
"Running hills is an important part of your training, because it strengthens your legs and ankles, increases your aerobic and anaerobic capacity, and increases your tolerance for lactic acid. When you run hills, you're not only moving your body laterally, as you do on level ground, but you're moving your body against gravity. Thus, hills offer resistance training that helps strengthen your body."


Templo Jainista de Chaumukha, Rakhnapur, India
"Our aim, I said, is 30 minutes. In the beginning, five minutes may be all you can handle. But quite soon - sooner, in fact, than you expect - you will be able to run continuously for 30 minutes. I have seen a 30-year-old housewife get up to 30-minute runs with one month of training and run a five-mile race within 10 weeks of buying her running shoes.

That 30 minutes is as far as we need go. It is the endpoint for fitness. That 30 minutes will get us fit and put us in the 95 percentile for cardiopulmonary endurance. At 12 calories per minute, it will eventually bring our weight down to desired levels. It also will slow the pulse and drop the blood pressure. It will make us good animals.

That first 30 minutes is for my body. During that half-hour, I take joy in my physical ability, the endurance and power of my running. I find it a time when I feel myself competent and in control of my body, when I can think about my problems and plan my day-to-day world. In many ways, those 30 minutes is all egos, all the self. It has to do with me, the individual."


Wat Arun (Temple of Dawn), Bangkok, Thai
"There are 2 ways a runner can perceive the impact of running beyond the threshold pace. First, you will incur an oxygen debt. This will manifest itself in a feeling of shortness of breath; that your lungs are not large enough to suck in all the air you want. Second, as lactate accumulates you will feel a 'burning' sensation in your muscles.

In general a highly trained, elite, runner will have a marathon pace just under their lactate threshold; for less conditioned/slower runners it might be closer to their 10k pace (or about the fastest pace they can maintain for an 1 hour)."



Gopuram ao norte, Minakshi, Madurai, India

Baptista-Bastos quase redimido

No DN de hoje:



DISCURSO SOBRE O MEDO

Numa maçadora entrevista à SIC, o nosso querido primeiro-ministro tentou minimizar e, até, desacreditar o artigo de Manuel Alegre, no Público, no qual criticava o autoritarismo e o medo ressurgentes. Sócrates repetiu o já por nós sabido. E os entrevistadores, apesar da agressividade sorridente, apenas expuseram a modéstia dos pessoais recursos. Sócrates não possui o talento das suas farsas e começa a ser deprimente a grosseria das respostas. O homem dissimula, com o enfatuado das frases, o facto de que não dispõe de ideias de seu.

A verdade é que o discurso sobre o medo, de Manuel Alegre, propiciava uma discussão, pelo menos curiosa, dos nossos comportamentos. A indiferença aborrecida com que o primeiro-ministro empalmou a questão, e o silêncio sem condolências com que os entrevistadores o admitiram, chegaram para se entender da inutilidade do insólito encontro a três.

O PS não quer discutir coisa alguma. É um partido entregue a tabeliães, com mistura de tecnocracia de segunda ordem. Além, claro!, da ausência total e absoluta de ideologia e de convicções. Quando Sócrates afirma, sem pudor, que as acusações de Alegre sobre o medo na sociedade e no PS constituem "um clássico", a deselegância extravasa os limites do suportável. O secretário-geral não quer debater o assunto. É um direito que lhe assiste. Porém, comete uma espécie de assassínio de carácter, de que, a esmo e amiúde, lamenta ser alvo.

Está à vista desarmada que a sociedade portuguesa vive numa atmosfera de temor, caucionada pelo desemprego, pelo trabalho precário, pelo custo da vida, pelo incentivo à delação, pelo desprezo com que se trata os nossos velhos, pela recusa da esperança, pelo sombrio horizonte do futuro, pelo ataque indiscriminado ao Serviço Nacional de Saúde, pelas obscenas desigualdades sociais não só traduzidas no desespero e na angústia quotidianas como pelas afrontosas reformas auferidas por "gestores" públicos - e mesmo privados. O medo cobre as situações que acabo de evocar. E esta "cultura" do PS não provém de linguagens intraduzíveis umas das outras: resulta de um conflito generalizado, aberto ou latente, mais ou menos violento nascido na década de 80, com o "cavaquismo".

O artigo de Manuel Alegre falava da necessidade de uma visão social que rejeite as humanidades separadas. Essa civilização do universal, de que tem sido paladino, apela no sentido dos valores e dos territórios transculturais. Não creio que José Sócrates tenha conhecimentos suficientes para entender o que, depreciativamente, designa de um "clássico" periódico. Não é tão-só problema dele. É a nossa tragédia.