20.7.14

O correto uso do papel higiênico
João Ubaldo Ribeiro

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente.

 Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3,28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel.

E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de TV. Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar. Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo.

E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros.

Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

15.6.14

*

I wonder by my troth, what thou and I
Did, till we loved ? were we not weaned till then?
But sucked on country pleasures, childishly?
Or snorted we in the Seven Sleepers' den?
'Twas so ; but this, all pleasures fancies be;
If ever any beauty I did see,
Which I desired, and got, 'twas but a dream of thee.

And now good-morrow to our waking souls,
Which watch not one another out of fear;
For love all love of other sights controls,
And makes one little room an everywhere.
Let sea-discoverers to new worlds have gone;
Let maps to other, worlds on worlds have shown;
Let us possess one world ; each hath one, and is one.

My face in thine eye, thine in mine appears,
And true plain hearts do in the faces rest;
Where can we find two better hemispheres
Without sharp north, without declining west ?
Whatever dies, was not mixed equally;
If our two loves be one, or thou and I
Love so alike that none can slacken, none can die.

- John Donne


Congratulations to Nuno and Seguin, may God bless all of your days .
agora que estou a apanhar pinhoes e a carpir como uma madalena azeda, lembro-me de ti quando eras capaz de amanhar a hortinha e de martelar, com o teu martelinho, os nossos pinhoes mas nao de vires ter comigo para saber porque estava eu triste, fechado em mim ou sem vontade de tocar-te. quanto teria custado olhares para a nossa vida sem o dogma (ou o orgulho) de pressupores que a culpa ou o erro estariam fora de ti - ou daquilo que de ti dependia - e quao facil teria sido a reconciliacao definitiva, um encontro no mesmo reduto de tranquilidade e de entreajuda que nos viu apaixonar de maos dadas e com elas carregar as caixas, os livros, os banquinhos e os percalços dos anos todos em que acreditámos que seria para sempre? eu queria tanto ser velho e novo contigo. e gosto tanto de ti. nao quero esquecer-te nunca, prefiro fingir ao longo de toda a vida pelo caminho que me for mais paliativo, até alguém dar comigo já engelhadinho ao sorrir, quieto, deitado na cama com o desenho de nós dois a sorrir, tambem de maos dadas, que o xxxx fez um dia, e que ainda mantenho, exposto e bem limpinho sem pós nem bolores - bem apertado nas minhas maos já hirtas, mortas, finalmente vencidas, sobre o peito onde o meu coração te guarda e para sempre ira guardar faças tu o que fizeres.

23.3.14

in time of daffodils(who know
the goal of living is to grow)
forgetting why,remember how
in time of lilacs who proclaim
the aim of waking is to dream,
remember so(forgetting seem)

in time of roses(who amaze
our now and here with paradise)
forgetting if,remember yes

in time of all sweet things beyond
whatever mind may comprehend,
remember seek(forgetting find)

and in a mystery to be
(when time from time shall set us free)
forgetting me,remember me

-e. e. cummings

7.1.14

The Kiss

She pressed her lips to mind.
—a typo

How many years I must have yearned
for someone’s lips against mind.
Pheromones, newly born, were floating
between us. There was hardly any air.

She kissed me again, reaching that place
that sends messages to toes and fingertips,
then all the way to something like home.
Some music was playing on its own.

Nothing like a woman who knows
to kiss the right thing at the right time,
then kisses the things she’s missed.
How had I ever settled for less?

I was thinking this is intelligence,
this is the wisest tongue
since the Oracle got into a Greek’s ear,
speaking sense. It’s the Good,

defining itself. I was out of my mind.
She was in. We married as soon as we could.

- Stephen Dunn
I JUST HAVE TO GET THROUGH THIS

Summer stayed no longer than a sparrow.
Medication is passed over a trembling lip.
The postcard arrives one day too late.
A man notes he’ll get an Asian hooker if
he’s dying, maybe if he isn’t. A spider
in the woodpile ends up in the fire.
One beggar spits in the air at another.
The field of sunflowers holds on as long
as it can, but dies before the gentle old lady
passes on the train. Babies are placed
in planes and carried to cars. A good man
is murdered in his house. They leave
his body, pass his son on the lawn, reach
out to ruffle his hair, and he watches them go.

For some reason we all wait for something.

- Alex Boyd

10.11.13

Words Wide Night

Somewhere on the other side of this wide night
and the distance between us, I am thinking of you.
The room is turning slowly away from the moon.

This is pleasurable. Or shall I cross that out and say
it is sad? In one of the tenses I singing
an impossible song of desire that you cannot hear.

La lala la. See? I close my eyes and imagine the dark hills I would have to cross
to reach you. For I am in love with you

and this is what it is like or what it is like in words.

- Carol Ann Duffy

3.11.13

Morning Song

This is life's silent hour,
sunny and blessed,
laughing white in power-conscious peace.
The rejoicing and the songs fell silent,
for Joy overflowed the shores.
Hail to you, Joy, Joy,
in your silent, vainglorious smile!
You alone can plumb
the secret of the worlds.

O bubbles, bubbles, o foam, foam
are all our care, all our grief,
yes foam on measureless expanses,
bubbles on the ocean
is that which we chase and cherish and fear,
but Joy, Joy is the world's foundation.

How do I dare…? And yet!
Do you think that life's flower,
carved a thousand times by suffering.
would continue in darkest darkness
to shine in beauty in spite of everything,
were not its root and heart
heavy, yes, brimful of bliss?

O bubbles, bubbles, o foam, foam
is all our pain, our blind grief.
Joy alone knows more than others.
Yes, in its holy white hours
rests in the leaves' quivering daylight
the reflection of godlike depths,
smiling, smiling.

Like tidal waves, like thunderclouds
day's care will soon envelop me.
Let me remember in tears and greyness,
that clarity's blinding moment
forced me to say to life and death,
to the whole world and even to myself:
'Amen, amen,
happen, then!'

-Karin Boye


Para ti que vens de escudo em riste e cujo flanco a minha espada vigia.

27.9.13

renascer

esta noite em claro é para ti
branca como cada folha vazia
ou ainda igual a este regresso
ao arquear do teu sono a mão

apaga a luz e é por ti que desliza
na pele sem temor de futuros
incertos nem morte
nunca um planeta ardeu tão alto

há velas na noite e elas conduzem
àquele espaço azul entre as nuvens
o segredo por entre os acordes
do teu cabelo murmura o nome da rosa

com quantos braços deve um homem
adormecer no luar dos teus olhos
com quantas vitórias sorrir
com quanta destreza te amar.

12.9.13

You who balk at the smell of salt on every meal.
You who will not have that third glass of wine.
You who never ate anything that did not come from a shelf.
You who read the mainstream media to justify your gutless days.
You who sell your grandchildren's future for a dime and another day.
You who know precious little yet jeer at those who know different.
You whose notions of safety and freedom would make a neanderthal drop dead with multiple stomach ulcers from laughing so hard.
You who deny the broader meaning of life, yet claim that I do not live.
You who hide in plain view accusing others of hiding under a bed.
You fucks, how can you mistake preparation for fear?

6.9.13

Conquest of the Garden

The crow that flew over us and sank-
in the confusion of a vagabond cloud;
The crow that swiftly crossed-
the extent of the sphere-
like a short arrow-
will tell about us-

in the town.

Everybody knows.
Everybody knows that you and I, 
looked through the oblique crack of the wall-
and saw The Garden.

Everybody knows.
Everybody knows that you and I,
reached for the trembling branch of The Tree-
and picked the apple.

Everybody is scared.
Everybody is scared but you and I,
together joined lights, mirrors and water-
and feared never.

For you and I,
it is not about a frail union of two names-
in the aged pages of a registrar notebook.
It is about my fortunate locks-
and the burning stroke of your kiss.

For you and I,
it is about the imminence of our skins-
in the sacred wellspring of lightly streams,
swiftly sliding -
over the waterfalls and the hills.

And, it is about the fountain’s songs-
its fleeting flight, its short, silvery life.
You and I, in the core of a darkened night,
in the fluid freshness of forests,
on the peak of shielding mounts,
and in a freezing fearful sea-
asked young, golden eagles-
what we ought to do.

Everybody knows.
Everybody knows that we pierced-
into the silent dream of Phoenix.

Everybody knows.
Everybody knows that you and I,
In the prairies and the plains-
reached to the glittering roots-
of Truth.

Everybody knows.
Now, everybody knows that you and I,
in an endless instant,
conquered the entirety of Eternity.

For you and I,
It is not about a shaking whisper in the dark.
It is about Day and its invading spark.
It is about a breeze over the fertile side.
It is about birth, evolution and pride.
It is about burning every futile piece-
in the garnet core of the flames.
And it is about our hands-
that contrived a bridge, concrete and bright,
over the tear of night.

Come to the turf! Come to the turf-
and call my name! Call my name-
with a choral of white lilies-
like a gazelle who calls his mate.

The shades of dusk-
are floating in their veiled sorrow.
And doves, from the windows of their white tower-
are looking at Earth.

Come to the turf!

- Forough Farrokhzad
Translation: Maryam Dilmaghani, May 2006.

24.8.13

entre noites de natal fodidas tropeçamos de mãos, amiga dadas como abraços a medo para fingir cobardia, uma dor mais forte e involuntariamente sincera que arde a quatro olhos deve ser isso mesmo a coincidência que é preciso negar o vinho, a força natural das flores que falecem em data certa o teu espectro no outro lado da cama, o pão com dois dias, uma ode aos suicidas que escolheram o método mais longo.

14.7.13

Eu não queria vir a Guimarães. Vimara Peres, ou mesmo o Pero da terra dita, não me diziam nada no beco duodeno-jejuno final de uma semana que se revelara galharda e pródiga no bem-estar almejado fora do quadrado pátrio.

Foi contudo o meu filho, a quem há quase tantos anos como ele tem de vida, eu devia estas férias, que escrutinou o burgo onde havíamos de vir calhar na tarde hodierna. Aterro na praça central e vejo uma esplanada burilada com gente mista, tatuados à mistura com betos, crinas roxas pelo vale meão de camisas alvas. Um caldo, senhores.

Mas ouço Alice in Chains e a moçoila que carrega as copas tem um ar giro, salubre, esperto e bem posto. Sento-me e obrigo o pós-púbere a seguir-me na senda.

Três Carlsberg e uns amendoins depois, sei que a terraça se chama El Rock Bar, e que ali perdura há dezasseis anos, proeza em que supera o meu ido Conspiração Café-Bar em cerca de quinze anos e quatro meses. Os cilindros de cevada descrevem evoluções húmidas por entre as mesas, e a rapariga é conversadora sem dar-se ares de mais nada.

Explico ao meu filho que não deve assumir que uma pessoa, ao meter conversa com outra que é vinte anos mais nova, estará a fazê-lo por motivos de engate (pese embora a possibilidade, não probabilidade que assim seja) caso contrário, perante interlocutor sabido, fica logo a braços com um argumento vazio sob pena de servir para acusar qualquer octogenário de assédio, ao pedir lume ou perguntar as horas a quem passa pelo banco do jardim.

No hotel haviam recomendado, como poiso para o pasto, o Histórico, no Largo João Franco, alvitre corroborado pela noviça rockeira, ora Paty. Não há fome mas há vontade de comer.

Vamos então na peugada do pórtico por onde se lhe adentra ao tabernáculo proposto. Conversamos sobre as indústrias, que as há, mais do agrado e interesse que ao meu outrora petiz, à idade com que eu da dependência paterna já nem podia ou queria ouvir falar, mais aprazem. Ganhei perspectiva e sempre aquiesci a romper a dieta.

Comecei, no meu ego e naquele momento, a traduzir-lhe a proporcionalidade inversa entre o tempo que resta e a importância cedida a merdinhas relativizáveis como se a gaja pensou que eu era tarado, quatro quilos a mais, ou cinquenta euros a menos. Quis com isto prover-lhe a que galgasse mais um degrau nessa suma exibição de força, a supressão do ego sem que no entanto abdiquemos, por dentro ou no cerne, dos princípios directores que nos deixam subsistir, justamente, à conta de um Eu imacerável.

Entretanto quis Taránis, que como todos sabem martela o céu por cima das nossas cabeças, mandar chover e ribombar; todos, a começar pelos franceses que se haviam dirigido a todos e cada um dos restantes convivas, em várias línguas, inquirindo da sapidez e teor mineral dos pratos em marcha, recolheram em debandada para as mesas situadas a coberto da intempérie.

Eu não.

Por razão alguma, porque um cavalheiro não se molha quando chove, porque às senhoras, em última análise, cabe reparar na placidez que destrinça, hora limite, o gentil-homem do banal burguês, mas acima de tudo, estratosfericamente além de toda e qualquer outra razão, motivo ou agenda, porque eu havia dito, e por ser verdade teria de agi-lo, que a supressão do ego (eu não gosto que me chova em cima; mas perco mais se parecer um tonto em fuga do que se me caírem três gotas no vertex) está, em situações sociais às quais devemos atender, furos para lá da instantânea satisfação que ao ego, ainda que seja como o é para mim o primário motor do meu mundo, devemos conceder à medida que a derradeira hora se aproxima.

Eu penso que ele irá digerir a lição, que o meu cuidado e subtileza em limar cada precipitação ou encolher de ombros com um matraquear paciente de sinonímia emocional para as razões exclusivamente intelectuais dos meus actos, dará tudo em fruto temporão e ainda no meu tempo de saborear o penúltimo soçobrar dos galhos.

É evidente que a Paty não quer saber de entradotes tatuados que trazem num poro mais bandas, filmes, livros e amores à falésia em Agosto do que toda a canalha Vimaranense, alargada de orelha ou de mais forma inserida, saberia invocar mesmo limpa do catéter cereálico.

Mas também isso faz parte de ir-se por nuestra puta vida aceitando mistérios novos e rejeitando epitáfios antecipados. E por isso mesmo pedi a aguardente para rematar o jantar, e passei pelo El Rock entre os pingos da chuva só para ver que som de lá vinha.

11.7.13

Rivotril (Clonazepam), dia quarenta e três

when the dreams finally came back
fallen asleep in some different city
having dined with different people
of a different air under different weather

turning and cowering at the break of day
unlike before, you were not about to leave
unlike before, there was noone lurking in wait
at the kitchen door, waiting to carry your bags

but waking up to a foreign, different future
differently grey, differently daunting now
you were to stay forever behind, in my reverie
and unlike before no longer asleep at my side

asturias
11.VII.2013

2.7.13

#560

Oh day of fire and sun,
Pure as a naked flame,
Blue sea, blue sky and dun
Sands where he spoke my name;
 Laughter and hearts so high
That the spirit flew off free,
Lifting into the sky
Diving into the sea;
 Oh day of fire and sun
Like a crystal burning,
Slow days go one by one,
But you have no returning.

 -Sara Teasdale

30.6.13

Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
 em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam segredos
que eram lentas madrugadas, promessas imperfeitas,
murmuradas enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido, sem as quereres,
mas só porque eram elas que traziam a calma das estrelas
 à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
 que morreram, que em ti já não existem —
que são minhas, só minhas, pois persistem na memória
que arrasto pelas ruas.

- Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”

5.6.13

Contos do Baralho de Cartas (1)

Certos gajos não conseguem perpetuar a vida sem ter alguém, e o mesmo alguém, na cama todas as noites. Pode ser outro alguém novo, ou até um alguém que vá sendo vários alguéns de ano para ano, mas certos gajos fenecem e acabam por deixar a mesa de jogo quando não têm alguém na casa, que é onde fica a cama, todas as noites. Um dia ouve-se o Tim Booth cantar as pastagens azuis pela enésima vez e o poema certo ocorre, trocando uma porta por outra. As diferenças, então, residirão naquilo em que sempre residiram: na elegância e no método.

26.5.13

Hipotética Epístola do Adeus

Tu,

Não sei porque me dou ao trabalho de escrever-te.

Nestes anos fomos do puro Céu ao viperino Inferno. Tu não dominas o teu feitio. Eu sinto que não me mereces. Tu esperas do alto das tuas certezas que o caminho te seja dado de bandeja, com os caminhantes laudando-te os passos com vénias. Tiveste-os e assim os esbanjaste, a todos sem excepção.

Onde havia o desejo e a paixão que me fizeste sentir, salvando-me, ou a ambos, de um destino igualmente mau mas precoce, eu impossibilitado pelos abusos que fui engolindo deixei crescer o carinho, o afecto, a protectividade, a promessa eterna de que os meus dias seriam teus.

Não te bastou, como nunca te basta, porque a razão para que nunca peças desculpa é, naturalmente, que só pedes quando achas que deves pedir.

Não há volta a dar, nesta nossa última fase eu esperava de ti o que nunca foste capaz de edificar comigo ou com qualquer outra pessoa: a humildade de perceber que o tempo nos leva avanço, que nos dias - quentes ou frios - ter alguém que um dia escolhemos e que se dispõe a finar-se ao nosso lado de peito cheio por ver, na derradeira hora, o rosto amado, isso é impagável.

Não se retribui com arremessos escarninhos meia década de verdadeiro sacrifício em nome dos teus desígnios juvenis e malabaristas. É de mau tom.

Apesar de tudo, quando saíste ainda diria a quem me perguntasse: sim, claro que a amo. Depois de ouvir na tua voz, hoje, o que ouvi, não poderia sequer pensá-lo.

Mas gosto muito de ti, apesar de saberes tão bem como eu que nos pratos da Grande Balança o lote dos estragos causados a todos é da tua quase exclusiva responsabilidade. Não tive forças para apascentar o teu carácter recalcado e controlador. Quis ser aquilo com que sonhavas, e tornei-me uma sombra daquilo com que sonhei.

Só te quero Bem. De uma forma muito especial poderás sempre contar comigo, ainda que possas pretender estraçalhar-me em nome dessa ilusão de independência e de juventude que te persegue desde aquele ano do qual nem tu, nem eu, nada percebemos.

Um beijinho sincero de boa noite e de boa sorte. Tentei prover ao teu contento. Quiseste outra forma de felicidade. Não nos sentaremos juntos no banquinho que trouxemos, juntos com os nossos braços, quando a pele se enrugar, e já ninguém, filhos diletos da nossa erosão ou queridos amigos que nos dizem aquilo que queremos ouvir, vier contar-nos pela enésima vez a história do homem que foi atropelado em frente ao quiosque.

Mas eu, que em ti só procurei sorrisos, sentar-me-ei nele como se estivesses ali, sempre e para sempre, como no dia em que o trouxemos.

24.8.12


Best Society

When I was a child, I thought,
Casually, that solitude
Never needed to be sought.
Something everybody had,
Like nakedness, it lay at hand,
Not specially right or specially wrong,
A plentiful and obvious thing
Not at all hard to understand.

Then, after twenty, it became
At once more difficult to get
And more desired - though all the same
More undesirable; for what
You are alone has, to achieve
The rank of fact, to be expressed
In terms of others, or it's just
A compensating make-believe.

Much better stay in company!
To love you must have someone else,
Giving requires a legatee,
Good neighbours need whole parishfuls
Of folk to do it on - in short,
Our virtues are all social; if,
Deprived of solitude, you chafe,
It's clear you're not the virtuous sort.

Viciously, then, I lock my door.
The gas-fire breathes. The wind outside
Ushers in evening rain. Once more
Uncontradicting solitude
Supports me on its giant palm;
And like a sea-anemone
Or simple snail, there cautiously
Unfolds, emerges, what I am.
- Philip Larkin

17.5.12


The destruction of Sennacherib


The Assyrian came down like the wolf on the fold,
And his cohorts were gleaming in purple and gold;
And the sheen of their spears was like stars on the sea,
When the blue wave rolls nightly on deep Galilee.

Like the leaves of the forest when Summer is green,
That host with their banners at sunset were seen:
Like the leaves of the forest when Autumn hath blown,
That host on the morrow lay withered and strown.

For the Angel of Death spread his wings on the blast,
And breathed in the face of the foe as he passed;
And the eyes of the sleepers waxed deadly and chill,
And their hearts but once heaved, and for ever grew still!

And there lay the steed with his nostril all wide,
But through it there rolled not the breath of his pride;
And the foam of his gasping lay white on the turf,
And cold as the spray of the rock-beating surf.

And there lay the rider distorted and pale,
With the dew on his brow, and the rust on his mail:
And the tents were all silent, the banners alone,
The lances unlifted, the trumpet unblown.

And the widows of Ashur are loud in their wail,
And the idols are broke in the temple of Baal;
And the might of the Gentile, unsmote by the sword,
Hath melted like snow in the glance of the Lord!
 

- Lord Byron