15.11.09

Vocábulos que desprezo

Cidadania. Urbanidade. Humanismo. Tolerância. Socialismo.
Estado de coma

por Alberto Gonçalves

A escola de hoje abdicou daquilo que a escola do meu tempo, mesmo com uma igreja em frente ainda tentava: ensinar



Era de esperar. Num ápice, a história sobre uma rede de corrupção que se estende da sucata às altas instâncias perdeu relevo perante o debate dos labirintos jurídicos que permitem ou, aparentemente, não permitem escutas telefónicas a conversas em que o primeiro-ministro participe. Há sempre um pormenor chato qualquer a perturbar a investigação e, claro, a eventual condenação das manobras mais extravagantes perpetradas pela classe política. É assim na tal "Face Oculta", foi assim na nacionalização (de facto) do BCP, na partidarização da CGD, na lendária Fundação para a Prevenção e Segurança e note-se que só vamos em "A", de Armando Vara. Muitas letras se seguem, nenhum processo do género, quando por descuido se instaura um processo, seguiu para lá do rebuliço público inicial. É demasiado azar.

Um azar determinado pela eventual coincidência entre os que fazem e aplicam as leis e os que delas beneficiam. Por regra, cada "caso" murcha graças à soberana, assaz soberana, necessidade de se defender uma coisa chamada "Estado de direito", o qual, curiosamente, vai desaparecendo em proporção directa ao zelo com que é defendido. O "Estado de direito", conceito em teoria louvável, vem sendo adaptado na prática às conveniências dos que mandam nele, ou seja, na prática a impressão é a de que a manha e a trapaça se apossaram de tudo, ou de quase tudo, o que não é o mesmo mas, em matéria de falência do regime, é igual.

Embora o mérito não pertença exclusivamente ao eng. Sócrates ou ao PS, eis a maior e mais autêntica reforma "socrática" e socialista: aqui há anos, achava-se espantoso que tantos portugueses não acreditassem na Justiça; hoje, o que espanta é ainda haver alguém que acredite. E, segundo demorada consulta a analistas televisivos, artigos de opinião, blogues e caixas de comentários dos "sites" informativos, há.

Ou talvez haja. Temos de excluir das contas os que fingem confiar no sistema somente porque estão no poder, vivem das migalhas do poder ou aspiram a uma das opções anteriores. Falo dos cidadãos que, sincera e desinteressadamente, crêem no "bom funcionamento das instituições". Não os censuro, antes curvo-me em admiração e pergunto-lhes: como conseguem? De onde lhes vem o optimismo com que declararam "aguardar que a Justiça faça o seu caminho" quando a experiência sugere que, em certo tipo de processos, esse caminho aponta, invariavelmente, ao arquivo morto? O que os torna indiferentes à impunidade dos que, por dever dos cargos, estariam teoricamente sujeitos a superior escrutínio? Em suma, a que se deve a sua cegueira? Juro que quero saber: dadas as circunstâncias, não ver nada é uma virtude fundamental para se suportar o estado, não o de direito mas aquele a que isto chegou.


É muito engraçado. Nada funciona na nossa justiça. Tudo demora séculos. Mas a destruição destas escutas está a ser feita à velocidade do TGV japonês. Sócrates tem sempre azar ao ser vítima de cabalas, e depois tem sempre sorte na rapidez com que sai delas. Um génio do acaso, este Dr. Sócrates.

A face desnuda

Um homem andava desconfiado que a mulher lhe era infiel. Um dia, não aguentando mais, decidiu contratar um detective. O detective começa a seguir a mulher. Passados vários dias o detective apresenta ao homem várias fotografias. A primeira fotografia mostra a mulher a encontrar-se com outro homem num café. A segunda mostra a mulher com esse outro homem a entrar num carro. A terceira mostra-os num bar. A quarta mostra-os a entrar num quarto de motel. A quinta mostra-os juntos dentro do quarto de Motel. A sexta fotografia está totalmente preta.

- “O que aconteceu a esta foto? Está preta porquê? O que aconteceu a seguir?”, pergunta o homem ao detective.

- “Apagaram a luz”, diz o detective.

- “Merda! Fica sempre aquela dúvida …”, conclui o homem.

31.10.09

Top 10 hard'n'heavy (I)

Top 10 hard'n'heavy (II)


Top 10 hard'n'heavy (III)

Top 10 hard'n'heavy (IV)

Top 10 hard'n'heavy (V)

Top 10 hard'n'heavy (VI)

Top 10 hard'n'heavy (VII)

Top 10 hard'n'heavy (VIII)

Top 10 hard'n'heavy (IX)

Top 10 hard'n'heavy (X)

14.10.09

Reason obeys itself; and ignorance submits to whatever is dictated to it

Ouço dizer que há um sol inclemente agora, que não devia haver dias de trinta e cinco graus tão tarde em Outubro. Não há quem escreva direito quando se ouviu, durante instantes intermináveis, uma mãe carpir o filho, que também não devia haver filhos a descer à terra antes dos pais, sobretudo à beira dum Outono que nem folhas caídas deverá ter. E isto dá-me vontade de mandar à real merda quem julgue saber, sequer de raspão, em que país vivemos.

No retrato a quente, cheio de verdes fora do sítio e de poeira e de moscas perenes e de estações trocadas, no país onde eu vivo, há pessoas que morrem triplamente assassinadas.

Primeiro, morrem por terem nascido com nada mais do que uma ténue verosimilhança de poderem, um dia, alcançar uma vida estável na terra onde sorveram as primeiras golfadas de ar. Tem culpa quem achou e continua a achar que habitamos uma região civilizada do globo.

A seguir, morrem esquecidas e deixadas à sua sorte pelo mesmo Estado que alimentam e que faz ponto de honra em extorquir-lhes (dir-se-ia que nisso se comprazem) toda a água, sal e ureia que os corpos puderem gerar. Já vi dois sogros, um tio e indirectamente mais meia dúzia de casos partirem sem regresso, muito antes da sua hora, por culpa, repito, culpa no sentido formal, ético, jurídico e deontológico do termo, do Estado português. A negligência, a estupidez e o fardo das décadas fazem com que haja aí, à solta, uma besta maior que todos nós e que nos leva aqueles a quem amamos, só e apenas porque alguns de nós ainda crêem que as coisas podem funcionar como é esperado.

E por fim morrem aguardando, implodidos, sucumbindo ao próprio peso, numa espécie de hino débil e retorcido à condição humana, agravados pela miserável e abjecta circunstância sob a qual insistem, ano após duro ano, em deixar bater o coração. Num hospital, num ficheiro qualquer, na estrada, no quarto sombrio e calado.

Então, nesta terra, a um dia de semana em que trinta e cinco graus e folhas verdes desmentiam Outubro e ainda voavam moscas, teve de haver outro enterro, onde sabem que mais, estava cheio de gente, e cheirava a resignação, e a pó, e a sujo e a vinho e a cansaço e a despojo e havia um odor dentro do odor e nas veias e nas calças gastas de quem já não trabalha e por isso pode ir a funerais em dias úteis, nesses tecidos havia muito pouca coisa que eu tivesse visto que me fizesse mudar de ideias quanto à verdadeira lástima que se tornou este país onde ainda vivemos.

The inmates are running the asylum (II)

Via Cocanha:

«O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes de coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!

Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos - porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com o seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos - de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regimen a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.

A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis da família, a lei da separação da Igreja e do Estado - todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.

A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa - concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) - os escândalos financeiros da monarquia.

A monarquia, desagregando a Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da monarquia, estava ela, a monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a república, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla.

É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em admninistração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o sr. Afonso Costa.

O sociólogo pode reconhecer que a vinda da república teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas cousas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma cousa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
E o regimen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados mentais, nos serve de bandeira nacional - trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português - o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito natural, devem alimentar-se.

Este regimen é uma conspurcação espiritual. A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a república veio a ser.»

- Fernando Pessoa, "Da República"

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