22.9.08

O problema do intervencionismo

"As bolhas têm de começar a ser vistas como a doença e a recessão a cura. O problema é que o intervencionismo económico tende a prolongar desnecessariamente a recessão, um período onde a relação entre investimento e poupança está a reequilibrar-se. Exemplo disso é a frequência de comentários sobre como é preciso incentivar o consumo, na verdade, a forma mais rápida de ajustamento é mesmo aumentar a poupança para tentar suster o processo de liquidação que se dá sempre com muito maior intensidade nos sectores de produção de bens de capital. Mas o contrário é o advogado, ou seja, a própria origem do fenómeno: um período de incentivo artificial ao investimento e consumo permitido pela ilusão da expansão monetária, o que desequilibra a relação entre a poupança real e o investimento que está a ser realizado."

- Carlos Novais

19.9.08

...

Primeiro Comando de Portugal
Jovens das favelas brasileiras criam nova criminalidade nos arredores de Lisboa
19.09.2008 - 08h21


Serão centenas os jovens que vieram das favelas brasileiras para a Margem Sul de Lisboa e criaram o Primeiro Comando de Portugal (PCP). Não têm documentos mas sim cadastro e as autoridades acreditam estarem por trás de actos de violência, como o que vitimou um ourives de Setúbal, noticia hoje o "Correio da Manhã".

O homem, 20 anos, que disparou sobre o ourives José Correia, que reagiu a um assalto, foi preso pela Polícia Judiciária na semana passada e está hoje em prisão preventiva. É membro do PCP.

O Primeiro Comando de Portugal será um clone do Primeiro Comando da Capital, que promete trazer uma nova justiça, criado no Brasil nos anos 90.

Segundo o "Correio da Manhã", as autoridades estão preocupadas com esta nova realidade trazida por centenas de jovens que se instalaram no distrito de Setúbal, organizados e dispostos a recriar os guetos brasileiros.


Há uns autómatos do governo que dizem que não...

16.9.08

Bloquismo nos manuais escolares

P. 8, 11 SETEMBRO 2008 SÁBADO

O Ministério da Educação está preocupado com a colocação dos professores e com as condições das escolas, com as reivindicações dos sindicatos e com as críticas da oposição, com as exigências da burocracia e com as notas dos alunos – está tão preocupado com todas estas coisas meritórias que parece que alguém se esqueceu de um pequeno, inocente e irrelevante detalhe: o que é que se ensina, exactamente, nas salas de aula?

A pergunta é simples e a resposta devia ser simples – mas é um pouco mais complicada do que parece. Nas aulas de História, por exemplo, devia ensinar-se História. Mas, como a SÁBADO percebeu esta semana (num artigo que pode ler a partir da página 56), o que se ensina é uma visão perturbadora, ideológica e falsa, absolutamente falsa, da História.

No manual Caminhos da História, para o 12.º ano, editado pela ASA, escreve-se: “Qualquer que seja o modo como se encare a filosofia comunista, a verdade é que devem ser-lhe creditadas realizações positivas na economia: uma acentuada melhoria dos métodos agrícolas e do rendimento do solo, expansão considerável da industrialização; introdução da planificação que tem, pelo menos, a vantagem de evitar a superprodução”. Nem uma palavra sobre a fome nos campos soviéticos, sobre a escassez de produtos nas lojas e supermercados ou sobre a falta de capacidade de inovação económica dos países comunistas.

No mesmo livro, o Exército Zapatista mexicano é considerado um "movimento social" que defende o ambiente, a democracia e a justiça, esquecendo que se trata de um movimento de guerrilha num país democrático. Noutro manual, Cadernos de História, para o 9.º ano, da Texto Editores, o maoísmo é visto como "uma longa luta revolucionária apoiada, sobretudo, pelos camponeses", deixando para mais tarde a referência aos milhões de mortos provocados pelo regime de Mao. E há muito mais: a globalização vista como um incentivo a que o mundo se transforme "num vasto casino", a crise dos sindicatos como uma consequência do "egoísmo" de alguns trabalhadores, e etc., etc., etc.

O Ministério da Educação não tem que escolher todos os livros que cada aluno do País vai ler. E é bom que as escolas possam decidir que manuais pretendem adoptar. Mas, arranje-se a desculpa que se arranjar, livros escolares que falsificam a História não podem ser aprovados pelo Estado. Ou será que o Ministério também permitiria que as escolas escolhessem um manual que ensinasse que Hitler pretendia apenas um mundo mais harmonioso, que Pinochet afastou de forma pacífica alguns opositores e que Salazar era um homem bom que desconhecia as torturas da PIDE?


Mao, sem ou com poucos mortos

COM. “A ‘revolução cultural’ saldou-se em dois milhões de mortos, cem milhões de perseguidos e vinte milhões de jovens enviados, após o fim do movimento, para campos de reeducação.”

- O Tempo da História, 12° ano, Volume II Porto Editora

SEM. “O maoismo estabelecia a criação de comunas populares rurais, constituídas por milhares de famílias que viviam numa lógica de auto-suficiência. Contudo, estas experiências ficariam muito aquém do desejado e provocaram a oposição de muitos membros do Partido Comunista Chinês. Por isso, em 1966, o líder chinês desenvolveu um programa de Revolução Cultural, que tinha como objectivo o afastamento dos opositores ao regime, objectivo apoiado por muitos jovens chineses que veneravam a figura de Mao.”

- Cadernos de História 9, Areal.

“A proclamação da República Popular da China, por Mao Tse-Tung, após uma longa luta revolucionária apoiada, sobretudo, pelos camponeses, afastou definitivamente as forças nacionalistas e deu um novo vigor à economia do país, cuja reconstrução foi, em parte, suportada pelos soviéticos. [Ilustrado por uma imagem de Mao entre camponeses] O fracasso desta experiência [Grande Salto em Frente] levou Mao a iniciar, em 1966, a Revolução Cultural que, com a ajuda dos Guardas Vermelhos, rapidamente alastrou a todo o país. O objectivo era eliminar todos os opositores do regime e educar a população segundo os princípios maoistas”

- Novo História 9, Texto Editores




Fonix!

12.9.08

http://gatodocheshire.wordpress.com/2008/09/11/big-god/

"Ontem, a propósito do acelerador de partículas do CERN, todo o mundo discutiu grandes questões: a origem do universo, o big bang, o bosão de Higgs, a existência de Deus. Fez-me um pouco de impressão o teor de algumas conversas, falando da partícula divina e outras expressões do género, como se o acelerador de partículas fosse capaz de fornecer a solução absoluta para a compreensão do universo. Como muito bem disse a Professora Amélia Maio na SIC-N ontem à noite, mesmo se admitirmos que a experiência deixa ao nosso alcance a explicação do big bang, continua a deixar fora dele aquilo que existia antes do big bang. Ou seja, se, numa linguagem mais filosófica, dissermos que o big bang deu origem ao universo e que, portanto, antes dele era o nada, resta uma coisa por esclarecer: como é que o nada pode ter dado origem a tudo? Ou seja, se antes do universo já existia qualquer coisa que lhe deu origem, é porque essa coisa era já qualquer coisa.

Aliás, isto é algo que me intriga: é que quanto mais sabemos do universo e da vida (graças ao avanço da ciência) mais necessidade temos de recorrer a Deus para explicar o que ignoramos. Quando o mundo era visto como um disco, sobre o qual se erguia uma cúpula com estrelas penduradas, era já suficientemente complicado, mas era só isso. Quando a terra passou a ser vista como um elemento infinitesimal num universo colossal, o espaço da nossa ignorância aumentou muito mais do que o espaço do nosso conhecimento (que também aumentou enormemente). Todo o avanço da ciência tem este condão: quanto mais sabemos, mais ignoramos e mais espaço reservamos para a presença divina."

O fim da nossa história?

Vasco Pulido Valente



Portugal está sem destino. Deixou de ser um país colonial. Já não é um "bom aluno da "Europa".Portugal está sem destino. Deixou de ser um país colonial. Já não é um "bom aluno da "Europa". Pior ainda, apesar de muito esforço e muita propaganda, não se conseguiu "modernizar". O "atraso" continua e até aumentou. Não se vive hoje como se vivia durante Salazar, mas também não se vive numa mediocridade tranquila. Pelo contrário, o mundo muda e a insegurança cresce. O mundo muda e Portugal não se adapta: o desemprego cresce; as pensões diminuem, a educação é um artifício, o serviço de saúde vai pouco a pouco empobrecendo e a fisco oprime toda gente. No meio disto, o país não quer, nem está à espera de nenhuma reviravolta dramática. A "Europa", por que antigamente suspirava, obriga à imobilidade. É uma espécie de paragem definitiva, para além da qual nada existe - é pelo menos, por enquanto, um verdadeiro "fim da história".De resto, trinta e tal anos de regime criaram um cinismo político geral. À volta do PS e do PSD há meia dúzia de fanáticos, que ninguém leva a sério, e uma corte de carreiristas, que ninguém respeita. Tendo governado o país simultânea ou alternadamente, nem o PS nem o PSD inspiram hoje qualquer confiança. Colonizaram o Estado e a administração local por interesse próprio e cometeram (ou permitiram que se cometessem) erros sem desculpa. Desorganizaram a sociedade, ou mesmo impedirem que ela se fosse por sua vontade organizando, e levaram Portugal a uma espécie de paralisia de que não se vê saída. Apesar de um ou outro protesto melancólico e corporativo, o público já não se interessa pelo seu futuro, ou pelo seu presente, colectivo.Nem Sócrates, nem Ferreira Leite percebem, no fundo, o que se passa. Sócrates persiste em repetir a sua velha ladainha, inteiramente desacreditada, com o entusiasmo de 2006. Ferreira Leite (a "tia Manuela", como agora popularmente lhe chamam) critica a evidência e recomenda os remédios do costume. Cada um à sua maneira, os dois falam uma nova "língua de pau", que os portugueses não ouvem ou que não registam. Talvez por isso, não falam muito e quando falam, excepto pelas querelas de partido e pelo vaguíssimo contraste entre o maior "liberalismo" de Ferreira Leite e o improvisado "neo-keynesianismo" de Sócrates, concordam no essencial. O PS e o PSD são o regime e não podem ou tencionam tocar no regime. A reforma de Portugal, se por absurdo vier, não virá dali.

11.9.08

Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”.Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação completa.

Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental – a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O Povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas.Por natureza, forma um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.
O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém, com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher – por ideias e não por instinto – entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor ambas a uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.
O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus – os que o levam a aceitá-la – e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais – económicas ou outras -, não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro, pertence ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.
Quando, portanto, digo que a palavra “provincianismo” define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra “provincianismo”, que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação.
Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como os campónios, ou como os provincianos, ou como os citadinos.Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.
Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios: o transporte sobre rodas, o discurso disposto em verso escrito, renegam a naturalidade original dos pés e da prosa falada.
A artificialidade, porém, é de dois tipos. Há aquela, acumulada através das eras, e que, tendo-a já encontrado quando nascemos, achamos natural; e há aquela que todos os dias se vai acrescentando à primeira. A esta segunda é uso chamar “progresso” e dizer que é “moderno” o que vem dela.
Ora o campónio, o provinciano e o citadino diferenciam-se entre si pelas suas diferentes reacções a esta segunda artificialidade.O que chamei campónio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. Até das conveniências e das comodidades do progresso se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito próprio, se esquivar a servir-se delas. É o homem dos “bons tempos”, entendendo-se por isso os da sua mocidade, sejá é idoso, ou os da mocidade dos bisavós, se é simplesmente párvuo.
No pólo oposto, o citadino não sente a artificialidade do progresso. Para ele é como se fosse natural. Serve-se do que é dele, portanto, sem constrangimento nem apreço. Por isso o não ama nem desama: é-lhe indiferente. Viveu sempre (física ou mentalmente) em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das invenções; são pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente já sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, são todavia para nós idealmente sempre as mesmas.
Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo o ama. Para o seu espírito desperto, mas incompletamente desperto, o artificial novo, que é progresso, é atraente como novidade, mas ainda sentido como artificial. E, porque é sentido simultaneamente como artificial é sentido como atraente, e é por artificial que é amado.O amor às grandes cidades, às novas modas, às “últimas novidades”, é o característico distintivo do provinciano.
Se daqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada é composta de provincianos, ter-se-á concluido bem, porque assim é. Nas nações deveras civilizadas, o escol escapa, porém, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo. A tragédia mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano.
Não se estabeleça, pois seria erro, analogia, por justaposição, entre duas classificações, que se fizeram, de camadas e tipos mentais.A primeira, de sociologia estática, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia dinâmica, define estados de adaptação mental ao ambiente.Há gente do povo mental que é citadina em suas relações com a civilização. Há gente do escol, e do melhor escol – homens de génio e de talento - que é campónio nessas relações.
Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem um semelhança perfeita com a da criança.A reacção do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos.Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais.
Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação: na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade incoordenada.São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos feitos da mesma causa – a falta de desenvolvimento.A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto.
São estes característicos que distinguirão o provinciano do campónio e do citadino.No campónio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emoção é pobre, porém não é vivaz, pois é concentrada e não dispersa; a vontade, se de facto é impulsiva, tem contudo a coordenação fechada do instinto, que substitui na prática, salvo em matéria complexa, a coordenação aberta da razão.No citadino, semelhante ao homem adulto, não há imitação, mas aproveitamento dos exemplos alheios, e a isso se chama, quando prático, experiência, quando teórico, cultura; a emoção, ainda quando não seja vivaz, é contudo rica, porque complexa, e é complexa por ser complexo quem a terá; a vontade, filha da inteligência e não do impulso, é coordenada, tanto que, ainda quando faleça, falece coordenadamente, em propósitos frustes mas idealmente sistematizados.
Comecemos por não deixar de ver que o escol se compõe de duas camadas – os homens de inteligência, que formam a sua maioria, e os homens de génio e de talento, que formam a sua minoria, o escol do escol, por assim dizer.Aos primeiros exigimos espírito crítico; aos segundos exigimos originalidade, que é, em certo modo, um espírito crítico involuntário.Façamos pois incidir a análise que nos propusemos fazer, primeiro sobre o pequeno escol, que são os homens de génio e de talento, depois sobre o grande escol.
Temos, é certo, alguns escritores e artistas que são homens de talento; se algum deles o é de génio, não sabemos, nem para o caso importa.Nesses, evidentemente, não se pode revelar em absoluto o espírito de imitação, pois isso importaria a ausência de originalidade, e esta a ausência de talento.Esses nossos escritores e artistas são, porém, originais uma só ez, que é a inevitável. Depois disso, não evoluem, não crescem; fixado esse primeiro momento, vivem parasitas de si mesmos, plagiando-se indefinidamente.A tal ponto isto é assim, que não há, por exemplo, poeta nosso presente – dos célebres, pelo menos – que não fique completamente lido quando incompletamente lido, em que a parte não seja igual ao todo.E se em um ou outro se nota, em certa altura, o que parece ser uma modificação da sua “maneira”, a análise revelará que a modificação foi regressiva; o poeta, ou perdeu a originalidade e assim ficou diferente pelo processo simples de ficar inferior, ou decidiu começar a imitar outros por impotência de progredir de dentro, ou resoveu, por cansaço, atrelar a carroça do seu estro ao burro de uma doutrina externa, como o catolicismo ou o internacionalismo.Descrevo abstractamente, mas os casos que descrevo são concretos; não preciso de explicar porque não junto a cada exemplo o nome do indivíduo que mo fornece.
O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção dos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura. A ironia emotiva, a subtileza passional, a contradição no sentimento – não as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o Pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever.
A demonstração fica completa quando conduzimos a análise à região da vontade. Os nossos escritores e artistas são incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pela emoção, não sabem o que é a disposição das matérias, ignoram que um poema, não é mais que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio. Nenhuma capacidade de atenção e concentração, nenhuma faculdade de inibição. Escrevem ou artistam ao sabor da chamada “inspiração”, que não é mais que um impulso complexo do subconsciente que cumpre sempre submeter, por uma aplicação centrípeta da vontade, à transmutação alquímica da consciência. Produzem como Deus é servido, e Deus fica mal servido. Não sei de poeta português de hoje que, construtivamente, seja de confiança para além do soneto.
Ora, feitos estes reparos analíticos quanto ao estado mental dos nossos homens de talento, é inútil alongar este breve estudo, tratando com igual pormenor a maioria do escol.Se o escol é assim, como será o não-escol do escol?Há, porem, um característico comum a ambos esses elementos da nossa camada mental superior, que aos dois irmana, e, irmanados, os dois define: é a ausência de ideias gerais e, portanto, do espírito crítico e filosófico que provém de as ter. O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro – aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas ou italianas, ou russas, ou o que quer que seja.O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas célebres.Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo.
- Fernando Pessoa

Publicado em 1932 na revista Fama, dirigida por Augusto Ferreira Gomes.

9.9.08

Acredito, li "nas notícias"

Como comentar, senão sumariamente, o facto noticiado hoje de que o número de chumbos no secundário é o mais baixo das últimas décadas? Com o óbvio, dizendo que é o mais baixo porque as notas são puxadas para cima, os testes facilitados e os professores seleccionados com base em critérios desviantes face à aptidão vocacional e qualificações intelectuais?

Ou se calhar citando isto...

Crianças deviam ter jogos de PlayStation nas escolas

Jogos de “playstation” nas escolas para as crianças brincarem e descansarem do trabalho da “sala de aula” é uma proposta para as Actividades de Enriquecimento Curricular de uma especialista em Educação para evitar o “risco de acabar com a infância”

“É urgente respeitar o brincar das crianças e reabilitar o sentido da actividade lúdica” na Escola a Tempo Inteiro, disse à agência Lusa Maria José Araújo, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativa da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.



5.9.08

When men stop believing in God, they don’t believe in nothing: they believe in anything.

- T. Chesterton
Ghosts

Some ghosts are women,
neither abstract nor pale,
their breasts as limp as killed fish.
Not witches, but ghosts
who come, moving their useless arms
like forsaken servants.

Not all ghosts are women,
I have seen others;
fat, white-bellied men,
wearing their genitals like old rags.
Not devils, but ghosts.
This one thumps barefoot, lurching
above my bed.

But that isn't all.
Some ghosts are children.
Not angels, but ghosts;
curling like pink tea cups
on any pillow, or kicking,
showing their innocent bottoms, wailing
for Lucifer.

- Anne Sexton

4.9.08

Retrógrado (n.) - geralmente aquele que defende ideias diferentes das "nossas".

(imagino que pudesse vir no Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce)

3.9.08

O Grunho de Dia

José Sócrates vai longe de mais ao dirigir-se aos professores - e aqui incluo aqueles que o são, bem como os que ensinam circunstancialmente nem por isso deixando de fazer parte da mão-de-obra qualificada que rareia em Portugal - como se de um bando de bestas se tratasse.
Não tenho palavras.
Transcrevo, d'O Cachimbo de Magritte, o que diz Carlos Botelho sobre a asneira.
"Mal pude acreditar no que ouvi há pouco de José Sócrates pela tsf (sublinhado meu):
'Muitos gostariam que o Estado contratasse professores, mesmo que não precisasse deles. Pois não é essa a minha visão e o tempo da facilidade acabou! Isso está fora de causa - o Estado agora contratar sem necessidade! Eu acho que não tem o mínimo sentido essa discussão e... para quem gosta de discutir sempre as mesmas coisas no início do ano escolar, pois fique-se com essa discussão!'
'Facilidade', gritou ele. Que 'facilidade'?
Ele, se não fosse um homenzinho arrogante, saberia que, no lugar que ocupa e com a responsabilidade pública que detém, para mais falando dentro de uma Escola e tocando (desgraçadamente, com os pés) num assunto sensível, saberia que não se fala daquela maneira a e de ninguém.
Alguém devia lembrar-lhe que ele é apenas um primeiro-ministro, que não está no serviço em que está por nenhuma espécie de privilégio "ontológico", mas sim porque outros (entre estes decerto muitos "facilitados") o puseram lá com o seu voto.
Aqueles milhares a quem ele arremessou, grosseiro, a inacreditável acusação insultuosa da 'facilidade' (e sem mostrar qualquer respeito nem pelo papel educativo que têm tido, nem pela situação delicada em que agora os colocaram), esses, são licenciados. Repito: licenciados. Isto é, obtiveram sem aspas uma licenciatura sem aspas. Certamente que, esses, não teriam de se achar embaraçados em explicações(?) trapalhonas para justificar "licenciaturas" obscuramente escolhidas numa "universidade" inenarrável ganhando um "diploma" da farinha Amparo. Um "diploma" fácil."

2.9.08



Ano escolar quase a começar
Ministra diz que contratou os professores pedidos pelas escolas

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"A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, considera estarem reunidas as condições para um melhor serviço público de Educação no próximo ano lectivo, em declarações à rádio TSF.
-
Maria de Lurdes Rodrigues também falou dos protestos sindicais da Fenprof (Federação Nacional de Professores) e do desemprego dos docentes, tendo dito que as contratações agora feitas pelo Ministério respeitam as indicações dadas pelas escolas sobre as necessidades de mão-de-obra docente.
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A poucos dias da abertura de mais um ano escolar, a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues diz que o esforço do Governo tem sido compensado pelos resultados dos alunos."
-





Um
mínimo de professores para um máximo de alunos. Testes muito fáceis para os alunos obterem melhores notas. Indicações às escolas para que não contratem. Sucesso!

1.9.08



O grasso mondo di borghesi astuti
Di calcoli nudrido e di polpette,
Mondo di milionari ben pasciuti
E di bimbe civette;

O mondo di clorotiche donnine
Che vanno a messa a guardar l’amante
O mondo d’adulteri e di rapine
E di speranze infrante;

E sei tu dunque, tu, mondo bugiardo,
Che vuoi velarmi il sol de gl’ideali,
E sei tu dunque, tu, pigmeo codardo,
Che vuoi tarparmi l’ali? …

Tu strisci, io volo; tu sbadigli, io canto:
Tu menti e pungi e mordi, io ti disprezzo;
Dell’estro arride a me l’aurato incanto,
Tu t’affondi nel lezzo.

O grasso mondo d’oche e di serpenti,
Mondo vigliacco, che tu sia dannato;
Fiso lo sguardo negli astri fulgenti,
Io muovo incontro al fato;

Sitibonda di luce, inerme e sola,
Movo. _ E più tu ristai, scettico e gretto,
Più d’amor la fatidica parola
Mi prorompe nel petto! …

Va, grasso mondo, va per l’aere perso
Di prostitute e di denari in treccia;
Io, con la frusta del bollente verso,
Ti sferzo in su la faccia.

-Ada Negri

30.8.08

Pérolas da tradução

H. P. Lovecraft escreveu que uma das maiores fortunas da espécie humana é possuir uma mente incapaz de correlacionar todos os dados que os sentidos presenciam. A ser de outra forma, o destino de todos nós seria ensandecer perante a grandeza da urdidura cósmica.

Ou, como vi rabulado pelos Gato Fedorento (evocando em mim memórias vívidas dos tempos que passei a trabalhar asfixiado numa multinacional), "ó homem, se pensamos nisso ficamos malucos", aplique-se isto a qualquer raciocínio mais elaborado e responsável do que meter um totoloto à sexta-feira.

Ora a luz ao fundo do túnel, em Portugal, ilumina nada menos do que a antecâmara do oitavo inferno Dantesco; empenhada que está a inteligência das próximas cinco ou dez gerações, resta recompensar a mediocridade colorindo-a com tons dourados, num género hodierno de idolatria bovina.

"Rome" é uma co-produção HBO/BBC, bem conseguida, cujos primeiros 12 episódios pudemos ver durante estas férias. Neles encontrei, até agora, cinco evidências da mais grosseira incompetência por parte do tradutor, cujo trabalho me inspira tal preguiça que não posso imaginar que tenha mais do que 25 ou 30 anos de idade e um absoluto vácuo de cultura geral - o que foi Tebas

Ficamos a saber que "a irmandade de Miller" (dos moleiros) fez muito pão aquando da partida de César para a Grécia em perseguição a Pompeu; que o falo de Vulcão ("Vulcan's dick", ou a picha de Vulcano porque os legionários não teriam todos sido grandes eruditos no que ao uso do vernáculo concerne) era quente; ainda que havia conhecimento da Tabela Periódica de Mendeleev, já que o plutónio ("Plutonic Ether") fazia inchar cadáveres no mar, e em pleno Egipto, rodeados de esfinges e camelos, dois romanos comentavam haver ali muitos ciganos ("gippos", bom exemplo de extrapolação do calão da época para o idioma da produção, e que para o tradutor não pode significar egípcios...) e ainda outro Miller, decerto primo dos primeiros.

O tradutor é incompetente e aposto o soldo desta campanha em como teve sempre boas notas na escola e até lhe terão dado um papel onde se pode ler que é licenciado. Mas é ignorante, e pior, não tem a faculdade de interpretar correctamente o mundo que o rodeia. Que lhe paguem e ainda haja quem não dê pela fraude, é um sinal muito claro do vazio em que estamos.

13.8.08

Democracy is a process by which the people are free to choose the man who will get the blame.

- Laurence J. Peter