7.10.08

(de)FORMAÇÃO «MAGALHÃES»

por Paulo Carvalho


"Sou coordenador TIC do meu Agrupamento de Escolas e fui convocado para me deslocar ao parque tecnológico de Cantanhede para receber formação sobre o tão propalado portátil Magalhães. Lá fui eu para dois dias de trabalho, cujo programa era, em 90%, composto pela expressão « jornada de trabalho com a Intel»:

Hoje estou aqui para relatar aquilo que se passou naqueles dois dias, e se o estou a fazer, é porque algo de relevante se passou.

Pelas reacções que tinha lido nos fóruns relativamente às mesmas sessões de Porto e Lisboa, já ia a contar que aquilo não seria o que eu esperava; mas longe de mim imaginar que iria assistir a uma coisa absolutamente surreal.

Primeira nota triste do evento: a organização distribuiu «pen drives» de um Gb, oferta da Intel contendo toda a documentação. Acontece que tinham umas 100 unidades para dar a 200 pessoas. Claro que metade (incluindo eu) ficámos a ver navios, havendo dignos colegas que se assambarcaram de duas ou mais, facto que também não me causa qualquer espanto. Mas para a Organização tratou-se de mais uma normalidade!

Comecemos pela manhã de Quinta-feira, onde fomos levados, em grupos, para pequenas salas do complexo, onde supostamente nos iriam ser dadas directrizes relativamente ao Magalhães e às suas potencialidades em contexto educativo, para nós transmitirmos aos professores do 1º ciclo. Aliás, esse deveria ter sido o grande objectivo deste encontro; recebermos formação para a replicar junto das escolas envolvidas.

Ao invés disso, e para ser muito mais sucinto do que gostaria nesta crónica, somos brindados com apresentações de powerpoints em português, lidas em Inglês com sotaque russo, traduzido por senhoras contratadas para o efeito, como se nunca tivéssemos ouvido uma palavra em Inglês na vida e como se isso fosse o entrave à formação. Num parque dito tecnológico, as redes funcionavam mal ou não funcionavam, ninguém sabia ligar, o senhor russo ia ironizando como se estivesse num país de 3º mundo e a senhora tradutora ia tentando fazer a uma espécie de ponte entre surdos mudos. A seguir, mais um estrangeiro qualquer a debitar informação em inglês sobre um powerpoint em português e depois apareceu um brasileiro (ena!!! Um brasileiro!!!) mas que nada de útil nos transmitiu.

Ou seja, depois de uma manhã onde absolutamente ninguém aprendeu nada de útil sobre os Magalhães que qualquer jeitoso de informática não domine, ninguém imaginava que o pior estava para vir.

Eis que pelas 14 horas iria começar uma das melhores sessões de circo a que os meus olhos assistiram até hoje. O speaker de serviço que ostentava na lapela uma identificação de uma empresa que não conheço, mas que nem era do ME nem da Intel nem da JP Sá Couto, apresentou as três senhoras que tinham vindo expressamente dos States, com chancela da Intel, para nos brindarem com uma sessão de trabalho inolvidável. Eis que aparecem 3 senhoras com ar de quem está reformado há 20 anos, nos EUA, mas que em Portugal estariam no auge da carreira. Depois das simpatias ao país e de demonstrar que nada de útil iriam transmitir, resolveram propor aquilo que as trouxe ao, pensam elas, Burkina Fasso da Europa. Desde logo me demarquei e senti vontade de abandonar a sessão, mas os colegas… ah e tal… esquece isso… e tal…. Não te enerves… isto é sempre assim… e tal! Continuei a assistir e a incredulidade ia aumentando.

Aquelas 3 senhoras, acham que uma sessão de trabalho com a Intel é propor a 200 professores que inventem uma cantiga ao Magalhães, e se possível com teatro à mistura. Como eu e mais alguns colegas (muito poucos) mostrámos alguma estupefacção pelo que se estava a passar, uma das senhoras americanas apressou-se a dizer, bem alto e em tom ameaçador, que quem não participasse não seria incluído no sorteio de um Magalhães que iriam oferecer.

E, meus caros leitores, era ver 200 professores imbuídos naquela actividade com todo o afinco; sei que muitos grupos trabalharam online pela noite dentro e ao outro dia de manhã, os meus olhos ficaram estarrecidos com a produção apresentada. O desfile dos «trabalhos», (era assim que lhe chamavam) começou, e desde o malhão do Magalhães, até à vida de marinheiro do magalhães, passando por coreografias com adereços circenses, tudo de «útil» passou por aquele palco, até as náuseas me obrigarem a sair. Apenas voltei a entrar para ir junto da senhora que tinha o saquinho das senhas para o sorteio e dizer-lhe que não iria colocar lá o meu papelinho.

Conclusão: à bela maneira dos professores portugueses, que são exímios na arte de obedecer, mesmo não concordando, e na arte de produzir conteúdos, ainda que lúdicos (pena ter sido num contexto absurdo), toda a gente parecia achar aquilo ridículo, mas apenas eu e o meu amigo Paulo Pereira resolvemos sair e mostrar a nossa indignação a uma senhora da DREC que, educadamente, tal como eu na abordagem que lhe fiz, esgrimiu as fundamentações para aquelas «sessões de trabalho com a Intel».

Salvou-se a Microsoft e a Caixa Mágica que, na sexta à tarde, nos mostraram, finalmente, algo de útil; no final pedi a palavra para dizer que apenas aquela tarde se tinha salvo no meio das inutilidades que caracterizaram aqueles dois dias, o que, pasme-se, faz arrancar um caloroso aplauso da plateia.

Alguém me explique como se eu tivesse 8 anos, como é possível convocar 200 professores para dois dias de trabalho com a Intel, com a apresentação do «Magalhães» em pano de fundo e, basicamente, 3 senhoras americanas, apoiadas por pessoas de… uma empresa (!), gastarem um dia a obrigar-nos a produzir teatrinhos e cantigas para miúdos de 6 anos, outro meio dia gasto com russos a lerem powerpoints em pseudo inglês, escritos em Português, com tradução por senhoras contratadas.

Como professor e coordenador TIC senti-me vexado nestes dois dias. Aquelas senhoras devem pensar que somos um bando de imbecis e nunca vimos um computador na vida; tudo isto pago pela DREC, cuja Directora, no final, enalteceu o evento.

Relativamente aos meus colegas, mostraram, como sempre, que tudo são capazes de fazer, mesmo o ridículo, mas ficou, essencialmente, a prova de como não há-de o Ministério fazer de nós gato-sapato a seu bel-prazer!!!"

1.10.08

Alexandra




De Aleksander Sokurov.

Seven Brothers



John Woo - conceito

Garth Ennis - script

Jeevan Kang - arte

Alice no país dos comunicadores

No Outono de 1989 conduzi na RTP os debates entre os candidatos a Lisboa. O grande confronto foi PS/PSD. Duas candidaturas notáveis. Jorge Sampaio, secretário-geral, elevou a política autárquica em Portugal a um nível de importância sem precedentes ao declarar-se candidato quando os socialistas viviam um dos seus cíclicos períodos de lutas intestinas. O PSD escolheu Marcelo Rebelo de Sousa.

No debate da RTP confrontei-os com a fotocópia de documentos dos arquivos do executivo camarário do CDS de Nuno Abecassis. Um era o acordo entre os promotores de um enorme complexo habitacional na zona da Quinta do Lambert e a Câmara. Estipulava que a Câmara receberia como contrapartida pela cedência dos terrenos um dos prédios com os apartamentos completamento equipados. Era um edifício muito grande, seguramente vinte ou trinta apartamentos, numa zona que aos preços do mercado era (e é) valiosíssima. Outro documento tinha o rol das pessoas a quem a Câmara tinha entregue os apartamentos. Havia advogados, arquitectos, engenheiros, médicos, muitos políticos e jornalistas. Aqui aparecia o nome de personagem proeminente na altura que era chefe de redacção na RTP.

A lista discriminava os montantes irrisórios que pagavam pelo arrendamento dos apartamentos topo de gama na Quinta do Lambert. Confrontados com esta prova de ilicitude, os candidatos às autárquicas de 1989 prometeram, todos, pôr fim ao abuso. O desaparecido semanário Tal e Qual foi o único órgão de comunicação que deu seguimento à notícia. Identificou moradores, fotografou o prédio e referiu outras situações de cedência questionável de património camarário a indivíduos que não configuravam nenhum perfil de carência especial. E durante vinte anos não houve consequência desta denúncia pública.

O facto de haver jornalistas entre os beneficiários destas dádivas do poder político explica muito do apagamento da notícia nos órgãos de comunicação social, muitos deles na altura colonizados por pessoas cuja primeira credencial era um cartão de filiação partidária. Assim, o bodo aos ricos continuou pelas câmaras de Jorge Sampaio e de João Soares e, pelo que sabemos agora, pelas câmaras de outras forças partidárias. Quem tem estas casas gratuitas (é isso que elas são) é gente poderosa. Há assessores dispersos por várias forças políticas e a vários níveis do Estado, capazes de com uma palavra no momento certo construir ou destruir carreiras. Há jornalistas que com palavras adequadas favoreceram ou omitiram situações de gravidade porque isso era (é) parte da renda cobrada nos apartamentos da Quinta do Lambert e noutros lados. O silêncio foi quebrado agora que os media se multiplicaram e não é possível esconder por mais vinte anos a infâmia das sinecuras. Os prejuízos directos de décadas de venalidade política atingem muitos milhões.

Não se pode aceitar que esta comunidade de pedintes influentes se continue a acoitar no argumento de que habita as fracções de património público “legalmente”. Em essência nada distingue os extorsionistas profissionais dos bairros sociais das Quintas da Fonte dos oportunistas políticos que de suplicância em suplicância chegaram às Quintas do Lambert. São a mesma gente. Só moram em quintas diferentes. Por esse país fora.

Quote do dia

"Os manuais escolares são das publicações mais atentas às alterações no poder."

- Helena Matos

26.9.08

E quando tudo arde, tu e eu permanecemos.


E porque é grave que ninguém repare nisto,

Parabéns ao Blasfémias, e ao Gabriel.

O país está perigoso.

A propósito da ERC...

“A memória das pessoas é muito fraca. Passados seis meses já ninguém se lembra.”

- Jorge Coelho

(ex-responsável pela queda impune da ponte de Entre-os-Rios, responsável pela frase acima transcrita e também por ter dito "quem se mete com o PS, leva", um exemplo acabado de como cada povo tem o que merece)

"É urgente reforçar o peso científico dos programas. Os alunos não têm que passar mais tempo nas aulas: basta diminuir a carga, de resto muito ideológica, das áreas curriculares não disciplinares. A disciplina de Português não tem que ensinar tolerância e multiculturalismo, mas gramática e ortografia. A disciplina de Matemática não tem que ensinar a respeitar a opinião dos outros, mas que 1+1=2 (independentemente das opiniões). Só uma escola onde se ensina que 1+1=2 pode ensinar o respeito pelos outros. Porque respeita o conhecimento, respeita os alunos, respeita as famílias e respeita os contribuintes que a pagam."

- Pedro Picoito

Quote do dia

Não querendo lateralizar o importante, basta lembrar o anúncio do "Magalhães" como "Primeiro computador portátil português" (sic), se além de mentiroso o aspecto não era importante, não se percebe o seu exacerbado destaque; quanto ao rapidamente a ficar famoso "controlo parental", se é tão banal programa, menos se entende que não venha previamente instalado num computador destinado a crianças de tão tenra idade.

Até podia juntar mais um aspecto seguramente lateral, que é a existência de redes wi-fi nas salas de aula, cujos efeitos das suas ondas nas crianças se desconhecem, ou pelo menos desconhecem o suficiente para que a Cisco e outros fabricantes não assumam qualquer responsabilidade presente ou futura (nas letrinhas pequenas que acompanham os equipamentos). Noutras paragens, até se exige o desmantelamento dessas redes nas escolas (http://www.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/education/article642575.ece). Os pais, tão atentos à radiação das antenas de telemóveis (que não querem perto de escolas), parecem não saber que a radiação das redes wi-fi é muito parecida e aparentemente pode chegar a ser três vezes mais forte que a de uma antena das operadoras de telemóveis (http://news.bbc.co.uk/2/hi/technology/6676129.stm). De uma forma ou de outra, o debate existe.

Mas o principal, que me parece transparecer do que tenho lido no Abrupto, é que estando os níveis de literacia pelas ruas da amargura, os exames reduzidos a meros instrumentos estatísticos e os professores totalmente deprimidos, é se esta distribuição informática e os seus custos vão de encontro do que a escola e os alunos necessitam, ou se é meramente mais um exercício dispendioso de propaganda.

A minha opinião é que se insere numa linha de facilitismo que se desgraçadamente se instalou. É um computador atribuído sem representar qualquer tipo de esforço quer por parte dos alunos, quer por parte das famílias. De tudo o que li, ainda não percebi para que serve, de que forma se insere no programa escolar. Se é que se insere. Não percebi se será para uma disciplina específica, ou para apoio a outras disciplinas por exemplo.

- José Rui Fernandes

25.9.08

Um PM prepotente anda à chuva e molha-se...

Short

Publicado por jcd em 25 Setembro, 2008

O primeiro-ministro ficou muito indignado quando soube que existia um mecanismo chamado ’short-selling’, isto é, a possibilidade de alguém vender na bolsa aquilo que ainda não é seu. Mas se o primeiro-ministro se quer indignar com práticas correntes, não é preciso ir à bolsa. Pode indignar-se com o mercado imobiliário, por exemplo. Vejam bem que é possível comprar uma casa que ainda não foi construída. Só que não lhe chamamos short-selling. Chamamos-lhe contrato-promessa. Tanto no mercado de capitais como no mercado imobiliário, esperamos que os vendedores honrem o compromisso e tanto num mercado como noutro, se os vendedores forem à falência, os compradores terão que correr atrás do prejuízo. Outro exemplo de short-selling é a FNAC que tem por hábitos vender jogos que ainda não estão no mercado. Aqui está um exemplo.

Claro que o senhor primeiro-ministro deveria saber que corre muito mais riscos quando assina um contrato-promessa de compra e venda de uma casa que ainda está apenas no papel do que quando compra ou vende títulos a descoberto nos mercados de capitais. Mas isso são coisas muito complicadas de explicar e compreendê-las até pode tirar votos. Imagine-se o que seria dizer em público que os produtos derivados fazem falta. Que escândalo, o PM a defender a ‘economia de casino’.

Também ainda não percebi se o primeiro-ministro se indigna com os mercados de futuros. Provavelmente, se lhe explicarem para que servem tão bem como lhe explicaram o short-selling, dá dois gritos e exige medidas.

Mas o principal actor nesta história de exigir o que ainda não existe é o governo. Por exemplo, o Pagamento Especial por Conta. As empresas estão obrigadas a pagar impostos por conta de lucros que ainda não obtiveram e até podem nunca vir a obter. Sócrates devia indignar-se com isto. Devia mesmo proibir tal prática. No IVA também. O IVA é pago pela factura, muitas vezes antes de se saber se o cliente paga. Quando o cliente é o estado, o fornecedor, primeiro vende o produto, depois entrega ao estado o IVA que ainda não recebeu. Semanas, meses ou anos depois, o estado paga-lhe o produto e devolve-lhe o IVA. Podemos dizer que durante este tempo, o fornecedor ficou short no IVA e o estado ficou long no abarbatanço do dinheiro do fornecdor. Sócrates devia estar piurso com isto. Alguém que lhe explique.

24.9.08

Quote do dia

O que ontem se passou no Jornal das 13 é inacreditável: não só o governo é incompetente e demagógico, como tem ao seu dispor um bando de jornalistas nos jornais e televisão a fazer lembrar as sessões de propaganda do sr. Goebbels e do Nacional Socialismo alemão.
Senti-me idiotizado ao ver um sr. jornalista do Porto, a forçar uma criança a dizer que o "sistema do Magalhães” era mais fácil de trabalhar do que o “Windows” ou “Linux”. Só faltou uma bandeirinha na mão (talvez da União Europeia ou do PS!) e uma farda verde da União Nacional e um “S” na fivela do cinto a significar Sócrates.
- Anónimo


Arejar um bocado

NÃO ACREDITO NO QUE LI

"A Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária 2008-2015, a que a Lusa teve acesso, engloba um conjunto de medidas que vão ser tomadas até 2015 com o objectivo de diminuir de 850 para 579 o número de mortos nas estradas portuguesas e colocar Portugal nos dez primeiros países da União Europeia com menor taxa de sinistralidade rodoviária."

Então esta merda é assim? 579, porque poderiam ser 578, ou 580, mas não, a média estatística que emana da voz do dono é o critério último para a actuação...! Porra, é surreal, não escrevo mais nada (mentira) mas juro por todos os santinhos que a partir de agora não penso duas vezes antes de gamar uma laranja, afinal a média nacional é que conta.

Entretanto Bruxelas preocupa-se com assuntos sérios,

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1343796&idCanal=62

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1343770&idCanal=59

Porrada a rodos na margem sul


Jovens! Ou alegadamente jovens? “Signa inferre! Concursu! Ad pila!” (esta última não é o que parece)

Credincruz (para ser PC), vixe, unde é que isso vai pará?

Vou contratar o Warren Buffett para prever se o Arrastão vai escrever sobre “a repressão na margem sul que conduz a manifestações de liberdade neo-artística” ou sobre “como expurgar a culpa do que o meu trisavô fez ao trisavô dos grunhos de Corroios”.

1900 (III)

Nos últimos minutos bateu-me forte a ideia renovada de que o filme de Bertolucci, para muitos a sua obra-prima, retrata com lucidez e sabedoria, além de humor profundo, a natureza humana.

Senão vejamos: pegando no maniqueísmo persistente que domina o pensamento do eleitorado, só existe a esquerda, a direita e os outros, os neutros (não me refiro a partidos do "centro", e sim àqueles que escrevem sem dizer nada, faculdade proveitosa hoje em dia).

Assim há três situações possíveis para o futuro:

Um Estado entregue à esquerda, que é composta por pessoas aleivosamente humildes e bem-intencionadas (leia-se paternalistas e com duas caras consoante a brisa), caracterizar-se-à por uma total liberdade - de matar, roubar, procriar, comer, procrastinar, escrever, proibir - enfim, a habitual pluralidade que faz pautar os estados comunistas que o mundo conheceu, a troco da perda, também ela total, do conhecimento. Em poucas palavras, troca-se o intelecto pelo copo de vinho. Mas vinho bom, claro, que enólogos e chefs, a par dos tocadores de viola, é do que a malta precisa. Estudar e produzir é nos países onde há repressão.

Num Estado entregue à direita sucederia mais ou menos o inverso: a direita, sendo composta por pessoas com pouco sentido de discernimento para com realidades diversas das suas (designadamente "para baixo") rapidamente transmutaria a aldeia numa espécie de Metrópolis Fritzlangiana, mas sem a beleza cénica da obra citada. Os incapazes (o que é que fazemos aos inúteis? comemo-los?) aglomerar-se-iam fazendo o modelo social implodir, porque os mecanismos montados pura e simplesmente obrigam a gravitar em seu torno sem opção exequível, e os mais capazes rapidamente voltariam a fazer o que fazem hoje, ou seja, demitem-se do exercício da sua aldeania e procuram outros poisos.

Restaria pois apostar nos outros, nos neutros, como aquele pessoal que debita inanidades sobre matérias que desconhece em absoluto - artigos escritos por analfabetos científicos, ou se arvoram em edukadores expondo dois ou três lados da mesma questão sem dizer uma só palavra que conduza à reflexão.

Ou seja, o voto em branco é também em sociedade, e não só em política, a melhor opção.

Para quê mais vagas?

Lendo no Público de hoje que sobram vagas em vários cursos, entre eles Medicina e Arquitectura, sinto-me como perante uma folha de papel em branco. A banalidade medíocre das notícias, escritas pela rama, é o espelho do cerne acrítico que compõe hoje a massa humana em Portugal.

É pois natural que sobrem vagas: a infantiização dos alunos leva a que, num primeiro patamar, cheguem ao secundário habituados a raciocinar em termos de cores, formas geométricas, e outras alegorias próprias da puericultura. E depois, que cheguem ao superior pejados de laxismo, sem saber dividir 200 por 20 sem recorrer a uma calculadora, ou sem perceber que 2x = 45 é o mesmo que 45/2 = x (dados reais, obtidos empiricamente através de alunos que me passaram pelas mãos).

A investigação científica é hoje um pandemónio, entre bolsas da FCT que nunca mais chegam e cujo montante e regras de atribuição não permitem aos bolseiros uma vida condigna, chegando a ganhar menos em euros brutos e menos em meses por ano do que um caixa de supermercado; ademais, em 2006 havia faculdades onde, apesar de nada faltar à encrustada classe docente (são sempre os mesmos, ou seus correligionários que aturem a moléstia durante 30 anos até chegar a sua vez), chegou a faltar budget para papel higiénico.

E nada como rematar com a constatação de que uma larga maioria de licenciados pura e simplesmente não vai ter trabalho, uma vez que o sistema enferma, como sabemos, de nepotismo além da já clássica "fractalidade" que traduzida para o inglês, ficaria algo como "nobody's running the fucking show".