14.2.10

Tudo o que é de ouro reluz

Por aversão à desventura vivida nas horas transactas, fez-se questão de averbar, desta vez, um ponto certo na coluna das vitórias.

Chegados ao Fundão ao virar da décima-terceira hora, demos com o restaurante O Alambique de Ouro, pertença do Hotel Alambique - cuja existência mereceu recente upgrade com a aposição de uma quarta estrela junto ao nome - repleto de convivas compondo a sala por forma a aguçar ainda mais os apetites que rememoravam as visitas anteriormente aqui feitas.

Nesta casa o standard de serviço é tal, e hoje não foi caso para manchar a estatística, que por maior afluência nunca um pedido é esquecido, adulterado, deixado ao correr do azar. Antes que um vampiro pudesse cheirar-nos o sangue quente a afluir ao palato, compareceram sobre a mesa: ovos verdes, três unidades isentas, sequinhas, bem fritas e passíveis de consumo sem peias colesterofóbicas; xerovia (cenoura branca) frita e salada de grão com bacalhau, com séquito de pão estaladiço e oloroso, degustados ao longo da primeira garrafa da tarde, um Esteva da mesma colheita requerida aquando da crónica anterior, mas de todo dali demarcada por ter sido, desta feita, servida à temperatura correcta e nem menos um grau. Marcharam ainda uma pasta de atum pouco oleosa portanto sápida ao milímetro, e pratinho de enchidos regionais de fazer inveja a um fauno dos mais inveterados.

Por provar mas ainda assim aprovados sob a vista e o olfacto ficaram os queijinhos frescos, bonitos e rígidos qb, que viveram para contar outro conto só e apenas por uma crise repentina de pudores dietéticos sobrevinda do nada.

Ao recair da Esteva comeram-se bochechas de porco macias, capazes de adular um faquir centenário, ladeadas por migas, batata frita em rodelas perfeitas, grelos, salada de tomate com orégãos (respire o leitor até sentir-se seguro) e feijão branco inchadinho de tão cuidadamente estufado. Apareceu, para quem estava sob restrições calóricas, o cabrito selvagem no churrasco (o chefe de sala, sempre alerta e vigilante, ainda havia sugerido mandar vir o chibo estufado para não desperdiçar os sucos) com arroz de feijão caldosíssimo.

Por esta altura nem sombra de memória já havia dos desaires da véspera. O staff deste Alambique, enquanto ciranda carreando para as mesas tanta arroba de satisfação, é um carrossel magnífico de vislumbrar, as faces repletas de competência e atenção.

A carta dos doces ainda veio mas faltou-nos a coragem para ir além do dito da casa. Sofre-se de alguma parcimónia, como de resto sucede em 98% da restauração em Portugal, é por não haver maltes condignos para o remate de tão avassaladora incursão pelo sonho de Epicuro. Ainda assim, o que havia bastou.

Relação qualidade/preço a tender para o infinito, sem vazios assimptóticos - quisera eu rapidamente obter o brevet de helicóptero para aqui poder pulular vezes sem conta.

13.2.10

Dêem-lhes formação...


Até 2007, ao chegarmos a Castelo Branco após travessia da A23 - que hoje pode ser feita, salvo aluimentos ou outro epifenómeno que mereça um alerta colorido por parte do SNPC - podia saborear-se uma bela refeição tradicional, a custo convivial, no restaurante Frei Papinhas. Podia, mas desde então que se deixou de poder. A aventura começa quando os nossos heróis acabam de sentar-se.

Ao início da tarde, a sala encontra-se vazia; apenas se apresentam o gerente e duas senhoras, uma bandeira do Brasil e outra de Portugal, além do mobiliário essencial.

A carta é sintética: picanha, bacalhau, e mais dois ou três pratos sem raridade nem interesse científico. Carta de vinhos exígua, composta por elementos, sem excepção, medianos.

Primeira pergunta: estes 7,50 escritos à mão junto à descrição do bacalhau são meia-dose? Resposta que devia ter logo feito acender todas as luzes de aviso: não não, só há doses completas.
Bom, então que sejam dois bacalhaus assados, uma costeleta de novilho, uma garrafa de Esteva tinto, e legumes cozidos...

Enquanto esperávamos pelo vinho, o gerente, um senhor brasileiro aparentando cerca de 50 anos, sugere que provemos a morcela. Mal anuímos, torna-se evidente que as oito rodelas do enchido vieram para a mesa geladas, num estado de entropia próprio do fim dos tempos.Mandamos para trás e eis que regressa aquecida a golpes de microondas.

Aterram ainda umas rodelas de salsicha brasileira com bacon frito, que hoje recordamos como o único ponto simpático em toda a nossa história.

Chega o Esteva, que é provado (na ausência do serviçal, que tinha ido tratar de outros assuntos) a cerca de 14º. Fazendo uso da palavra, informamos que o vinho está pouco cálido, demasiado frio. Retorque o nosso interlocutor, para grande assombro da mesa, que se o quisermos fresco, gelado, também se arranja. Dizemos que não, que o problema é exactamente o oposto. A perplexidade da pessoa é patente na forma como balbucia "mas ninguém nunca se queixou disso antes"...

Imaginamos logo de seguida que, sem dúvida, teremos vindo parar a um antro da mais vulgar mediocridade, já que, feitos os reparos ao bacalhau semi-esturricado e ao naco de gordura organizada na vertical e que nem no Uganda passaria por uma costeleta, a resposta foi a mesma: nunca ninguém se queixou antes, "os senhores não são de cá...?"

Next. As batatas fritas estão cruas por dentro. Informamos que aquele tipo de fritura deve ser feita sem que o óleo esteja demasiado quente nem as batatas semi-congeladas, por forma a evitar aquele efeito. É como informar um ónagro sobre as leis de Kepler. Idem para a quantidade das batatas a murro: quatro batatinhas do tamanho de um dedal, para duas doses de bacalhau. Mas isto enfim, poderia passar por maneirismo, nos dias em que há gente a comer uma lasca de pescada com meio bróculo, quiçá em espuma ou em suspensão coloidal, e a tornar ao seio de suas casas cheia de gáudio por lhes ter sido dada tão opípara chance.

Os cafés foram para trás duas vezes, por virem queimados. Explicámos os rudimentos que são do nosso conhecimento, sobre máquinas de café, moagem, pressão, e demais engenharia retro-balconiana. A senhora que tirava os cafés, que era oriunda de uma eslavónia qualquer, apressou-se logo a reportar que não era dali, só tinha ido fazer umas horas. Nós percebemos.

Da conversa final ficou-nos a dúvida entre o maior de dois medos: se ninguém se queixa, que espécie de povo é que anda, ciclicamente, a sufragar os destinos dos nossos filhos, elegendo os seus representantes com o mesmo apuro com que almoça farelo da pior espécie, a preço de vitela macia? Por outro lado, se havendo quem se queixe, estivermos ainda assim entregues, porque o mercado assim o dite ou por desistência dos melhores candidatos, a curandeiros que abrem um restaurante como quem compra um carro, o que dirá isso de "nós" enquanto merecedores de melhor sorte?

11.2.10

Espero que amanhã se faça História

Freedom, as every schoolboy knows,
Once shrieked as Kosciusko fell;
On every wind, indeed, that blows
I hear her yell.

She screams whenever monarchs meet,
And parliaments as well,
To bind the chains about her feet
And toll her knell.

And when the sovereign people cast
The votes they cannot spell,
Upon the pestilential blast
Her clamors swell.

For all to whom the power's given
To sway or to compel,
Among themselves apportion Heaven
And give her Hell.

- Ambrose Bierce

If ye love wealth better than liberty, the tranquility of servitude better than the animating contest of freedom – go home from us in peace. We ask not your counsels or your arms. Crouch down and lick the hands which feed you. May your chains set lightly upon you, and may posterity forget that you were our countrymen.

-Samuel Adams, 1 de Agosto de 1776, Philadelphia

E que, de caminho, caia igualmente a Câncio e o Pedro Lomba se fique a rir, com garbo e até lhe faltar o ar :)

"Por razões óbvias, nunca me fiz de herói do que quer que seja. Nunca me perseguiram e nunca me condicionaram. Só não gostaram de uma coisa que escrevi e atiraram-me para rua. Precisamente por isso, quem sabia muito pouco sobre as circunstâncias em que a minha saída do diário económico se processou, mas ainda assim comentou o assunto com ligeireza, alimentando o que ouviram ou que lhe contaram, andou a pregar uma filha-da-putice e a propagar uma mentira. Deixo uma sugestão: não se abandalhem, nem abandalhem a inteligência dos outros. Até ao fim, mantenham a calma. A Fernanda Câncio está em denial. Vê o mundozinho dela em que podia e pôde fazer e desfazer personalidades pública a ruir, com estrondo e lodo. Arriscou a reputação na cobertura de um governo sinistro e desespera com a desonra e ostracismo que se aproxima. Infelizmente já ninguém a pode salvar."

10.2.10

Nunca deites abaixo uma vedação sem saber a razão porque ela foi lá posta.

-G. K. Chesterton

3.2.10

Mário Crespo: "O primeiro-ministro a falar alto é intimidante"

por Patrícia Silva Alves, Publicado em 03 de Fevereiro de 2010

...Não, de modo nenhum. Eu não faço isto ad hominem. Estou a reagir ao que foi articulado por um detentor de um cargo. A única coisa que me interessa aqui é o José Sócrates primeiro-ministro, o que ele faz, o que motiva, o que ele desmotiva... o que ele planeia em respeito ao meu país.

Então é uma reacção..?

É uma perfeita reacção. Só estou a agir pró-activamente a uma situação que me parece muito anómala. E a maneira como fui referenciado é muito anómala. Eu até devo dizer que agradeço o que tenho despertado nos media, mas o centro da discussão não sou eu, nem o que eu fiz. O centro da discussão é aquilo que o José Sócrates disse. Essa é a única zona que me interessa. Agora a outra coisa que me começou a interessar foi o acto do "Jornal de Notícias"de censurar um cronista dos mais seniores que eles têm...

Diz que está a reagir pró-activamente. Vai dar mais algum passo em frente?

Farei uma queixa à ERC. Fá-la-ei nas próximas horas.

E em termos judiciais?

Nunca pensei em abordar a questão, movendo uma acção ao Sócrates por aquilo que ele disse. Não pensei fazer isso. Acho que dentro da área em que eu opero tenho mecanismos formais - a ERC, o sindicato, as organizações internacionais - que protegem jornalistas.

Vai fazer queixa junto dessas entidades?

Ai vou, vou.

Esta declaração de hoje, em que diz que as declarações de Sócrates visavam também Medina Carreira, foi feita perante jornalistas e com o símbolo do CDS atrás. Quer trazer os políticos e os partidos para esta discussão?

Não. Quero consciencializar e divulgar com consistência aquilo que aconteceu. E quero sensibilizar o país político também. Agora não cairia no ridículo de vir aqui e não falar sobre uma questão nacional, de interesse nacional. Portanto senti-me no dever, outra vez, de retratar claramente para os meus anfitriões, a minha versão.

Falou com Paulo Portas antes de discursar?

Não falei com ele. Mas sabia que ele respeitaria. Ele foi jornalista, está dentro da liturgia dos jornais, de como uma pessoa se sente dentro de um jornal.

É que estas declarações sendo feitas numa altura em que membros do governo se ameaçam demitir...

Quem é que está a ameaçar demitir-se?

Teixeira dos Santos. E Sócrates já teria também ameaçado demitir-se...

Então há esperança.

Como disse há pouco durante a sua intervenção a declaração de José Sócrates envolvia também Medina Carreira...

Em determinada fase envolvia os dois nomes.

Dois problemas que precisavam de ser solucionados?

Sim, presumo que sim.

E porque razão também Medina Carreira era um problema a solucionar?

Não faço ideia nenhuma. Agora é procurar obter uma resposta - se ele a der - a Sócrates, porque razão eu e o Medina Carreira somos problemas.

E não falou em mais ninguém?

Do relato que eu tenho não. E como disse tenho três relatos.

Havia uma terceira pessoa na mesa de Nuno Santos...?

Sim, havia uma terceira pessoa.

E também faz parte da televisão?

Não vou mais longe. No meio disto tudo a parte que eu acho importante é o primeiro-ministro. O Nuno Santos, a primeira vez que disse o nome dele foi hoje porque me disseram que se sabia...

Nuno Santos confirmou ao i que estava no restaurante com Bárbara Guimarães...

É extraordinário. Nunca pensei que ele dissesse o nome da Bárbara. Acho que são pessoas que não têm de ser trazidas ao conhecimento de todos. Eu nunca diria o nome da Bárbara por exemplo... Porque não é necessário.

Ficou triste com a reacção de Nuno Santos?

Fiquei. Acho que eu na mesma situação - eu meço sempre pelo que eu faria, por isso é que fiz uma pausa antes de responder. Eu na mesma situação teria reagido. Quero pensar que reagiria: "Olhe que eu conheço o homem, ele não é maluco nenhum. Não é impreparado nenhum. Isso agora também é subjectivo e certamente não necessita de solução rigorosamente nenhuma".

E confrontou Nuno Santos?

Logo, com o primeiro relato que tive. Logo, mal recebi o email, reencaminhei-o para o Nuno Santos e pedi-lhe uma explicação.

E a explicação que Nuno Santos lhe deu não foi suficiente para não o apontar na crónica?

Falei com ele para justificar o que aconteceu - e ele não justificou o que aconteceu. Consubstancia o que aconteceu.

Por isso é que também decidiu integrar o nome dele na crónica?

Era importante que ele tivesse reagido nas responsabilidades de que está investido [como director de programas da SIC]. É uma fragilidade, mas poderá ter sido de momento. O primeiro-ministro a falar alto é uma figura intimidante. Para quem é intimidável.

Acha que foi por acaso esta conversa ter sido no dia da apresentação do Orçamento do Estado?

O que eu achei extraordinário é que o dia do Orçamento do Estado é um dia importante. E eu gostaria de pensar que as pessoas que assumem as responsabilidade de gerir o país estão inteiramente focadas nisso. Não admito que no dia em que o orçamento está a ser retocado tenha tempo para pensar em banalidades. E a maneira como um articulista escreve, ou um analista como o Medina Carreira se comporta, é um assunto lateral. Não tem de estar na mente do primeiro-ministro.

E o que diz isso do primeiro-ministro?

Tem um conjunto de prioridades curiosas, inadequadas que para mim não estão correctas. Para mim como cidadão e como intérprete da nossa vida pública.

Há medo no jornalismo de hoje?

A resposta que a comunidade jornalística tem dado a este assunto é encorajadora de que não há inibição em retratá-lo e os editores consideram-no um episódio importante.

Mas, no dia-a-dia, quando o jornalismo se mistura com os interesses? Falou do caso de Manuela Moura Guedes...

Esse caso é, na minha opinião, o caso mais grave da história da imprensa desde o 25 de Abril. Não há dúvida nenhuma de que é uma situação séria. A maneira como transfiguraram a redacção da TVI é séria. Até digo mais, é séria a própria reacção da TVI... a maneira como foi desmembrado um programa que em termos comerciais era um sucesso. Era visto. Agora o que não é aceitável é que venham dizer que a pessoa está doida, precisa de ser internada num manicómio. É curioso... o Estaline fez isso! Portanto isto são mecanismos um bocado orgânicos e interpretações de poder um bocado questionáveis - e é isso que me preocupa essencialmente.

1.2.10

O Diário de Notícias é o único jornal que não menciona a censura sobre Mário Crespo. Uma vez mais, fica bem claro que nas mãos dos outros, tudo são instrumentos de opressão e autocracia; nas "nossas", é a vontade altruísta de servir o interesse colectivo. É a náusea.

Leitura recomendada

Discurso de Sir Winston Churchill, "The Sinews of Peace", agora que novos tiranetes e a extrema-esquerda, a reboque dos neo-grunhos socialistas, ameaçam outra vez o mundo civilizado.

O Fim da Linha

Mário Crespo

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”. É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre. Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicacado hoje (1/2/2010) na imprensa.

29.1.10

Atrás da cortina de ferro (I)


Publicado por JoaoMiranda em 29 Janeiro, 2010 no Blasfémias

No mundo ideal de Sócrates, o problema do rating resolvia-se assim:

1. Um telefonema de Sócrates para a RTP e seria marcado um Prós&Contras sobre o assunto. De um lado um representante do Bloco e outro do PCP que defenderiam a posição “é necessário criar vias alternativas ao capitalismo”. Do outro Pedro Adão e Silva, Ana Gomes e Perez Metelo defenderiam a tese “É necessário criar uma agência de rating pública”. Na terceira parte, um representante das agências de rating seria chamado a responder à pergunta: “As agências de rating falharam em 2008. Como se atrevem agora a criticar os governos?”. As agências de rating seriam arrasadas.

2. O ministro das finanças apareceria a atacar as agências de rating. As agências de rating seriam arrasadas. (espera, isso foi o que ele fez …)

3. Constâncio apareceria a prever um crescimento de 4% para 2011 e a dizer que os cenários das agências de rating não têm ponta por onde se lhe pegue. Constâncio aproveitaria para prever o défice de 2012 com precisão até à centésima. As agências de rating seriam arrasadas.

4. Depois de um telefonema para o amigo Joaquim, o DN publicaria um relatório da inspecção do trabalho lançando suspeitas sobre as práticas laborais das agências de rating. As agências de rating seriam arrasadas.

5. Vital Moreira escreveria um artigo a demonstrar a inconstitucionalidade das agências de rating. As agências de rating seriam arrasadas.

6. Após um Eixo do Mal inteiramente dedicado às agências de rating, a respectiva reputação fica de rastos. As agências de rating seriam arrasadas.

7. Um telefone a Armando Vara e o BCP apareceria a comprar dívida portuguesa e a recomendá-la aos seus clientes. Em alternativa, Vara arranjaria forma de comprar as agências de rating e de lhes substituir a direcção. As agências de rating seriam arrasadas.

Clever Sillies II - um exemplo prático

Já aqui referi o post de Bruce Charlton sobre o modus operandi de pessoas que embora dotadas de intelecto possante, raramente conseguem descodificar eficazmente situações nas quais uma leitura pragmática e conciliadora é essencial. Às vezes dir-se-ia até que fazem de propósito, só para não perder a face ou ceder a taça, e isso é que já é mais complicado.

Um exemplo completamente imaginário, sob a forma de diálogo:

- Hoje fizeste montes de barulho com o secador*, eram sete da manhã.
- Teve que ser, não me parece pior que ter o rádio ligado a essa mesma hora.
- AH, bom, se isso é assim tão horrível para ti, devias ter dito antes.
- Por não o ser é que não disse nada...
- ÉS MESMO DISSIMULADO, queres distorcer tudo à tua maneira.
- Eu? Mas quem se queixou foste tu. Por mim tanto uma coisa como outra são suportáveis.
- Claro, eu é que estou errada.
- Se quiseres vê-lo assim. Não alimento irracionalidades.

Fico na dúvida, e é isso que detesto, se isto será genuinamente incapacidade, ou uma aleivosia.


*substituir ad lib por "ias muito depressa", "mudaste de faixa bruscamente", "repreendeste mal os putos", "não podes dizer isto sem levar em conta aquilo" ou qualquer outro motivo parvo.


27.1.10

Criaturas infelizmente extintas - I


The principle that the majority have a right to rule the minority, practically resolves all government into a mere contest between two bodies of men, as to which of them shall be masters, and which of them slaves; a contest, that -- however bloody -- can, in the nature of things, never be finally closed, so long as man refuses to be a slave.

And the men who loan money to governments, so called, for the purpose of enabling the latter to rob, enslave, and murder their people, are among the greatest villains that the world has ever seen. And they as much deserve to be hunted and killed (if they cannot otherwise be got rid of) as any slave traders, robbers, or pirates that ever lived.

The Rothschilds, and that class of money-lenders of whom they are the representatives and agents - men who never think of lending a shilling to their next-door neighbors, for purposes of honest industry, unless upon the most ample security, and at the highest rate of interest - stand ready, at all times, to lend money in unlimited amounts to those robbers and murderers, who call themselves governments, to be expended in shooting down those who do not submit quietly to being robbed and enslaved.

And the so-called sovereigns, in these different governments, are simply the heads, or chiefs, of different bands of robbers and murderers.

A government that can at pleasure accuse, shoot, and hang men, as traitors, for the one general offence of refusing to surrender themselves and their property unreservedly to its arbitrary will, can practice any and all special and particular oppressions it pleases. The result -- and a natural one -- has been that we have had governments, State and national, devoted to nearly every grade and species of crime that governments have ever practised upon their victims; and these crimes have culminated in a war that has cost a million of lives; a war carried on, upon one side, for chattel slavery, and on the other for political slavery; upon neither for liberty, justice, or truth. And these crimes have been committed, and this war waged, by men, and the descendants of men, who, less than a hundred years ago, said that all men were equal, and could owe neither service to individuals, nor allegiance to governments, except with their own consent.

If our fathers, in 1776, had acknowledged the principle that a majority had the right to rule the minority, we should never have become a nation; for they were in a small minority, as compared with those who claimed the right to rule over them.

In truth, in the case of individuals, their actual voting is not to be taken as proof of consent, even for the time being. On the contrary, it is to be considered that, without his consent having ever been asked, a man finds himself environed by a government that he cannot resist; a government that forces him to pay money, render service, and forego the exercise of many of his natural rights, under peril of weighty punishments. He sees, too, that other men practise this tyranny over him by the use of the ballot. He sees further that, if he will but use the ballot himself, he has some chance of relieving himself from this tyranny of others, by subjecting them to his own. In short, he finds himself, without his consent, so situated that, if he use the ballot, he may become a master; if he does not use it, he must become a slave. And he has no other alternative than these two. In self-defence, he attempts the former. His case is analogous to that of a man who has been forced into battle, where he must either kill others, or be killed himself. Because, to save his own life in battle, a man attempts to take the lives of his opponents, it is not to be inferred that the battle is one of his own choosing. Neither in contests with the ballot -- which is a mere substitute for a bullet -- because, as his only chance of self-preservation, a man uses a ballot, is it to be inferred that the contest is one into which he voluntarily entered; that he voluntarily set up all his own natural rights, as a stake against those of others, to be lost or won by the mere power of numbers. On the contrary, it is to be considered that, in an exigency, into which he had been forced by others, and in which no other means of self-defence offered, he, as a matter of necessity, used the only one that was left to him.

A man is none the less a slave because he is allowed to choose a new master once in a term of years.

No attempt or pretence, that was ever carried into practical operation amongst civilized men -- unless possibly the pretence of a “Divine Right,” on the part of some, to govern and enslave others -- embodied so much of shameless absurdity, falsehood, impudence, robbery, usurpation, tyranny, and villany of every kind, as the attempt or pretence of establishing a government by consent, and getting the actual consent of only so many as may be necessary to keep the rest in subjection by force. Such a government is a mere conspiracy of the strong against the weak. It no more rests on consent than does the worst government on earth.

The strong are always free by virtue of their superior strength. So long as government is a mere contest as to which of two parties shall rule the other, the weaker must always succumb. And whether the contest be carried on with ballots or bullets, the principle is the same; for under the theory of government now prevailing, the ballot either signifies a bullet, or it signifies nothing. And no one can consistently use a ballot, unless he intends to use a bullet, if the latter should be needed to insure submission to the former.

Vices are not crimes.

Our constitutions purport to be established by 'the people,' and, in theory, 'all the people' consent to such government as the constitutions authorize. But this consent of 'the people' exists only in theory. It has no existence in fact. Government is in reality established by the few; and these few assume the consent of all the rest, without any such consent being actually given.

But this theory of our government is wholly different from the practical fact. The fact is that the government, like a highwayman, says to a man: 'Your money, or your life.' And many, if not most, taxes are paid under the compulsion of that threat. The government does not, indeed, waylay a man in a lonely place, spring upon him from the roadside, and, holding a pistol to his head, proceed to rifle his pockets. But the robbery is none the less a robbery on that account; and it is far more dastardly and shameful. The highwayman takes solely upon himself the responsibility, danger, and crime of his own act. He does not pretend that he has any rightful claim to your money, or that he intends to use it for your own benefit. He does not pretend to be anything but a robber. He has not acquired impudence enough to profess to be merely a 'protector,' and that he takes men's money against their will, merely to enable him to 'protect' those infatuated travellers, who feel perfectly able to protect themselves, or do not appreciate his peculiar system of protection. He is too sensible a man to make such professions as these. Furthermore, having taken your money, he leaves you, as you wish him to do. He does not persist in following you on the road, against your will; assuming to be your rightful 'sovereign,' on account of the 'protection' he affords you. He does not keep 'protecting' you, by commanding you to bow down and serve him; by requiring you to do this, and forbidding you to do that; by robbing you of more money as often as he finds it for his interest or pleasure to do so; and by branding you as a rebel, a traitor, and an enemy to your country, and shooting you down without mercy, if you dispute his authority, or resist his demands. He is too much of a gentleman to be guilty of such impostures, and insults, and villanies as these. In short, he does not, in addition to robbing you, attempt to make you either his dupe or his slave.

The ostensible supporters of the Constitution, like the ostensible supporters of most other governments, are made up of three classes, viz.: 1. Knaves, a numerous and active class, who see in the government an instrument which they can use for their own aggrandizement or wealth. 2. Dupes—a large class, no doubt—each of whom, because he is allowed one voice out of millions in deciding what he may do with his own person and his own property, and because he is permitted to have the same voice in robbing, enslaving, and murdering others, that others have in robbing, enslaving, and murdering himself, is stupid enough to imagine that he is a “free man,” a “sovereign”; that this is “a free government”; “a government of equal rights,” “the best government on earth,” and such like absurdities. 3. A class who have some appreciation of the evils of government, but either do not see how to get rid of them, or do not choose to so far sacrifice their private interests as to give themselves seriously and earnestly to the work of making a change.

The 'nations,' as they are called, with whom our pretended ambassadors, secretaries, presidents, and senators profess to make treaties, are as much myths as our own. On general principles of law and reason, there are no such 'nations.' ... Our pretended treaties, then, being made with no legitimate or bona fide nations, or representatives of nations, and being made, on our part, by persons who have no legitimate authority to act for us, have intrinsically no more validity than a pretended treaty made by the Man in the Moon with the king of the Pleiades.

24.1.10

La haine

Que causas, longe das convulsões atávicas motivadas por diferenças ideológicas, preconceito ou falhas de comunicação, conduzem ao ódio entre pessoas - individuais ou colectivas - entre as quais previamente não exista qualquer relacionamento? Porque é que uns parecem ver noutros um alvo a abater, chegando a extremos de exibir, a despudor, double-standards que invocam sob uma capa de altruísmo ou rectidão?

É humano, e bem intelectualizável, que a intolerância favoreça perseguições recorrentes; religiosos/ateus, gays/hetero, esquerda/direita, hutus/tutsis são exemplos de pares ordenados nesta álgebra da estupidez. Mas ainda que recorramos à totalidade taxonómica das idiossincrasias "clássicas", continuam a sobrar peças.

Porque é que há famílias e casais, interiormente a cuja vivência emocional tudo funciona - do companheirismo à carne, das ideias ao conforto perante os medos do quotidiano - e grupos de amigos ou colegas, onde a coexistência e até a entreajuda deveriam servir de cimento, mas onde, contudo, cedo ou tarde há sempre uma exígua minoria - por vezes de um só elemento - que se torna passível de "receber um peixe num jornal", como n´O Padrinho de Mario Puzo?

Parecem-me identificáveis pelo menos três situações em que tal pode suceder:

- a "ovelha negra" evidencia uma independência de carácter, consubstanciada pela inexistência de carências socio-psicológicas; não tem "need to belong", nem complexos de culpa por ser feliz/bem sucedido, nem tão pouco necessidades prementes de ser útil a quem quer que seja a não ser a quem bem decidir sê-lo de sua livre vontade. Tais entidades são de imediato marcadas para abate, com raiva e revolta, por servirem de espelho a quem muitas vezes gostaria de compartilhar das especificações técnicas que aqui evidenciei. O mote, assim, seria aqui "odeio-te porque não tens as minhas fraquezas, então vou denegrir as tuas forças".

- pode ser, ainda, que o "alvo" sendo de facto uma pessoa justa e equilibrada, opte por não exercer esta forma de estar até ao sacrifício, e somente algumas vezes pelas mesmas normas éticas da maioria; também neste caso, semelhantemente ao que ocorre quando os animais na savana farejam a diferença num da matilha e o afastam com dentes e garras, a humanidade que temos vem enquadrar como "patológicas" as dissonâncias de conduta preconizadas por aquele ou aqueles a quem pareça irracional a submissão a certos códigos deontológicos tidos como superiormente válidos.

- por último, hoje acontece, pelo menos no mundo ocidental onde as preocupações, após a primeira metade do séc. XX, deixaram de versar essencialmente sobre a obtenção de segurança física para se inclinarem sobre questões mais etéreas, que existe uma espécie de "ditadura do racional", bem desmontada aqui pelo psiquiatra Bruce Charlton, por força da qual ocorre uma repressão de tratos evolutivos favoráveis adquiridos ao longo do tempo, como a intuição, o senso comum e a inteligência emocional, por parte de uma intelligentsia cujos membros fazem por conduzir a sua vida por estradas onde principalmente arquétipos, e raramente o pragmatismo, servem para decidir.

Daqui floresce então muito ódio, na medida em que é de todo impossível a quem estiver de fora dos círculos kosher (escrevo-o sem conotações rácicas, atenção) evitar o ostracismo, num mundo onde cada vez mais pensar contra a corrente é tido como uma perigosa subversão. Em suma as pessoas odeiam outras pessoas para não se odiarem a si mesmas.


Ainda brota quem quer bem

Bem vindo seja mais um blogue objectivista.


21.1.10

Momento alto...

...à espera que o pavio arda: entrevista de Cantiga Esteves a Mário Crespo, hoje na SIC-N. O Estado Social Europeu enquanto maior fraude da História.

10.12.09

Stultum est timere quod vitare non potes


Em menos de um mês morreram o Jorge Ferreira e a Elisabete Dias. O Jorge tinha 48 anos, e a Elise, 32.


Li ambos com deleite, troquei palavras e sons mais com um do que com outro, qualquer deles deu justíssimo sentido às definições de Humanidade pelas quais alinho.


Não compreendo, e talvez aqui jaza a semente da compreensão, porque é que devemos nascer sabendo sempre que um dia a conta será saldada. Mais valeria que ainda habitássemos as árvores, os planaltos.

De resto, quando isto me bater a sério, não auguro nada de bom para o ar em meu redor.

9.12.09

Citação do dia

“…Listen, what’s the most horrible experience you can imagine? To me-it’s being left, unarmed, in a sealed cell with a drooling beast of prey or a maniac who’s had some disease that’s eaten his brain out. You’d have nothing then but your voice-your voice and your thought. You’d scream to that creature why it should not touch you, you’d have the most eloquent words, the unanswearable words, you’d become the vessel of the absolute truth. And you’d see living eyes watching you and you’d know that the thing can’t hear you, that it can’t be reached, not reached, not in any way, yet it’s breathing and moving there before you with a purpose of it’s own. That’s horror. Well, that’s what’s hanging over the world, prowling somewhere through mankind, that same thing, something closed, mindless, utterly wanton, but something with an aim and a cunning of it’s own. I don’t think I’m a coward, but I’m afraid of it. And that’s all I know-only that it exists. I don’t know its purpose, I don’t know its nature.”

Steven Mallory em Atlas Shrugged de Ayn Rand

3.12.09

Go, sit upon the lofty hill,
And turn your eyes around,
Where waving woods and waters wild
Do hymn an autumn sound.
The summer sun is faint on them --
The summer flowers depart --
Sit still -- as all transform'd to stone,
Except your musing heart.

How there you sat in summer-time,
May yet be in your mind;
And how you heard the green woods sing
Beneath the freshening wind.
Though the same wind now blows around,
You would its blast recall;
For every breath that stirs the trees,
Doth cause a leaf to fall.

Oh! like that wind, is all the mirth
That flesh and dust impart:
We cannot bear its visitings,
When change is on the heart.
Gay words and jests may make us smile,
When Sorrow is asleep;
But other things must make us smile,
When Sorrow bids us weep!

The dearest hands that clasp our hands, --
Their presence may be o'er;
The dearest voice that meets our ear,
That tone may come no more!
Youth fades; and then, the joys of youth,
Which once refresh'd our mind,
Shall come -- as, on those sighing woods,
The chilling autumn wind.

Hear not the wind -- view not the woods;
Look out o'er vale and hill-
In spring, the sky encircled them --
The sky is round them still.
Come autumn's scathe -- come winter's cold --
Come change -- and human fate!
Whatever prospect Heaven doth bound,
Can ne'er be desolate.

- Elizabeth Barrett Browning