31.7.08

Diving into the Wreck


First having read the book of myths,
and loaded the camera,
and checked the edge of the knife-blade,
I put on
the body-armor of black rubber
the absurd flippers
the grave and awkward mask.
I am having to do this
not like Cousteau with his
assiduous team
aboard the sun-flooded schooner
but here alone.

There is a ladder.
The ladder is always there
hanging innocently
close to the side of the schooner.
We know what it is for,
we who have used it.
Otherwise
it is a piece of maritime floss
some sundry equipment.

I go down.
Rung after rung and still
the oxygen immerses me
the blue light
the clear atoms
of our human air.
I go down.
My flippers cripple me,
I crawl like an insect down the ladder
and there is no one
to tell me when the ocean
will begin.

First the air is blue and then
it is bluer and then green and then
black I am blacking out and yet
my mask is powerful
it pumps my blood with power
the sea is another story
the sea is not a question of power
I have to learn alone
to turn my body without force
in the deep element.

And now: it is easy to forget
what I came for
among so many who have always
lived here
swaying their crenellated fans
between the reefs
and besides
you breathe differently down here.

I came to explore the wreck.
The words are purposes.
The words are maps.
I came to see the damage that was done
and the treasures that prevail.
I stroke the beam of my lamp
slowly along the flank
of something more permanent
than fish or weed

the thing I came for:
the wreck and not the story of the wreck
the thing itself and not the myth
the drowned face always staring
toward the sun
the evidence of damage
worn by salt and away into this threadbare beauty
the ribs of the disaster
curving their assertion
among the tentative haunters.

This is the place.
And I am here, the mermaid whose dark hair
streams black, the merman in his armored body.
We circle silently
about the wreck
we dive into the hold.
I am she: I am he

whose drowned face sleeps with open eyes
whose breasts still bear the stress
whose silver, copper, vermeil cargo lies
obscurely inside barrels
half-wedged and left to rot
we are the half-destroyed instruments
that once held to a course
the water-eaten log
the fouled compass

We are, I am, you are
by cowardice or courage
the one who find our way
back to this scene
carrying a knife, a camera
a book of myths
in which
our names do not appear.

- Adrienne Rich
Sabes o que é mais belo que quase tudo nas nossas horas? É que leiamos, escreva-se e aconteça o que for imaginável, tu e eu permanecemos. E somos reais, somos um do outro, em mudança, em ardor, em rochedos e escarpas e viagem para qualquer lado. Tu e eu podemos divagar devagar ou depressa e atingir novas conclusões sobre a inelutável dúvida, que seremos sempre um do outro.

Concordas?

Se dizes que sim, vou ja buscar-te.

Adenda ao Top 5


O objectivismo. Já me esquecia.



O "argumento randiano" substitui Deus como pedra basilar do seu sistema, colocando a vida nesse papel. "Vida", aqui, não tem nenhum sentido transcendental. A base da ética objectivista assenta na observação deste valor básico comum a todos os indivíduos. Morta, uma pessoa não atribuirá valor a nada. A vida é uma condição necessária para a avaliação ética de escolhas e acções. Não é, contudo, uma condição suficiente. Uma pessoa pode subsistir ao nível mais básico, como um animal, mas só o uso activo da sua faculdade racional permite-lhe ter um entendimento de que escolhas e acções são conducentes à preservação da sua vida, no imediato e a longo prazo. No contexto de uma existência social, política, este entendimento é essencial. Temos assim que os principais contributos do cristianismo para a sociedade moderna*, o livre-arbítrio e a alma individual, permanecem válidos segundo o "argumento randiano", mesmo retirando Deus da equação. A primeira escolha que uma pessoa deve fazer é impreterivelmente a de viver. A sua sobrevivência não é automática. Acto contínuo, deve escolher e julgar as suas opções em função do impacto na sua vida. Isto é o exercício do seu livre-arbítrio. Além disso, a escolha é individual. A opção de fazer uso da faculdade racional não pode ser imposta. Uma pessoa pode, concebivelmente, escolher "não pensar", viver como um selvagem. Ou em qualquer patamar intermédio. Não existe aqui propriamente uma alma para salvar; mas há uma vontade individual de atingir, ou não, um grau de conforto consigo mesma.


* Pelo menos segundo a visão de Isabel Paterson, em The God of the Machine, que identificou três marcos fundamentais no caminho da barbárie para a sociedade moderna (leia-se democracia liberal e capitalismo): A descoberta da ciência pelos gregos, que possibilita a análise do conhecimento e, por extensão, da acção política; a descoberta do direito pelos romanos, que permite criar um sistema abstracto que pode defender o indivíduo da arbitrariedade do "poder"; e, por fim, e talvez mais significativo, a descoberta cristã da alma individual, cuja salvação depende de si própria e do seu livre-arbítrio.

Zapping

Se o PR interrompe as férias, quem sou eu para encostar-me à sombra dos cactos.

Canal 1

A protagonista de «Doidos por Mary», famosa pela sua delicada silhueta, quer ser uma mulher com curvas, noticia o El Mundo.

«Tenho um estilo de vida muito activo, adoro surf, snowboard, golf e caminhadas. Também gosto de ler, que é exercício para a mente. Mas preferia ganhar algum peso que perdê-lo. Gosto das mulheres com curvas. Quero ter um rabo grande», revelou.

A actriz tem muita confiança em si mesma, fruto da sua educação quando era mais nova. «Era sempre eu a filha problemática. Os meus pais deixavam-me fazer coisas que à minha pobre irmã mais velha sempre proibiram», confessou Díaz.


Canal 2

Com COFIDIS Valor Top, você tem a possibilidade de ter um crédito entre €11.000 a €20.000 criado a pensar em si, que não tem tempo a perder com processos burocráticos. Pode escolher o montante entre €11.000 a €20.000, e a modalidade de pagamento que mais lhe convém para realizar todos os seus projectos.

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Se pretender reembolsar mais depressa poderá fazer pagamentos extra sem custos adicionais.


Canal 3

Cá para mim amanhã temos marcação de eleições para PR, o Governo cai, tornar-se-à pela primeira vez em 37 anos interessante saber o que se passa em Portugal, e a Federação Atlântica dos Açores & Madeira liberta-se do jugo continental.



Canal 4

A ministra da Saúde apelou esta terça-feira a todos os doentes em listas de espera para cirurgias há mais de dois anos que entrem em contacto com os serviços, porque no sistema não há nenhum utente naquelas condições, escreve a Lusa.

«Nós temos informação que há doentes que dizem que estão há mais de dois anos em lista de espera e o que temos no sistema é que não há nenhum doente que esteja há mais de dois anos em lista de espera. Portanto, ou não estão inscritos ou algo se passa», afirmou Ana Jorge, durante uma visita ao Hospital de Faro.

Sublinhando que se tratava de um apelo, dirigiu-se «a quem sinta que está há mais de dois anos à espera» para que se dirija ao seu médico de família, ao médico assistente ou ao centro de saúde.




Se ainda estiver vivo, telefone... Agora só preciso de um "técnico". Não precisa de saber fazer nada, basta ser "técnico". Ou melhor ainda, de um licenciado. Pode ser em rendas de bilros. É que queria apurar o share dos meus canais.


30.7.08



Também estou de férias.

Matemática A, B, Z...

(sacado ao Filipe Melo Sousa)


"Vamos comparar a abertura de dois exames nacionais de matemática do 12º:

Sistema francês:

É dada a representação de duas funções de componente logarítmica.
Pede-se para definir o seu domínio, fazer uma integração por partes e deduzir a área representada.

Sistema português orientado para o "sucesso":

O João e a Maria convidaram três amigos para irem, com eles, ao cinema. Compraram cinco bilhetes com numeração seguida, numa determinada fila, e distribuíram-nos ao acaso. Qual é a probabilidade de o João e a Maria ficarem sentados um ao lado do outro?

Segue-se escolha múltipla para facilitar o aluno e não o confundir."


Pois.

28.7.08

Top 5 da Humanidade

A Revolução Industrial

C.G. Jung

Jan Vermeer van Delft

A Hagia Sophia

Alexandre e Diógenes
"Whorf's analysis of the differences between English and (in one famous instance) the Hopi language raised the bar for an analysis of the relationship between language, thought, and reality by relying on close analysis of grammatical structure, rather than a more impressionistic account of the differences between, say, vocabulary items in a language. For example, "Standard Average European" (SAE)—i.e., Western languages in general—tends to analyse reality as objects in space: the present and future are thought of as "places", and time is a path linking them. A phrase like "three days" is grammatically equivalent to "three apples", or "three kilometres". Other languages, including many Native American languages, are oriented towards process. To monolingual speakers of such languages, the concrete/spatial metaphors of SAE grammar may make little sense. Whorf himself claimed that his work on the SWH was inspired by his insight that a Hopi speaker would find relativistic physics fundamentally easier to grasp than an SAE speaker would."

"Human beings do not live in the objective world alone, nor alone in the world of social activity as ordinarily understood, but are very much at the mercy of the particular language which has become the medium of expression for their society. It is quite an illusion to imagine that one adjusts to reality essentially without the use of language and that language is merely an incidental means of solving specific problems of communication or reflection. The fact of the matter is that the "real world" is to a large extent unconsciously built upon the language habits of the group. No two languages are ever sufficiently similar to be considered as representing the same social reality. The worlds in which different societies live are distinct worlds, not merely the same world with different labels attached ... We see and hear and otherwise experience very largely as we do because the language habits of our community predispose certain choices of interpretation."
(Sapir, 1958 [1929], p. 69)
"We dissect nature along lines laid down by our native languages. The categories and types that we isolate from the world of phenomena we do not find there because they stare every observer in the face; on the contrary, the world is presented in a kaleidoscopic flux of impressions which has to be organized by our minds—and this means largely by the linguistic systems in our minds. We cut nature up, organize it into concepts, and ascribe significances as we do, largely because we are parties to an agreement to organize it in this way—an agreement that holds throughout our speech community and is codified in the patterns of our language. The agreement is, of course, an implicit and unstated one, but its terms are absolutely obligatory; we cannot talk at all except by subscribing to the organization and classification of data which the agreement decrees."
(Whorf, 1940, pp. 213–14)

George Orwell's classic novel Nineteen Eighty-Four is a striking example of linguistic determinism and linguistic relativity in fiction, in which a language known as Newspeak has trimmed and supplanted Modern English. In this case, Orwell says that if humans cannot form the words to express the ideas underlying a revolution, then they cannot revolt. All of the theory of Newspeak is aimed at eliminating such words. For example, bad has been replaced by ungood, and the concept of freedom has been eliminated over time. According to Nineteen Eighty-Four's appendix on Newspeak, the result of the adoption of the language would be that "a heretical thought ... should be literally unthinkable, at least so far as thought is dependent on words.

In Frank Herbert's science fiction novel Dune and its sequels, the Principle of Linguistic Relativity first appears when Lady Jessica (who has extensive linguistic training) encounters the Fremen, the native people of Dune. She is shocked by the "violence" of their language, as she believes their word choices and language structure reflect a culture of enormous violence. Similarly, earlier in the novel, her late husband, Duke Leto, muses on how the nature of Imperial society is betrayed by "the precise delineations for treacherous death" in its language, the use of highly specific terms to describe different methods for delivering poison.

Samuel R. Delany's novel Babel-17 is centered on a fictional language that denies its speakers independent thought, forcing them to think purely logical thoughts. This language is used as a weapon of war, because it is supposed to convert everyone who learns it to a traitor. In the novel, the language Babel-17 is likened to computer programming languages that do not allow errors or imprecise statements.

Neal Stephenson's novel Snow Crash revolves around the notion that the Sumerian language was a programming language for the human brain. According to characters in the book, the goddess Asherah is the personification of a linguistic virus similar to a computer virus. The god Enki created a counter program which he calls a nam-shub that caused all of humanity to speak different tongues as a protection against Asherah.

Ursula K. Le Guin's novel The Dispossessed takes place partly on a world with an anarcho-communist society whose constructed language contains little means for expressing possessive relationships, among other features.

Ayn Rand's novel Anthem presents a collectivist dystopia where the word "I" is banned, and any that use it are put to death.

Robert Silverberg's novel A Time of Changes describes a society where the first person singular is considered an obscenity.

In Robert A. Heinlein's Stranger in a Strange Land, Valentine Michael Smith is able to do things that most other humans can't do, and is unable to explain any of this in English. However, once others learn Martian, they start to be able to do these things; those concepts could only be explained in Martian.

In Jorge Luis Borges's Tlön, Uqbar, Orbis Tertius the author discovers references in books to a universe of idealistic individuals whose language lacks the concept of nouns and has other peculiarities that shapes their idealism. As the story progresses the books become more and better known to the world at large, their philosophy starts influencing the real world, and Earth becomes the ideal world described in the books.

In Ted Chiang's "The Story of Your Life," language directly determines thought, Learning the written language used by alien visitors to the Earth allows the person who learns the language to think in a different way, in which the past and future are illusions of conventional thought. This allows people who understand the language to see their entire life as a single unchangeable action, from past to future.

24.7.08

Limpeza étnica
Mário Crespo

O homem, jovem, movimentava-se num desespero agitado entre um grupo de mulheres vestidas de negro que ululavam lamentos. "Perdi tudo!" "O que é que perdeu?" perguntou-lhe um repórter.

"Entraram-me em casa, espatifaram tudo. Levaram o plasma, o DVD a aparelhagem..." Esta foi uma das esclarecedoras declarações dos autodesalojados da Quinta da Fonte. A imagem do absurdo em que a assistência social se tornou em Portugal fica clara quando é complementada com as informações do presidente da Câmara de Loures: uma elevadíssima percentagem da população do bairro recebe rendimento de inserção social e paga "quatro ou cinco euros de renda mensal" pelas habitações camarárias. Dias depois, noutra reportagem outro jovem adulto mostrava a sua casa vandalizada, apontando a sala de onde tinham levado a TV e os DVD. A seguir, transtornadíssimo, ia ao que tinha sido o quarto dos filhos dizendo que "até a TV e a playstation das crianças" lhe tinham roubado. Neste país, tão cheio de dificuldades para quem tem rendimentos declarados, dinheiro público não pode continuar a ser desviado para sustentar predadores profissionais dos fundos constituídos em boa fé para atender a situações excepcionais de carência. A culpa não é só de quem usufrui desses dinheiros. A principal responsabilidade destes desvios cai sobre os oportunismos políticos que à custa destas bizarras benesses, compraram votos de Norte a Sul. É inexplicável num país de economias domésticas esfrangalhadas por uma Euribor com freio nos dentes que há famílias que pagam "quatro ou cinco Euros de renda" à câmara de Loures e no fim do mês recebem o rendimento social de inserção que, se habilmente requerido por um grupo familiar de cinco ou seis pessoas, atinge quantias muito acima do ordenado mínimo. É inaceitável que estes beneficiários de tudo e mais alguma coisa ainda querem que os seus T2 e T3 a "quatro ou cinco euros mensais" lhes sejam dados em zonas "onde não haja pretos". Não é o sistema em Portugal que marginaliza comunidades. O sistema é que se tem vindo a alhear da realidade e da decência e agora é confrontado por elas em plena rua com manifestações de índole intoleravelmente racista e saraivadas de balas de grande calibre disparadas com impunidade. O país inteiro viu uma dezena de homens armados a fazer fogo na via pública. Não foram detidos embora sejam facilmente identificáveis. Pelo contrário. Do silêncio cúmplice do grupo de marginais sai eloquente uma mensagem de ameaça de contorno criminoso - "ou nos dão uma zona etnicamente limpa ou matamos." A resposta do Estado veio numa patética distribuição de flores a cabecilhas de gangs de traficantes e autodenominados representantes comunitários, entre os sorrisos da resignação embaraçada dos responsáveis autárquicos e do governo civil. Cá fora, no terreno, o único elemento que ainda nos separa da barbárie e da anarquia mantém na Quinta da Fonte uma guarda de 24 horas por dia com metralhadoras e coletes à prova de bala. Provavelmente, enquanto arriscam a vida neste parque temático de incongruências socio-políticas, os defensores do que nos resta de ordem pensam que ganham menos que um desses agregados familiares de profissionais da extorsão e que o ordenado da PSP deste mês de Julho se vai ressentir outra vez da subida da Euribor.

7.7.08

Allegory of the Cave

He climbed toward the blinding light
and when his eyes adjusted
he looked down and could see

his fellow prisoners captivated
by shadows; everything he had believed
was false. And he was suddenly

in the 20th century, in the sunlight
and violence of history, encumbered
by knowledge. Only a hero

would dare return with the truth.
So from the cave's upper reaches,
removed from harm, he called out

the disturbing news.
What lovely echoes, the prisoners said,
what a fine musical place to live.

He spelled it out, then, in clear prose
on paper scraps, which he floated down.
But in the semi-dark they read his words

with the indulgence of those who seldom read:
It's about my father's death, one of them said.
No, said the others, it's a joke.

By this time he no longer was sure
of what he'd seen. Wasn't sunlight a shadow too?
Wasn't there always a source

behind a source? He just stood there,
confused, a man who had moved
to larger errors, without a prayer.

- Stephen Dunn

3.7.08





Against All Things Ending - 2010
The Last Dark - 2013

http://en.wikipedia.org/wiki/Thomas_Covenant :

From Thomas Covenant's perspective, the Land may be only a delusion of his disturbed mind. Stephen R. Donaldson goes to great lengths to make this just as plausible as any other theory (e.g., Thomas Covenant is indeed mentally unbalanced, events in the Land seem to parallel his subconscious struggles, his physical condition upon exiting the Land is always precisely identical to his condition upon entering the Land, etc.) This raises the 'Fundamental Question of Ethics' that appears at the very start of the Chronicles, which can be rephrased as "do actions performed in dreams have any significance?" A deplorable act performed by Covenant in the first book (which will have consequences throughout the story) can be seen as an attempt to test this theory. One interpretation of the First Chronicles sees the reality of the Land eventually 'proven' to Covenant; another interprets Covenant's eventual decision to act for the Land as understanding that, be the Land real or not, it is of significance to him. Covenant tried to test the reality of the land several times during the first and second chronicles by growing a beard (after choosing not to discard his pen knife, the only object he has with him apart from his clothes) however this fails when he inevitably shaves his beard. Another test of the reality of The Land is the fact that Covenant enters the land after sustaining damage (e.g. being hit by a car in the first book, bashing his head on a coffee table corner in the second and a series of incidents at the start of the third including cutting his gums on razor blades hidden in bread buns, falling down a stoney hill, and sucking snake poison from the wound of a young girl) but he is always returned to the same state that he entered shortly before leaving, such as the wound on his forehead that he sustains bashing it on a coffee table before entering the Land is healed, only to be wounded again after being attacked with a staff by Hile Troy (Another 'real person' who has entered the Land.)[original research?]
Another major theme, closely related to the one just mentioned, is the psychological symbolism of the Land. It very clearly parallels Covenant's own psyche: he is filled with self-hatred, manifested in the Land as the Despiser; he is ravaged by a corrupting disease that eats away at him, similarly to the Illearth Stone, and so forth. Covenant is forced to decide whether the fundamental health and beauty of the Land is worth struggling to preserve, whether it's "real" or not, mirroring the choice he must make in his own life. In this way the fantasy genre allows the author to explore Covenant's inner workings in a very effective way.
After his return to our world, Covenant resumes his writing, publishing seven novels in ten years. Although he will never be able to return to the life he had before contracting leprosy, he seems to have come to terms with his condition and the events that transpired in The Land.
Where the First Chronicles were involved with Covenant himself, his psychology, and his relationship with the world of the Land, the Second Chronicles add a second character, Linden Avery. The interaction of the two characters becomes a major topic, with relations warming up and cooling off at different times, but in the end settling on mutual respect and warmth. Covenant is forced to re-evaluate his experiences and the conclusions he's come to in another context, namely when other "real" peoples' "real lives" are affected.
The resolution of the crisis and the defeat of the Despiser reveal another theme. Covenant discovers despite in himself, and thus that the Despiser is part of him, in a sense (figuratively, or, perhaps, even literally). Thus he does not need to combat him directly - indeed, direct conflict failed to defeat the Despiser more than once. Hence he surrenders his ring to the Despiser, and allows him to fail in his attempt to destroy the Arch of Time.
In the Thomas Covenant stories, Donaldson takes several terms from Sanskrit that are significant in Hinduism and Buddhism and reassigns them meanings in the Land. For example, the term moksha, which in Sanskrit refers to liberation from the cycle of sorrow, is given as the original name for a creature of depravity and evil called a Raver. Another Raver, Satansfist, is called samadhi, which in Sanskrit refers to a state of mind in which one achieves oneness with the object of one's concentration. The third Raver, Kinslaughterer, is called turiya, Sanskrit for a state of pure consciousness. Donaldson has commented on his website that moksha, samadhi, and turiya are ways the ravers describe themselves, while their other names are given by others.[1] Note that Donaldson's use of the term "raver" preceded the modern rave culture, so their overlap is likely coincidental.
Donaldson repeats this application of Sanskrit terms to seemingly unrelated aspects of the Land to other terms, including:
dukkha, dharmakshetra, ahamkara, and yajna.
The Chronicles also contain names of
Semitic origin. For instance, samadhi/Satansfist is also called "Sheol", (Hebrew for the grave, the abode of the dead), moksha/Fleshharrower is also known as "Jehannum" (similar to the Hebrew "Gehinnom" and the Arabic "Jahannum", for Hell or Purgatory), and turiya/Kinslayer is also "Herem" (Hebrew for banned, excluded, excommunicated). The name of the fairy race of Elohim is the Hebrew for God or gods.
The name Bhrathair (for one of the peoples encountered by Covenant in his sea voyage) is
Irish for "brothers".
At eight PM this evening
I kissed my mind goodbye
At eight-oh-five this evening
I almost wondered why
At eight eighteen this evening
I drifted out to sea
And never even noticed that
I'd lost the best of me

I'd do without it gladly
I'd face my loss with calm
If I could just remember
What keeps me warm


At ten PM this evening
I kissed my soul goodbye
At ten fifteen this evening
I sat and watched it fly
At ten nineteen this evening
I saw it dim the skies
And never even recognized
My own forgotten cries

I'd do without it gladly
I'd face my grief with peace
If I could recall tasting
Just one release


Upon the stroke of midnight
I kissed my heart goodbye
Upon the stroke of midnight
I watched my passions die
Upon the stroke of midnight
I saw them burn like trash
And never even felt the change
As I slumped down to ash

I'd do without them gladly
I'd fall and be content
If I'd ever understood
What living meant

--Stephen R. Donaldson

2.7.08

his approach
to love he said
was that of a farmer
most love like
hunters and like
hunters most kill
what they desire
he tills
soil through toes
nose in the wet
earth he waits
prays to the gods
and slowly harvests
ever thankful

- Suheir Ammad




Lamoni, Iowa

The factory siren tells workers time to go home
tells them the evening has begun.
When living with the tall man

whom I didn't love, I would wander
the streets, dreaming of Italy.
Trekking the handful of avenues

with him, he would say look there
between pink cobblestones,
there's manure like mortar.

The sweet smell of it Wednesday nights,
the night before auction,
when the misery of cows greets me

heading home through town.
Lake quiets, tired of my lies.
When will I tell truths again?

The siren. My love is home.
Nights, we stay in and X the days.

- Deborah Ager





I sent you one of each possibility.

the letter didn't arrive from a stranger,
who staggered as if drunk, dropped it
without a thought. I saw a friend
on his way to you, watched him walk it
away, two sheets of folded white paper,
waving, white flag at the end of his arm.

the electronic mail arrived, sudden and
harmless as a garter snake, appearing
in the garden I picture behind your house.

I left my voice for you, bottled as it said
a few thoughts: wondering how you are
(my letter talked about people complaining
into the cold spaces we leave our voices,
I told you my suggestion, if your voice melts
like new snow, add another layer)

waiting to hear from you, I finally imagine
the messages alive, sending a report
back from where the three of them gathered.
there was no house - they kicked at the dirt
where a campfire had burned, one turned
to another, said something was right here.

- Alex Boyd




In a cafe, once more I heard
Your voice - those sparse and frugal notes.
Do they not say that you spoke your native Greek
With an English accent?

Briefest of visions: eyes meet across the cafe;
A man of about my age - eyelids heavy,
Perhaps from recent pleasures.
I begin the most innocent of conversations.

Again I see that image;
Ancient delight of flesh
Against guiltless flesh.
Sweeter still, in its remembering.

Most innocent of conversations: once more, I am mistaken.
He leaves; the moment lost - and to forego
The squalor of this place, I read again your lines; those sparse and frugal notes.
In a taverna, you found beauty, long ago.

And when you draw, with your slim, swift pen
The image of that memory - time's patient hostage;
Then how can I forget him, that boy whom you could not forget,
Or that music, in a foreign language?

- Andrew Crumey






Oh, she was sad, oh, she was sad.
She didn't mean to do it.

Certain thrills stay tucked in your limbs,
go no further than your fingers, move your legs through their paces,
but no more. Certain thrills knock you flat
on your sheets on your bed in your room and you fade
and they fade. You falter and they're gone, gone, gone.
Certain thrills puff off you like smoke rings,
some like bell rings growing out, out, turning
brass, steel, gold, till the whole world's filled
with the gonging of your thrills.

But oh, she was sad, she was just sad, sad,
and she didn't mean to do it.

- Daisy Fried






I could not decipher the living riddle of my body
put it to sleep when it hungered, and overfed it
when time came to dream

I nearly choked on the forked tongue of my spirit
between the real and the ideal, rejecting the one
and rejected by the other

I still have not mastered that art of storm-riding
without ears to apprehend howling winds
or eyes for rolling waves

Always the weather catches me unawares, baffled
by maps, compass, stars and the entire apparatus
of bearings or warning signals

Clutching at driftwood, eyes screwed shut, I tremble
hoping the unhinged night will pass and I remember
how once I shielded my flame.

- Yahia Lababidi

24.6.08

Obama e a "motivação"

O problema da política, hoje é só um: mas quem são as pessoas? O que fazem durante o dia? Já terás reparado que estas duas questões, cada vez mais, se equivalem, e é isso que está errado. Primeiro, porque a ilusão de estar a trabalhar para qualquer coisa importante e significativa cada vez é maior (miragem que se contradiz claramente porque, por absurdo, se o valor médio da espécie fosse uma curva em ascensão real em vez de ilusória, a política não seria feita de motivar pessoas e sim de capitalizar no seu trabalho) e por outro lado, é inevitável sentir medo face à ditadura dos néscios. Não é só entre nós que os idiotas imperam.


(tirado de uma conversa entre nós)

23.6.08

Com isto tudo esqueci-me de falar sobre o exame de Matemática B.

Vou ser breve porque tenho um Bombay com tónica a aquecer.

Questão do II grupo: o período de certo satélite é dado por 24/sen(q) sendo q o ângulo tal, tal. Tendo em conta esta expressão prove que o período deste satélite sobre o pólo norte é igual a 24.

E depois em letras bem visíveis: "tenha em conta que no pólo norte o ângulo q é de 90º"...

Ou seja, "ganhe 10 pontos pegando neste valor que lhe damos, 90, e substituindo na expressão dada".

E não é que por mais que tente abstrair-me, só consigo pensar naqueles Estados totalitários, à esquerda e à direita e ao centro-sul mais o raio que os parta, onde o auge da proficiência era chegar a ministro de qualquer coisa?

Tenho aqui os exames de Matemática A e B - 12º ano, de 2008.

Aconteceram, hoje, três coisas em linha com o que era expectável:

- o exame era muito acessível; houve uma questão oferecida (a 5, que, em suma, pedia ao examinando que calculasse uma área que a sua calculadora poderia facultar-lhe com dois cliques) e várias outras de resolução bastante rudimentar. Sei ainda que os critérios de correcção deste ano são mais lenientes do que os de anteriores épocas. Vantagem estatística... ou tapar o sol com uma peneira, dando por penhor a literacia de gerações futuras num Estado onde servir à mesa valerá qualquer dia (novamente, desculpem) o mesmo reconhecimento do que seccionar corações, projectar aeronaves, ou desenvolver investigação laboratorial.

- as dificuldades sentidas pelos examinandos foram quase as mesmas, quantitativamente face à amostra que compareceu hoje, que teriam sido nos anos transactos; descobre-se agora com perplexidade entre as hostes da DREL e afins que os putos, além de ficarem bloqueados por não serem capazes de descodificar um enunciado escrito na mais básica, directa e rectangular expressão da língua materna, também se atrofiam (intimidam) face às diferenças entre as questões que compõem o exame e aquilo que viram durante o ano inteiro; ou seja, o velho quadradinho da "adaptabilidade a novas situações" desapareceu, talvez porque os responsáveis pelo ensino não sabem o que são novas situações, já que não saem dos gabinetes há vinte anos.

- o pessoal vai todo para economia, gestão, contabilidade ou cursos de belas-artes. Para depois poderem trabalhar num banco a ganhar 450 euros e a apanhar as sobras das cunhas dos tios. Mas isto até faz algum sentido, uma espécie de nexo perverso: não se valoriza, neste país, o rigor, o conhecimento, as práticas de apuramento da "boa" verdade enquanto única garantia da liberdade de pensamento e de um Estado de Direito. Em vez disso, preza-se o chico-espertismo, a mediocridade e a celeridade na obtenção de méritos aparentes, em prol da manutenção do statu quo - o reino dos pobres de espírito.

Benditos.

16.6.08

Os exames das florzinhas de estufa por Pinho Cardão no 4ª República

"Os exames nacionais finais do ensino básico e secundário começam na próxima terça-feira, com as provas de Português, e são protegidos por 7.000 militares da GNR.
Com a época, logo aparecem os comentadores e os tratadistas, os pedagogos, psicólogos e metodólogos, e todos os muito bem pensantes a alertar para os traumatismos e o horrendo stress que os exames provocam nas tenras mentes de quem se sujeita a tais absurdas provas.
A situação é hoje relatada em artigo de Mário Cordeiro, professor de Pediatria, no DN de hoje-Notícias Magazine.
“Exames, exames…é o stress total. Filhos angustiados, pais em pânico, horários em desordem, quartos a parecerem cenários de pós-guerra, discussões a estalarem por tudo e por nada. É assim a vida de muitas casas onde há jovens a aproximar-se da receada hora dos exames…”
Enfim, é gentinha desta que a nossa educação está a criar: florzinhas de estufa, que se enervam e estiolam a qualquer aragem…Sugiro que os ponham sempre numa redoma: na escola, no trabalho, na vida. E tenham-lhes um psicólogo sempre à mão, preferentemente com os mesmos problemas. Consolar-se-ão uns aos outros!…
Cá por mim, começo agora a ficar traumatizado por não ter ficado traumatizado com os exames que fiz!…
Até porque arranjar um qualquer traumatismo psicológico é mesmo a única forma que me resta de não ficar fora do sistema e ser considerado um troglodita execrável…"

7.6.08

Por esta hora há 11 anos nasceu o meu filho.

O que desejo para o seu futuro é apenas

- placidez
- ânsia de transcender-se
- objectividade

Estas coisas quero-lhe e dependem dele. Quanto ao resto - "sorte" e outras benesses gratuitas que tais - não vale a pena ter expectativas ou contar com isso de borla porque a criança não é parva nem precisa que lhe encontrem lotarias maiores; entre o que ele tiver nos genes e o que vier fruto do seu posicionamento face ao Mundo, será essa a soma das suas colheitas.

Amo-te, filhote.

30.5.08

"Only the small secrets need to be protected. The big ones are kept secret by public incredulity."

-Marshall McLuhan

Polly

Tentei fugir da mancha mais escura

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

- David Mourão-Ferreira

28.5.08

Mais factos

Um par de óculos em Lisboa: EUR 408.

Pedi a amigos que me fizessem o favor de verificar o custo do mesmo par de óculos (pela marca e pelo aspecto da armação, mais coisa menos coisa a bem da rapidez e viva o mercado global, e tipo de lentes) e cá vão algumas das respostas. Atenção que não estou a falar em apetrechos de lazer. São óculos para gente míope e astigmática.

Finlândia: 404 (vantagem adicional: não é preciso seguro para obter um mínimo de 25% de comparticipação)
Croácia: 332
Eslovénia: 350
Reino Unido: 588
Alemanha: 395
Grécia: 325

Ou seja, o único caso em que o objecto sai mais caro (44%) do que em Portugal é num país onde os salários são em média 170% superiores aos de cá. Há uma diferença entre 170% e 44%, não há?

Nos restantes países os salários estão também acima dos portugueses salvo no caso da Croácia, onde deverão andar pelos 75% da "nossa" média de 750 EUR.

27.5.08

Factos

1. O Estado vale-se insidiosamente do desequilíbrio de forças do qual goza ante os cidadãos (95% dos quais nem sequer conseguem articular duas frases seguidas, quanto mais contestar convocatórias fora de prazo) para anular, com vantagem estatística, o número de inscritos nos centros de emprego

2. O Estado enfia, com vantagem estatística, centenas de pessoas com o 6ºano de escolaridade - que não sabem articular duas frases seguidas porque, entre outras razões, passam o dia a lamentar as dívidas em que tiveram que se meter para comprar roupa para os filhos, telemóveis novos e gasolina para ir trabalhar - a fazer ensaios (leia-se em 75% dos casos, a pagar para lhes fazerem ensaios) sobre

"actuar criticamente no seio da sociedade modelando relacionamentos entre homens, mulheres e equipamentos eléctricos de uso doméstico, evidenciando a distinção entre classes de valências diferenciadas, em contextos que podem ou não incentivar a que sejam coligidas correlações amostrais dentro e fora do tecido urbano".

Estas pessoas ficam com equivalência ao 9º ano, tendo assim de barato aquilo que os putos - cada vez mais amorfos, ou em alternativa chic, hedonistas - têm de conseguir metidos numa sala de aula durante 3 anos.


3. O Estado concede a atletas da bola equivalência ao 12º ano, ganhando assim vantagem estatística, a bem da habitual projecção provinciana.

4. O Estado proporciona a estudantes oriundos dos PALOP estágios nas Câmaras Municipais, eximindo-os do limite de faltas que impende sobre os demais alunos, e dando-lhes equivalência ao 9º ano em alguns casos. Daqui advém uma aparente vantagem estatística.

5. O Estado já não "dá" hospitais, escolas, estradas, polícia, nada. Administra-se a si mesmo, em sinergia com esse grande nada que é a política.

23.5.08

Estou com falta de imaginação, só me ocorrem copy-pastes

Entrevista ao coordenador do estudo "Um Olhar Sobre a Pobreza"
23.05.2008 - Público

O coordenador do estudo “Um Olhar Sobre a Pobreza”, Alfredo Bruto da Costa, não tem dúvidas: os baixos salários são um problema grave, que contribui para a pobreza em Portugal. É preciso aumentar os ordenados e democratizar as empresas.

É mesmo verdade que metade da população portuguesa está numa situação vulnerável à pobreza?

É mesmo assim. Este é um aspecto da pobreza que, em Portugal, é analisado pela primeira vez: quantas pessoas, ao longo de seis anos, passaram pela pobreza e foram apanhadas como pobres em pelo menos um dos anos. A opinião pública, enquanto tal, nunca foi confrontada com esta realidade.

E a opinião pública pergunta: onde estão os pobres?

Esse é outro problema: o da definição de pobreza. Quando se pensa em pobreza, pensa-se em miséria ou nos sem-abrigo. O pobre, na definição adoptada no estudo, é alguém que não consegue satisfazer de forma regular todas as necessidades básicas, assim consideradas numa sociedade como a nossa. Miséria é uma parte disso.

Apesar de tudo, mais vale ser pobre em Portugal do que em alguns países de África ou da Ásia?

Sim, em termos absolutos. Em termos relativos, não necessariamente. Porque a pobreza é um fenómeno social, não apenas individual: é não ter recursos para participar nos hábitos e costumes da sociedade. Se uma criança pobre não pode vestir-se como os seus colegas, para não ser ridicularizada, mesmo que tenha mais que uma criança em África, sofre de exclusão.

O que é preciso para não ser estigmatizado em Portugal é muito mais do que em outros países. Há uma definição do século XIX, que diz que uma pessoa é pobre quando não tem dinheiro para vestir uma camisa que seja aceitável na sociedade.

Os 47 por cento de famílias que viveram uma situação de pobreza não são o mesmo que a taxa de pobreza em Portugal que continua nos 20 por cento.

Há uma população, num determinado momento do tempo, que é analisada através de uma radiografia instantânea – são os 20 por cento. Outra coisa é uma sociedade cuja vida só é captada num estudo longitudinal, ao longo de um período.

Porque se fala da persistência da pobreza em Portugal?

A partir da entrada de Portugal na Comunidade Europeia, houve um facto que alterou a atitude da sociedade portuguesa perante a pobreza: Portugal passou a ter programas de luta contra a pobreza, através de metodologias que deram um salto qualitativo no modo de encarar e tratar a pobreza. Poderíamos esperar que a pobreza tivesse uma redução apreciável.

E não teve?

Não teve. Em 2004, terá sido de 19 por cento, em 2005 terá sido 18 por cento. É uma tendência? Falta ver o que se passou nos anos seguintes. O que sabemos é que, durante esse período de 20 anos, andámos à volta dos 20 por cento. Mesmo que se admita que houve uma tendência ligeiramente decrescente, não explica que a ordem de grandeza se situe nos 20 por cento. A pobreza em Portugal ou se manteve estável ou teve uma redução sem proporção com o esforço feito desde que Portugal entrou na UE, na luta contra a pobreza.

E qual é razão principal?

São várias. Mas há uma questão chave: é tempo de a sociedade se interrogar sobre o porquê esta resistência da pobreza perante tanto esforço, boa vontade, recursos, nos últimos 20 anos.

Neste estudo, não entrámos no porquê. Estamos muito virados para a ideia de que a luta contra a pobreza é igual a políticas sociais. Quando há uma percentagem tão elevada de famílias pobres entre pessoas empregadas, vê-se claramente que a política social é um instrumento útil, mas não resolve tudo. Pode ser decisivo para o terço de pensionistas ou para o outro terço, de outros inactivos como domésticas, que nunca trabalharam nem tencionam trabalhar. Aí, ou a sociedade portuguesa resolve valorizar economicamente o trabalho doméstico e tem uma modalidade de remuneração – o que seria uma revolução cultural – ou isso nunca se resolve.

A outra parte – os pobres que estão empregados, por conta própria ou por conta de outrem – não se resolve com política social, é um problema económico.

É um problema de salário?

É fundamentalmente um problema de salário.

O texto diz que os salários são uma questão complexa e o que há a fazer está sobejamente identificado. É subir os salários?

Sim. Mas pode-se subir os salários sem aumentar a produtividade? Todos dizem que a economia portuguesa não pode continuar com salários baixos. O que se diz a seguir é que os salários não podem aumentar sem aumentar a produtividade. Uma das causas de baixa produtividade é a baixa qualificação dos trabalhadores, mas isso só explica uma parte muito pequena.

Uma das razões essenciais é a evasão fiscal.

Há muitas outras: a organização da empresa, os métodos de gestão. Há uns anos, se se dissesse que também os empresários tinham baixas qualificações, seria quase um escândalo. Hoje, é uma realidade que entra pelos olhos dentro. A sociedade portuguesa estava atrasada em termos de qualificações, a todos os níveis. Temos que fazer uma opção: ou se resolve o problema dos rendimentos das famílias de outra forma ou se declara que nos próximos 20 ou 50 anos os salários continuarão baixos.

Essa não é a sua opção?

Claramente que não. Há muito que defendo que deve haver uma diversificação das fontes de rendimento: uma parte do trabalho, outra do capital, o que implica uma democratização no acesso ao capital, que não é só poder comprar uma acção: o número de acções que um cidadão comum tem não lhe permite ter a mais pequena influência na gestão da empresa. O que importa que o capital esteja disseminado quando quem continua a mandar são os grandes? A democratização do capital deve ser também a democratização da empresa.

Pode haver ainda medidas como um rendimento básico – já utilizado numa região da Bélgica e num estado norte-americano – que todos os cidadãos recebem, sobre o qual constrói o seu rendimento familiar. Esse rendimento básico pode não ser suficiente para viver, mas é uma almofada que protege nos ciclos em que inesperadamente se perde o rendimento.

Num mercado economicamente liberal, temos que saber se é possível alguma vez termos pleno emprego. Eu tenho dúvidas.

A prioridade que se dá à redução do emprego não é então viável?

Tenho dúvidas de que seja. Pode ser reflexo de falta de coragem para aceitar a realidade. Se tivéssemos a lucidez de o admitir, haveria outro tipo de medidas a tomar para acorrer a essas situações.

O estudo fala no ciclo vicioso da pobreza: o pobre tem baixas qualificações e não melhora as qualificações porque é pobre. Como se rompe isto?

Uma das respostas é que o sistema educativo tem que ter condições de acesso e sucesso das crianças provenientes dos meios pobres. O sistema educativo está desenhado à imagem da família média e média alta: métodos pedagógicos, conteúdos escolares, o tipo de apoio que a criança pode ou não ter em casa, dadas as condições de habitação ou o grau de instrução dos pais… Há certos pressupostos de que os pais têm conhecimento para ajudar, de que têm acesso à internet ou a livros de consulta… Às vezes, as crianças não têm sequer um canto para fazer os trabalhos de casa.

Os programas de luta contra a pobreza não têm funcionado porquê?

Todos os projectos são desenhados de modo a não mexer no resto da sociedade. Essa é uma limitação decisiva. Se não há mudança social, não pode haver erradicação da pobreza. Se os programas não tocam no resto da sociedade, tentam resolver a pobreza dentro do universo da pobreza, mas não estão a resolver as causas.

Como vê as medidas tomadas pelo actual Governo?

Há uma medida que pode reduzir a pobreza em cerca de um terço: levar o Complemento Solidário para Idosos até ao limiar de pobreza, por adulto equivalente.

O estudo abrange o melhor período do então Rendimento Mínimo Garantido [RMG], que pelos vistos não ajudou muito.

O RMG nunca foi para resolver o problema da pobreza; a grande maioria dos pobres nem sequer tinha acesso ao RMG: eram cinco por cento, os pobres eram 20 por cento. São tão poucos os pobres que beneficiam do [actual] Rendimento Social de Inserção que nunca se resolveria o problema da pobreza. O RMG tinha dois objectivos: atenuar a pobreza dos pobres ou o seu grau de carência; e ir ao encontro dos problemas subjacentes à família: formação profissional, integração das crianças na escola. Mas o impacto global sobre a pobreza não podia ser expressivo.

Isso confirma que o problema não se resolve só com políticas sociais.

Por definição: se tenho um problema de repartição primária (o dos salários), ele resolve-se por via da política económica.

Há uma afirmação dura: “A sociedade portuguesa não está preparada para apoiar as medidas necessárias” no combate à pobreza...

Isso porque num inquérito europeu de 2002 dois terços dos portugueses atribui a pobreza a factores que não são solúveis: fatalismo, má sorte, preguiça dos pobres. Se eu disser que vou tomar uma medida que terá alguma desvantagem para os que têm mais rendimentos, a sociedade portuguesa não vai perceber isto. Um dos programas de luta contra a pobreza tem que ser o de esclarecer a opinião pública sobre as verdadeiras causas da pobreza.

Está também disseminada a ideia de que há muitos pobres que abusam...

É uma atitude culpabilizante. Na transição do Rendimento Mínimo Garantido para o Rendimento Social de Inserção, no debate público que houve parecia que as pessoas estavam mais interessadas em combater a fraude dos pobres do que em resolver o problema da pobreza. Isto é expressivo de uma mentalidade.