20.9.14

Quando o amor morrer

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços,
A Deus e aos sonhos que gelaram.

-Ruy Cinatti

4.9.14

Exercício de contenção

Que bela ideia, vou procurar um novo desafio enquanto escultor social. 

Reificar um palco etereo sobre granito ou granitico sobre eter. Em Guimarães talvez. 

Mas queres ver q o vinho nao chega? AI CARALHO O SOLO, granda malha.

Devia haver um subsidio de nao-loucura. Tipo ou me pagas ou enlouqueço, ou me pagas ou dou em arabe.
Carnifex levou uma asa e a pele toda do frango na boca para o covil dos jovens.

É isso, vou fazer um video em q decapito um fiscal, meto.lhe uma etiqueta. Run to the hills!!
"Eu era fiscal e o meu ministerio abandonou.me" e agora só tenho esta merda de tshirt. 

Antes das cinco nao engorda.

Tem de ter legendas mas por tras ha um gajo a falar em kazakh sobre desporto, a malta mete o corao e ala e o crl e as virgens que chutam na penumbra do pasto.

Choose a sticker or emoticon.

20.7.14



António Araújo no Malomil.






Apátrida – O que é a pátria de cada um?, de Isabel Moreira, é um livro que prolonga e aprofunda temáticas obsessivas, quase fetichistas, e tópicos discursivos que caracterizam desde há muito a obra desta autora. Além dos sucessos de vendas Correspondência Comercial e A Excelência no Atendimento, até agora Isabel Moreira publicara três livros: o solitárioPessoas só, seguido do palavroso Quando uma palavra não basta(«candidato ao prémio Saramago») e depois 160 páginas de Ansiedade. Este é o quarto.




Segundo a nota biográfica constante desta sua nova obra, Isabel Alves Moreira nasceu há já 37 anos e, de momento, possui o grau académico «admitida a doutoramento» na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É deputada e advogada por conta própria, tendo várias publicações técnicas na área do Direito Constitucional. A sua restante obra ficcional caracteriza-se pela «indefinição de género», refere a nota biográfica.








Ao utilizar o conceito de apatridia como tema/mote deste novo livro, Isabel Moreira convoca a um tempo a sua formação de jusconstitucionalista de projecção nacional e a sua trajectória íntima também de projecção nacional. Apátrida, na verdade, é indissociável de um périplo de vida marcado pelo sofrimento da distância em face da pátria de origem. A autora nasceu no país-irmão (o Brasil), a 2 de Abril de 1976 e, de acordo com a sua biografia divulgada na página oficial do Parlamento, concluiu com aproveitamento o 1º, o 2º e o 3º ciclos, o ensino secundário, a licenciatura em Direito e o mestrado em Direito Constitucional, na vertente de Direitos Fundamentais. A experiência do exílio, ademais motivado pela marca de brasa de um regime tirânico, governado por elites opressoras e moralmente corruptas, adensa a carga − ou descarga − autobiográfica da obra, convertendo este livro, texto indefinível, também em testemunho cívico e grito de rebeldia contra todas as formas de ditadura.





Isabel de Lima Mayer Alves Moreira transporta consigo a convicçãohippy chic de que ser escritor é escrever palavras, mesmo que com erros de ortografia. Articulando a literatura da abjecção e a tentativa frustrada de se configurar como escritora maldita, a autora explora as margens, levando esse absoluto desbordamento muito para lá de todas as fronteiras, sobretudo as do bom senso. Numa escrita de/em vertigem, em pulsão dilacerada e, acima de tudo, dilacerante (para os leitores), o livro insere-se muito bem, todo ele, no perímetro da imbecilidade literária e aí permanece quietinho, indecifrável e ofegante. Através de muitas palavras, agrupadas de forma deliberadamente desconexa, o projecto perturbante e petulante de Isabel Moreira, raiando o suicidário, fá-la mergulhar, com seus demónios privados e de estimação (por ex., «o demónio do asfalto» − pág. 27), nos abismos de uma insanidade que se suspeita teatralizada. Situa-se na margem, ou na encenação desta. Em todo o caso, é sempre a partir do centro, e do seu conforto, que a autora se projecta para a margem.Apátrida apresenta-se, pois, como uma convenção ficcionada em estilo abdominal, que a Wook entrega ao domicílio dos leitores por uns razoáveis € 10,98, mais portes de envio.





O ponto de chegada deste vórtice vocabular é a margem, a periferia da sanidade, mas, insiste-se, a sua raiz é o centro, um lugar cómodo, bem servido de transportes de toda a espécie. Isabel Moreira procura-se e acha-se no centro, por razões familiares involuntárias (origens na alta burguesia lisboeta; pai ministro de Salazar), mas também por uma demanda que, de forma radicalmente certeira, intui sempre a melhor via da sua própria intervenção (carreira académica convencional, ainda que abruptamente terminada em 2009; grupo parlamentar do Partido Socialista). Há um sagaz oportunismo na escolha destes territórios significantes e é essa subtilíssima estratégia retórica, mas também imagética, que permite à autora direccionar-se e posicionar-se para as margens – e ultrapassá-las para lá do limiar da inteligibilidade (pág. 35: «o gajo não sabe um cu do que se passa»). O centro constitui assim o ponto ou orifício («um buraco diferente» − pág. 25) de irradiação de uma marginalidade que, na representação da narradora/poeta/constitucionalista, se configura como impositiva e compulsória, até traquina. Mais ou menos como as crianças que dizem «xixi» e «cocó» e julgam ter feito uma grande malandrice, sufocando o riso por temor à palmadita iminente. Em troca, recebem apenas um calduço ligeiro e condescendente, enquanto os adultos em seu redor sorriem com bonomia, sussurrando entre si que o petiz até já vocaliza bem os dissílabos. Em Apátrida, a pauta é escabrosa, mas conformista e previsível. A autora, coitadita, esbraceja alguns substantivos e mesmo advérbios, na vã tentativa de ser «profunda» e escrever «literatura». Porém, não alcança mais do que o confessionalismo típico de um diário íntimo de uma adolescente de Telheiras. Julga-se provocatória, mas, no fundo, cumpre à risca as injunções do tipo de escrita que artificialmente cultiva. Crê-se rebelde, quando, na realidade, é obediente e betinha, fazendo a trote ou a galope tudo aquilo que dela se espera. Aliás, daqui não se espera muito. Apátrida é tão original e surpreendente como uma marquise de alumínio.





O campo semântico desta hemorragia emocional encontra-se logo definido na página 33, onde o autoritarismo é metonimicamente denunciado através da transnomição onomatopaica «chiiiiiiiiiiiiiiiiiiu» (pág. 33, prorrogado no «cala as minhas esplanadas» da pág. 51, e no ritmado «clique, clique, clique» da pág. 47). Apátrida assume-se como obra de continuidade, mas também de ruptura e em ruptura, numa incessante busca homicida, presente no projecto assassino de «matar o bailado dos qualificativos» (pág. 11). Melhor dizendo, Apátrida foi construída, por um empreiteiro de Alverca, em permanente disforia e completa transgressão de todos os cânones. No jornal Público/Ípsilon, de 30.05.2014, Maria da Conceição Caleiro caracterizou Apátrida como «um belo e doloroso livro, de recepção quase física», conferindo-lhe justissimamente a pontuação astrológica de quatro estrelas e um cometa («um livro surpreendente e dos mais interessantes que se publicaram em Portugal nos últimos tempos»). Na verdade, o texto é alvo de uma recepção física, a que de imediato se segue a regurgitação, também física e biliar («vou vomitar» − pág. 40; «o meu umbigo vomitado numa noite aterradora» − pág. 32; «talvez nesse dia ausente tenha / entrado em sua casa e amparasse / o vómito» − pág. 40; «esmurra o vomitado nas casas de banho» − pág. 34). Notamos, a espaços, o eco de uma certa pecuária do desalento.




Trata-se, inquestionavelmente, de uma obra de abordagem dorida, mesmo penosa, um cálculo renal literário. Maria da Conceição Caleiro concluiu a sua recensão interrogando-se sobre o ponto-chave, a questão crucial: «É quase indecidível se o não-alinhamento à direita do texto é intencional ou descuido editorial».




O problema do não-alinhamento à direita do texto afigura-se, de facto, absolutamente nuclear para compreendermos a economia narrativa deste Apátrida, quer enquanto livro-objecto, quer na dimensão de objecto-livro. A teoria do descuido editorialista encontra-se refém dos seus próprios postulados. Ao invés, a tese intencionalista tem apoio no percurso público da autora, que vem confirmando uma postura política, mas sobretudo ética, de rejeição estridente do alinhamento à direita, em confronto furioso, mas nem sempre coerente, com o fascismo das consciências e dos afectos, outrora presente em instituições sinistras como a PIDE ou o campo de concentração do Chão Bom do Tarrafal (reaberto por portaria ministerial de 17 de Junho de 1961).





É também nesse contexto transgressor da «ordem» que deve ser situada a existência de erros de ortografia, que Maria da Conceição Caleiro atribui a uma deficiência de revisão editorial («talvez se justificasse uma revisão que eliminasse os erros de ortografia»). É certo que o livro diz «externo» em lugar de «esterno» e «gim» em vez de «gin», mas tudo isto, entre pecadilhos do mesmo calibre, decorre da intenção de subverter a norma, instaurando, em seu lugar, uma gramática alternativa e caótica, mais próxima da autenticidade demencial da vida, de uma existência atravessada em cambiantes de tal forma sofridos e pavorosos que não se coadunam com as mais elementares regras de escrita.





As razões dos erros ortográficos de Apátrida, ao invés de serem atribuídas a um desleixo do pobre revisor tipográfico, como sustenta Maria da Conceição Caleiro, deverão buscar-se, porventura, quer nas deficiências da formação básica da autora, processada em retrógrados colégios de freiras, quer à sua proposta transgressiva de desconstrução de todas as convenções burguesas. Já a indesculpável ausência, também apontada por Maria da Conceição Caleiro, de «uma folhinha final antes da capa», encontra explicação plausível no actual contexto de crise económico-financeira e do PAEFF mas também, ousamos dizê-lo, ao propósito implícito de assinalar que esta é uma obra sempre inacabada, eterna e internamente aberta a todas as recepções que, como se referiu, são dominantemente físicas e, nesse âmbito, eminentemente corpóreas. A abertura e a recepção, físicas e corpóreas, são totais e vorazmente carnívoras, ávidas da plenitude dos sentidos, num experimentalismo sucessivo, às vezes múltiplo, e sempre infindo. Enquanto houver portugueses…




Se, como assinala a ex-ministra e pianista Gabriela Canavilhas na contracapa do livro, «Isabel Moreira não pára de surpreender», é também um facto que existe uma linha de continuidade temática e estilística, substantiva e formal, numa obra vulcânica, sulfurosa, que surge caracterizada por uma cadência torrencial de palavras, aluvião semântico de frases despojadas de sentido que obrigam o leitor a reencontrar-se, mesmo que a muito esforço e sem sucesso algum, com uma textura linguística impermeável à compreensão. Nesse sentido, Apátrida é também uma obra de resistência (talvez melhor, de re-sistência ou mesmo de re-sis-tência), que apela à desistência (de-sistência) do leitor, impedindo, de forma militante e raivosa, a descoberta de um qualquer sentido no arrazoado de caracteres que Isabel Moreira despejou às noites sobre um écran em branco.




O corpo e as suas excrescências regulares são centrais neste universo efervescente de delírio condoído e moído, patente logo na página 8, e na referência dela constante a um «estrume de dor». Estrume de dor constitui-se como metáfora e síntese perfeitas destas 104 páginas, impressas na Bloco Gráfico, Lda. (à Maia).





Menos apreensíveis, porque remetendo para um âmbito mais íntimo ainda que exposto sem pudores nem tabus, se afiguram alusões de tipo confessional, tais como: «estou peganhenta» (pág. 12), «fumei três ganzas e bebi uma garrafa de vinho tinto» (pág. 38), «fui a um bar e comi coisas verdes» (pág. 39), o assaz enigmático «e tal e tal e o caralho» (pág. 15) ou o nauseabundo «dói-me o útero / e de repente tudo cheira mal,» (pág. 19), e ainda «o meu útero, desde então, gentilmente destruído» (pág. 67), a que se poderiam acrescentar, em momentos mais dinâmicos e alvoroçados, «aquele entra e sai ritmado, gramatical,» (pág. 19), o «tirando três dedos femininos de dentro dela» (pág. 41) ou, numa aproximação mais esclarecida e penetrante, «metendo o que pode no que vai dar a umas trompas laqueadas» (pág. 41). Retenha-se ainda o trecho central da página 77, em torno do qual gravitam diversos eixos narrativos:




«tantos gajos, mães, eu tão bêbeda,

meticulosa, um a um, odor a odor, nos

pescoços, nas virilhas, nos cus, onde

fosse, respirar gajo a gajo à procura de

um cheiro familiar

familiar

nós»





Estas imagens, muito tributárias de uma herança democrata-cristã que combina bem a Rerum Novarum e o Moleskine, desaguam, enfim, «num charco, um charco de esperma a tapar a primeira marca de ter sido mãe» (pág. 33). No fim, a pestilência letal: «morro a procurar o teu cheiro em duas ancas» (pág. 74). Isabel Moreira transfere a mecânica de autoflagelação presente noutros momentos da sua obra (recorde-se o arrepiante «esfregar urtigas no sexo», do blogue «Consolação», texto de 2010) para uma pulsão castigadora da lucidez do seu público. A comunidade, já vasta, dos seus leitores e admiradores não gostará de ver que, em apenas duas páginas (pp. 42-43), esta «menina-lobo que uiva culpas» começa por se alimentar frugalmente («comeu uma colherada de batatas» − pág. 42) para, logo a seguir, ser alvo de uma bárbara agressão («a menina leva um estalo na cara» − pág. 43), agravada pela obrigatoriedade de proceder a serviços de limpeza doméstica numa posição desconfortável («eu de mãos atadas nas costas a lamber o chão.» − pág. 53). Note-se, em todo o caso, que este trabalho linguístico foi objecto da justa e devida remuneração pecuniária («o amigo que me enfiava uma nota no sexo» − pág. 53). Encontramo-nos, portanto, fora do âmbito da «unilateralidade sem dolo» que a autora denuncia na página 68.





No corpus literário que agora celebra com desnudada e espumante exuberância, a autora debate-se entre «a gaveta mortuária das palavras» (pág. 11) e a «desistência das palavras» (pág. 23), optando por um acto de não-desistência, pelo que este livro, livro-em-devir (work in progress), é também promessa, ou ameaça, de que outras obras virão, assim haja vida e saúde e nós cá todos a ver.




A este propósito do ver/não-ver, sublinhe-se que a visualidade é patente nos constantes (des)encontros desta obra com a recusa de qualquer pragmatismo, num escrutínio minucioso, quase espeleológico, da ontologia do Ser (o Sein, à Morais Soares, nº 14, c/v). É dessa inquirição cruciante que Isabel Moreira extrai um dos tópicos mais densos e recorrentes do seu trabalho: deus, um gajo sempre grafado com minúscula. Em metafísico diálogo com um Criador implacável e severíssimo, de matriz conservadora e veterotestamentária, Apátrida imprime à abordagem do divino um sentido agreste de permanente impugnação e desafio, nas franjas da apostasia. Os dispositivos são vários: árvores «tão altas que esmurram deus» (pág. 22), «o choro inútil de deus» (pág. 27), «deus a dar cabo de tudo» (pág. 32), «a cegueira de um tiro de deus amarelo ao máximo ao nosso encontro» (pág. 28, bisando a pág. 102 com «a cegueira de um tiro de deus amarelo máximo ao nosso encontro»). O mais conseguido de todos ocorre sob condições meteorológicas algo adversas, com «deus a mijar-se de medo pelas pernas abaixo naquele temporal» (pág. 98).




Neste cruzamento improvável, quase choque frontal, entre a inspiração tutelar de Rui Nunes e o ferrete freudiano do doutor Alves Moreira, a autora adere plenamente ao cáustico, mas na versão Primavera/Verão 2014. Na página 41, aparece inopinadamente um cigano com uns trocos no bolso, que pergunta à plateia: «− posso levar um bacano?». Podes.





Quase no final do livro, após conhecermos uma «manicura perdida no cabeleireiro de algés» (pág. 73), somos surpreendidos por aquilo que parece ser um acidente rodoviário, mas, vendo bem, talvez não seja. Ou talvez seja. O ponto é de todo em todo irrelevante e secundário para a percepção do sentido global de uma obra de várias espessuras e tessituras em que nada do que lá está é o que parece, pois nada se conjuga com nada, excepto a presunção de Isabel Moreira de que escreveu literatura e a convicção da Temas e Debates de que um livro de alguém que vai muito ao Prós e Contras sempre venderá alguma coisinha.




A metamorfose corpórea e a distorção anatómica são expedientes que transportam o leitor para um não-lugar (o não-lugar da ausência), em que a percepção do que se lê é severamente punida pela hegemonia, quase tirânica, da escanzelada sofreguidão de Isabel Moreira em colocar palavras atrás de palavras, limitando a isso o seu gesto criativo, ou seja, rasurando a intervenção dos códigos inibidores da pura dejecção verbal. Enquanto houver um teclado e um portátil com bateria, teremos golfadas de angústia. É sob esta perspectiva, a perspectiva baconiana da distorção anatómica, que devem ser compreendidas, por exemplo, as referências a «um intestino prolongado pela garganta», constante da página 44, e a um «útero invertido», da página 48. Ou, mais gastronomicamente, um dos muitos trechos Maddie MacCann de Apátrida: «− Onde está o meu pai? Eis a pergunta que lhe come a pálpebras enquanto mastiga lombo de vaca e lágrimas de desaparecimento do pai.» (pág. 46).




A insalubridade vivencial é exaltada de modo mais lateral do que noutras obras de Isabel Moreira, estando, ainda assim, presente de forma visível, apesar de fugaz. O exercício físico, por exemplo, encontra-se limitado ao encaixe carnal de exclusivo fito orgásmico, erradicando-se por via político-administrativa práticas como o badminton e o ténis de mesa, até porque, como bem sabeis, «quem faz muito desporto demora a vir-se» (pág. 49). Ainda que catártica, esta focalização do trabalho dos corpos na ginástica sexuada («morde-lhe as mamas» − pág. 52) é susceptível de gerar equívocos e até algumas frustrações, nomeadamente quando um dos interlocutores não se mostra à altura das viscerais exigências («− és uma puta velha que não faz um homem vir-se.» − pág. 49). No limite, «− assim dói» (pág. 48), tanto mais que, numa evocação críptica de Bertolucci, se confessa: «eu também não gosto de manteiga» (pág. 23; itálico no original).




A violência, extrema e arrebatada, é resultado, mas também reverso, da ausência de pátria, dessa a-patridia existencial personificada na presença tão ansiada quanto intermitente do pai/pau, tal como apreendemos o sentido do diálogo da página 70:




«− quem és tu, pai?

− disseste pai?

− não, disse pau.»





Jurista-constitucionalista, Isabel Moreira aprofunda em Apátridatemas presentes na sua já apreciável obra, produzindo um livro que se lê num fôlego sobretudo quando está fechado.






O correto uso do papel higiênico
João Ubaldo Ribeiro

O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente.

 Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3,28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel.

E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de TV. Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.

Agora me contam que, não sei se em algum estado ou no país todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabetes e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar. Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo.

E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma — chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote —, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.

Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros.

Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

15.6.14

*

I wonder by my troth, what thou and I
Did, till we loved ? were we not weaned till then?
But sucked on country pleasures, childishly?
Or snorted we in the Seven Sleepers' den?
'Twas so ; but this, all pleasures fancies be;
If ever any beauty I did see,
Which I desired, and got, 'twas but a dream of thee.

And now good-morrow to our waking souls,
Which watch not one another out of fear;
For love all love of other sights controls,
And makes one little room an everywhere.
Let sea-discoverers to new worlds have gone;
Let maps to other, worlds on worlds have shown;
Let us possess one world ; each hath one, and is one.

My face in thine eye, thine in mine appears,
And true plain hearts do in the faces rest;
Where can we find two better hemispheres
Without sharp north, without declining west ?
Whatever dies, was not mixed equally;
If our two loves be one, or thou and I
Love so alike that none can slacken, none can die.

- John Donne


Congratulations to Nuno and Seguin, may God bless all of your days .
agora que estou a apanhar pinhoes e a carpir como uma madalena azeda, lembro-me de ti quando eras capaz de amanhar a hortinha e de martelar, com o teu martelinho, os nossos pinhoes mas nao de vires ter comigo para saber porque estava eu triste, fechado em mim ou sem vontade de tocar-te. quanto teria custado olhares para a nossa vida sem o dogma (ou o orgulho) de pressupores que a culpa ou o erro estariam fora de ti - ou daquilo que de ti dependia - e quao facil teria sido a reconciliacao definitiva, um encontro no mesmo reduto de tranquilidade e de entreajuda que nos viu apaixonar de maos dadas e com elas carregar as caixas, os livros, os banquinhos e os percalços dos anos todos em que acreditámos que seria para sempre? eu queria tanto ser velho e novo contigo. e gosto tanto de ti. nao quero esquecer-te nunca, prefiro fingir ao longo de toda a vida pelo caminho que me for mais paliativo, até alguém dar comigo já engelhadinho ao sorrir, quieto, deitado na cama com o desenho de nós dois a sorrir, tambem de maos dadas, que o xxxx fez um dia, e que ainda mantenho, exposto e bem limpinho sem pós nem bolores - bem apertado nas minhas maos já hirtas, mortas, finalmente vencidas, sobre o peito onde o meu coração te guarda e para sempre ira guardar faças tu o que fizeres.

23.3.14

in time of daffodils(who know
the goal of living is to grow)
forgetting why,remember how
in time of lilacs who proclaim
the aim of waking is to dream,
remember so(forgetting seem)

in time of roses(who amaze
our now and here with paradise)
forgetting if,remember yes

in time of all sweet things beyond
whatever mind may comprehend,
remember seek(forgetting find)

and in a mystery to be
(when time from time shall set us free)
forgetting me,remember me

-e. e. cummings

7.1.14

The Kiss

She pressed her lips to mind.
—a typo

How many years I must have yearned
for someone’s lips against mind.
Pheromones, newly born, were floating
between us. There was hardly any air.

She kissed me again, reaching that place
that sends messages to toes and fingertips,
then all the way to something like home.
Some music was playing on its own.

Nothing like a woman who knows
to kiss the right thing at the right time,
then kisses the things she’s missed.
How had I ever settled for less?

I was thinking this is intelligence,
this is the wisest tongue
since the Oracle got into a Greek’s ear,
speaking sense. It’s the Good,

defining itself. I was out of my mind.
She was in. We married as soon as we could.

- Stephen Dunn
I JUST HAVE TO GET THROUGH THIS

Summer stayed no longer than a sparrow.
Medication is passed over a trembling lip.
The postcard arrives one day too late.
A man notes he’ll get an Asian hooker if
he’s dying, maybe if he isn’t. A spider
in the woodpile ends up in the fire.
One beggar spits in the air at another.
The field of sunflowers holds on as long
as it can, but dies before the gentle old lady
passes on the train. Babies are placed
in planes and carried to cars. A good man
is murdered in his house. They leave
his body, pass his son on the lawn, reach
out to ruffle his hair, and he watches them go.

For some reason we all wait for something.

- Alex Boyd

10.11.13

Words Wide Night

Somewhere on the other side of this wide night
and the distance between us, I am thinking of you.
The room is turning slowly away from the moon.

This is pleasurable. Or shall I cross that out and say
it is sad? In one of the tenses I singing
an impossible song of desire that you cannot hear.

La lala la. See? I close my eyes and imagine the dark hills I would have to cross
to reach you. For I am in love with you

and this is what it is like or what it is like in words.

- Carol Ann Duffy

3.11.13

Morning Song

This is life's silent hour,
sunny and blessed,
laughing white in power-conscious peace.
The rejoicing and the songs fell silent,
for Joy overflowed the shores.
Hail to you, Joy, Joy,
in your silent, vainglorious smile!
You alone can plumb
the secret of the worlds.

O bubbles, bubbles, o foam, foam
are all our care, all our grief,
yes foam on measureless expanses,
bubbles on the ocean
is that which we chase and cherish and fear,
but Joy, Joy is the world's foundation.

How do I dare…? And yet!
Do you think that life's flower,
carved a thousand times by suffering.
would continue in darkest darkness
to shine in beauty in spite of everything,
were not its root and heart
heavy, yes, brimful of bliss?

O bubbles, bubbles, o foam, foam
is all our pain, our blind grief.
Joy alone knows more than others.
Yes, in its holy white hours
rests in the leaves' quivering daylight
the reflection of godlike depths,
smiling, smiling.

Like tidal waves, like thunderclouds
day's care will soon envelop me.
Let me remember in tears and greyness,
that clarity's blinding moment
forced me to say to life and death,
to the whole world and even to myself:
'Amen, amen,
happen, then!'

-Karin Boye


Para ti que vens de escudo em riste e cujo flanco a minha espada vigia.

27.9.13

renascer

esta noite em claro é para ti
branca como cada folha vazia
ou ainda igual a este regresso
ao arquear do teu sono a mão

apaga a luz e é por ti que desliza
na pele sem temor de futuros
incertos nem morte
nunca um planeta ardeu tão alto

há velas na noite e elas conduzem
àquele espaço azul entre as nuvens
o segredo por entre os acordes
do teu cabelo murmura o nome da rosa

com quantos braços deve um homem
adormecer no luar dos teus olhos
com quantas vitórias sorrir
com quanta destreza te amar.

12.9.13

You who balk at the smell of salt on every meal.
You who will not have that third glass of wine.
You who never ate anything that did not come from a shelf.
You who read the mainstream media to justify your gutless days.
You who sell your grandchildren's future for a dime and another day.
You who know precious little yet jeer at those who know different.
You whose notions of safety and freedom would make a neanderthal drop dead with multiple stomach ulcers from laughing so hard.
You who deny the broader meaning of life, yet claim that I do not live.
You who hide in plain view accusing others of hiding under a bed.
You fucks, how can you mistake preparation for fear?

6.9.13

Conquest of the Garden

The crow that flew over us and sank-
in the confusion of a vagabond cloud;
The crow that swiftly crossed-
the extent of the sphere-
like a short arrow-
will tell about us-

in the town.

Everybody knows.
Everybody knows that you and I, 
looked through the oblique crack of the wall-
and saw The Garden.

Everybody knows.
Everybody knows that you and I,
reached for the trembling branch of The Tree-
and picked the apple.

Everybody is scared.
Everybody is scared but you and I,
together joined lights, mirrors and water-
and feared never.

For you and I,
it is not about a frail union of two names-
in the aged pages of a registrar notebook.
It is about my fortunate locks-
and the burning stroke of your kiss.

For you and I,
it is about the imminence of our skins-
in the sacred wellspring of lightly streams,
swiftly sliding -
over the waterfalls and the hills.

And, it is about the fountain’s songs-
its fleeting flight, its short, silvery life.
You and I, in the core of a darkened night,
in the fluid freshness of forests,
on the peak of shielding mounts,
and in a freezing fearful sea-
asked young, golden eagles-
what we ought to do.

Everybody knows.
Everybody knows that we pierced-
into the silent dream of Phoenix.

Everybody knows.
Everybody knows that you and I,
In the prairies and the plains-
reached to the glittering roots-
of Truth.

Everybody knows.
Now, everybody knows that you and I,
in an endless instant,
conquered the entirety of Eternity.

For you and I,
It is not about a shaking whisper in the dark.
It is about Day and its invading spark.
It is about a breeze over the fertile side.
It is about birth, evolution and pride.
It is about burning every futile piece-
in the garnet core of the flames.
And it is about our hands-
that contrived a bridge, concrete and bright,
over the tear of night.

Come to the turf! Come to the turf-
and call my name! Call my name-
with a choral of white lilies-
like a gazelle who calls his mate.

The shades of dusk-
are floating in their veiled sorrow.
And doves, from the windows of their white tower-
are looking at Earth.

Come to the turf!

- Forough Farrokhzad
Translation: Maryam Dilmaghani, May 2006.

24.8.13

entre noites de natal fodidas tropeçamos de mãos, amiga dadas como abraços a medo para fingir cobardia, uma dor mais forte e involuntariamente sincera que arde a quatro olhos deve ser isso mesmo a coincidência que é preciso negar o vinho, a força natural das flores que falecem em data certa o teu espectro no outro lado da cama, o pão com dois dias, uma ode aos suicidas que escolheram o método mais longo.

14.7.13

Eu não queria vir a Guimarães. Vimara Peres, ou mesmo o Pero da terra dita, não me diziam nada no beco duodeno-jejuno final de uma semana que se revelara galharda e pródiga no bem-estar almejado fora do quadrado pátrio.

Foi contudo o meu filho, a quem há quase tantos anos como ele tem de vida, eu devia estas férias, que escrutinou o burgo onde havíamos de vir calhar na tarde hodierna. Aterro na praça central e vejo uma esplanada burilada com gente mista, tatuados à mistura com betos, crinas roxas pelo vale meão de camisas alvas. Um caldo, senhores.

Mas ouço Alice in Chains e a moçoila que carrega as copas tem um ar giro, salubre, esperto e bem posto. Sento-me e obrigo o pós-púbere a seguir-me na senda.

Três Carlsberg e uns amendoins depois, sei que a terraça se chama El Rock Bar, e que ali perdura há dezasseis anos, proeza em que supera o meu ido Conspiração Café-Bar em cerca de quinze anos e quatro meses. Os cilindros de cevada descrevem evoluções húmidas por entre as mesas, e a rapariga é conversadora sem dar-se ares de mais nada.

Explico ao meu filho que não deve assumir que uma pessoa, ao meter conversa com outra que é vinte anos mais nova, estará a fazê-lo por motivos de engate (pese embora a possibilidade, não probabilidade que assim seja) caso contrário, perante interlocutor sabido, fica logo a braços com um argumento vazio sob pena de servir para acusar qualquer octogenário de assédio, ao pedir lume ou perguntar as horas a quem passa pelo banco do jardim.

No hotel haviam recomendado, como poiso para o pasto, o Histórico, no Largo João Franco, alvitre corroborado pela noviça rockeira, ora Paty. Não há fome mas há vontade de comer.

Vamos então na peugada do pórtico por onde se lhe adentra ao tabernáculo proposto. Conversamos sobre as indústrias, que as há, mais do agrado e interesse que ao meu outrora petiz, à idade com que eu da dependência paterna já nem podia ou queria ouvir falar, mais aprazem. Ganhei perspectiva e sempre aquiesci a romper a dieta.

Comecei, no meu ego e naquele momento, a traduzir-lhe a proporcionalidade inversa entre o tempo que resta e a importância cedida a merdinhas relativizáveis como se a gaja pensou que eu era tarado, quatro quilos a mais, ou cinquenta euros a menos. Quis com isto prover-lhe a que galgasse mais um degrau nessa suma exibição de força, a supressão do ego sem que no entanto abdiquemos, por dentro ou no cerne, dos princípios directores que nos deixam subsistir, justamente, à conta de um Eu imacerável.

Entretanto quis Taránis, que como todos sabem martela o céu por cima das nossas cabeças, mandar chover e ribombar; todos, a começar pelos franceses que se haviam dirigido a todos e cada um dos restantes convivas, em várias línguas, inquirindo da sapidez e teor mineral dos pratos em marcha, recolheram em debandada para as mesas situadas a coberto da intempérie.

Eu não.

Por razão alguma, porque um cavalheiro não se molha quando chove, porque às senhoras, em última análise, cabe reparar na placidez que destrinça, hora limite, o gentil-homem do banal burguês, mas acima de tudo, estratosfericamente além de toda e qualquer outra razão, motivo ou agenda, porque eu havia dito, e por ser verdade teria de agi-lo, que a supressão do ego (eu não gosto que me chova em cima; mas perco mais se parecer um tonto em fuga do que se me caírem três gotas no vertex) está, em situações sociais às quais devemos atender, furos para lá da instantânea satisfação que ao ego, ainda que seja como o é para mim o primário motor do meu mundo, devemos conceder à medida que a derradeira hora se aproxima.

Eu penso que ele irá digerir a lição, que o meu cuidado e subtileza em limar cada precipitação ou encolher de ombros com um matraquear paciente de sinonímia emocional para as razões exclusivamente intelectuais dos meus actos, dará tudo em fruto temporão e ainda no meu tempo de saborear o penúltimo soçobrar dos galhos.

É evidente que a Paty não quer saber de entradotes tatuados que trazem num poro mais bandas, filmes, livros e amores à falésia em Agosto do que toda a canalha Vimaranense, alargada de orelha ou de mais forma inserida, saberia invocar mesmo limpa do catéter cereálico.

Mas também isso faz parte de ir-se por nuestra puta vida aceitando mistérios novos e rejeitando epitáfios antecipados. E por isso mesmo pedi a aguardente para rematar o jantar, e passei pelo El Rock entre os pingos da chuva só para ver que som de lá vinha.

11.7.13

Rivotril (Clonazepam), dia quarenta e três

when the dreams finally came back
fallen asleep in some different city
having dined with different people
of a different air under different weather

turning and cowering at the break of day
unlike before, you were not about to leave
unlike before, there was noone lurking in wait
at the kitchen door, waiting to carry your bags

but waking up to a foreign, different future
differently grey, differently daunting now
you were to stay forever behind, in my reverie
and unlike before no longer asleep at my side

asturias
11.VII.2013

2.7.13

#560

Oh day of fire and sun,
Pure as a naked flame,
Blue sea, blue sky and dun
Sands where he spoke my name;
 Laughter and hearts so high
That the spirit flew off free,
Lifting into the sky
Diving into the sea;
 Oh day of fire and sun
Like a crystal burning,
Slow days go one by one,
But you have no returning.

 -Sara Teasdale

30.6.13

Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
 em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam segredos
que eram lentas madrugadas, promessas imperfeitas,
murmuradas enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido, sem as quereres,
mas só porque eram elas que traziam a calma das estrelas
 à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
 que morreram, que em ti já não existem —
que são minhas, só minhas, pois persistem na memória
que arrasto pelas ruas.

- Pedro Tamen, in “Tábua das Matérias”

5.6.13

Contos do Baralho de Cartas (1)

Certos gajos não conseguem perpetuar a vida sem ter alguém, e o mesmo alguém, na cama todas as noites. Pode ser outro alguém novo, ou até um alguém que vá sendo vários alguéns de ano para ano, mas certos gajos fenecem e acabam por deixar a mesa de jogo quando não têm alguém na casa, que é onde fica a cama, todas as noites. Um dia ouve-se o Tim Booth cantar as pastagens azuis pela enésima vez e o poema certo ocorre, trocando uma porta por outra. As diferenças, então, residirão naquilo em que sempre residiram: na elegância e no método.

26.5.13

Hipotética Epístola do Adeus

Tu,

Não sei porque me dou ao trabalho de escrever-te.

Nestes anos fomos do puro Céu ao viperino Inferno. Tu não dominas o teu feitio. Eu sinto que não me mereces. Tu esperas do alto das tuas certezas que o caminho te seja dado de bandeja, com os caminhantes laudando-te os passos com vénias. Tiveste-os e assim os esbanjaste, a todos sem excepção.

Onde havia o desejo e a paixão que me fizeste sentir, salvando-me, ou a ambos, de um destino igualmente mau mas precoce, eu impossibilitado pelos abusos que fui engolindo deixei crescer o carinho, o afecto, a protectividade, a promessa eterna de que os meus dias seriam teus.

Não te bastou, como nunca te basta, porque a razão para que nunca peças desculpa é, naturalmente, que só pedes quando achas que deves pedir.

Não há volta a dar, nesta nossa última fase eu esperava de ti o que nunca foste capaz de edificar comigo ou com qualquer outra pessoa: a humildade de perceber que o tempo nos leva avanço, que nos dias - quentes ou frios - ter alguém que um dia escolhemos e que se dispõe a finar-se ao nosso lado de peito cheio por ver, na derradeira hora, o rosto amado, isso é impagável.

Não se retribui com arremessos escarninhos meia década de verdadeiro sacrifício em nome dos teus desígnios juvenis e malabaristas. É de mau tom.

Apesar de tudo, quando saíste ainda diria a quem me perguntasse: sim, claro que a amo. Depois de ouvir na tua voz, hoje, o que ouvi, não poderia sequer pensá-lo.

Mas gosto muito de ti, apesar de saberes tão bem como eu que nos pratos da Grande Balança o lote dos estragos causados a todos é da tua quase exclusiva responsabilidade. Não tive forças para apascentar o teu carácter recalcado e controlador. Quis ser aquilo com que sonhavas, e tornei-me uma sombra daquilo com que sonhei.

Só te quero Bem. De uma forma muito especial poderás sempre contar comigo, ainda que possas pretender estraçalhar-me em nome dessa ilusão de independência e de juventude que te persegue desde aquele ano do qual nem tu, nem eu, nada percebemos.

Um beijinho sincero de boa noite e de boa sorte. Tentei prover ao teu contento. Quiseste outra forma de felicidade. Não nos sentaremos juntos no banquinho que trouxemos, juntos com os nossos braços, quando a pele se enrugar, e já ninguém, filhos diletos da nossa erosão ou queridos amigos que nos dizem aquilo que queremos ouvir, vier contar-nos pela enésima vez a história do homem que foi atropelado em frente ao quiosque.

Mas eu, que em ti só procurei sorrisos, sentar-me-ei nele como se estivesses ali, sempre e para sempre, como no dia em que o trouxemos.