Zélia Barbosa : Pedro pedreiro
Letra e música: Chico Buarque

Pedro pedreiro penseiro
esperando o trem
manha parece carece
de esperar também para o bem
de quem tem bem
de quem não têm vintém.

Pedro pedreiro fica assim pensando
assim pensando o tempo passa
e a gente vai ficando para traz
esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem
esperando o aumento
desde o ano passado
para o mês que vem

Pedro pedreiro espera o carnaval
e a sorte grande do bilhete
pela federal todo o mês
esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem
esperando o aumento
para o mês que vêm
esperando a festa
esperando a sorte
e a mulher de Pedro
tá esperando um filho
pra esperar também.
Pedro pedreiro ta esperando a morte
ou esperando o dia de voltar pró norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
espera alguma coisa mais linda que o mundo
maior que o mar.
Mas pra quê sonhar sei lá?
No desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
quer ser pedreiro
pobre e nada mais sem ficar
esperando, esperando, esperando, esperando o sol
esperando o trem
esperando o aumento
para o mês que vêm
esperando um filho pra esperar também
esperando a festa
esperando a sorte
esperando a morte
esperando o norte
esperando o dia de esperar ninguém
esperando enfim nada mais que além
que a esperança aflita, , bendita, infinita do apito do trem.


(Sullivan) 1996

I went up to the mountain, apocalypse dreams in my head
There was fire upon the horizon but it was just the sunrise turning red
Maybe it's time, maybe it's time . . .

Each night I walk to the edge of the city out to where the darkness begins
Made a promise out here a long time ago and I've been waiting ever since
Maybe it's time, maybe it's time . . .

My world has become an empty place
Of great, wide landscapes and weird painted skies
Strange patterns and islands of light
And people move as shadows never touching at all
I've never been afraid to die, maybe scared to live

I've been across every ocean just chasing after storms
My crew long dead or deserted now and the seas nothing but calm
Maybe it's time, maybe it's time - to turn the ship around
Aboard at a Ship's Helm
by: Walt Whitman

ABOARD, at a ship’s helm,
A young steersman, steering with care.

A bell through fog on a sea-coast dolefully ringing,
An ocean-bell—O a warning bell, rock’d by the waves.

O you give good notice indeed, you bell by the sea-reefs ringing,
Ringing, ringing, to warn the ship from its wreck-place.

For, as on the alert, O steersman, you mind the bell’s admonition,
The bows turn,—the freighted ship, tacking, speeds away under her gray sails,
The beautiful and noble ship, with all her precious wealth, speeds away gaily and safe.

But O the ship, the immortal ship! O ship aboard the ship!
O ship of the body—ship of the soul—voyaging, voyaging, voyaging
Our Eunuch Dreams
by: Dylan Thomas


Our eunuch dreams, all seedless in the light,
Of light and love, the tempers of the heart,
Whack their boy’s limbs,
And, winding-footed in their shawl and sheet,
Groom the dark brides, the widows of the night
Fold in their arms.

The shades of girls, all flavoured from their shrouds,
When sunlight goes are sundered from the worm,
The bones of men, the broken in their beds,
By midnight pulleys that unhouse the tomb.


In this age the gunman nad his moll,
Two one-dimensional ghosts, love on a reel,
Strange to our solid eye,
And speak their midnight nothings as they swell;
When cameras shut they hurry to their hole
Down in the yard of day.

They dance between their arclamps and our skull,
Impose their shots, showing the nights away;
We watch the show of shadows kiss or kill,
Flavoured of celluloid give love the lie.


Which is the world? Of our two sleepings, which
Shall fall awake when cures and their itch
Raise up this red-eyed earth?
Pack off the shapes of daylight and their starch,
The sunny gentlemen, the Welshing rich,
Or the drive the night-geared forth.

The photograph is married to the eye,
Grafts on its bride one-sided skins of truth;
The dream has sucked the sleeper of his faith
That shrouded men might marrow as they fly.


This is the world: the lying likeness of
Our strips of stuff that tatter as we move
Loving and being loth;
The dream that kicks the buried from their sack
And lets their trash be honoured as the quick.
This is the world. Have faith.

For we shall be a shouter like the cock,
Blowing the old dead back; our shots shall smack
The image from the plates;
And we shall be fit fellows for a life,
And who remain shall flower as they love,
Praise to our faring hearts.


acerca-te da minha janela
contar-te-ei o que há nela
olha, vês
a merda dum francês
velho e seco nos anos de usura
os olhos baços, a fronte dura
agarrado como um nojento caracol
às pastas castanhas a tiracolo
conta cabeças como dinheiro
e tem na barriga o mundo inteiro.


Everything that irritates us about others can lead us to an understanding of ourselves.

-Carl G. Jung
não te peço mais do que as pedras
algumas pedras, gentis
a métrica de um copo
dos socalcos e reflexos
de trinta mil rubis
junta-mas todas num copo de ti
e atira-me a este pinhal
cedendo-me o penedo da fé
o pomar que sempre quis
e pede-me um fogo
pede-me um planeta de amor
arranca-me todos os dias
os que guardo secretos
com a altivez dos cativos
e não me dês mais que a tua boca de mel.

Vodka intimate, an affair with isolation in a blackheath cell,
Extinguishing the fires in a private hell,
Provoking the heartache to renew the license.
Of a bleeding heart poet in a fragile capsule,
Propping up the crust of the glitter conscience.
Wrappped in the christening shard of a hangover,
baptized in tears from the real, tears from the real...

Drowning in the liquid seas on the picadilly line, rat-race,
scuttling through the damp electric labyrinth.

Caress Ophelia's hand with breaststroke ambition,
The albatross courtship marrytime tradition.

Sheathed with the walkman wear the halo of distortion,
aural contraceptive aborting pregnant conversation.

But she turned the harpoon and it pierced my heart,
she hung herself around my neck.

From the Time-Life guardians in their conscience bubbles,
safe and dry in my sea of troubles.
Nine to Fives, with suitable ties,
While I'm cast adrift as their sideshow, (sideshow),
peepshow, (peepshow), stereo hero,
becalm, bestill, bewitch, drowning, drowning in the real...

The thief of Bagdad hides in Islington now,
praying deportation for his sacred cow.
A legacy of romance from a twilight world,
the dowry of a relative mystery girl.

A Vietnamese flower, a dockland union,
a mistress of release from a magazine's thighs.
This magdalene contracts more than favours,
the feeding hands of western promise hold her by the throat.

A son of the swastika of '45, parading a peroxide standard.
Graffitti disciples conjure testaments of hatred.
Aerosol wands whisper where the searchlights trim the barbed wire hedges.
This is Brixton chess.

A knight for embankments - folds his newspaper castle,
a creature of habit, begs the boatman's coin,
He'll fade with old soldiers - in the grease stained roll call,
linger with the heartburn of good friday's last supper.

Son watches father scan obituary columns,
in search of absent school friends.
While his generation digests high-fiber ignorance,
cowering behind curtains and the taped up, painted windows.
Decriminalized genocide, provided door to door Belsens.
Pandora's box of holocausts,
gracefully cruising satellite infested heavens,
Waiting, wait..waiting the season of the button,
the penultimate migration,
Radioactive perfumes for the fashionably,
for the terminally insane ... insane

Do you realize,
This world is totally fugazi!

Where are the prophets, where are the visionaries,
where are the poets, to breach the dawn of the sentimental mercenary
Escrevi o primeiro "Assassinos com Natas" quando ainda havia Forum Literário. Este já andava pensado há cerca de dez anos, mas acabou por sair só hoje, em 15 minutos durante os quais voltei a ter vinte e poucos anos (até se nota na escrita patética ;) )

Tornou-se agora uma espécie de director's brand, como os reflexos do Shyamalan, aliás os do Hitchcock. E Ricardo é o Randall Flagg que Stephen King pensou em versão urbano-stressada.

O vento soprava, o uivo da nortada inclemente enfiando poeira e pólen no cabelo de Ricardo. A harmónica, suspensa por duas tiras de couro preto, baloiçava gargarejando um sussurro premonitório com cada bátega de ar gelado. Amachucou a carteira de Aspegic, atirou-a para o passeio coberto de lixo do fim-de-semana, e selou, com um passo resoluto em frente, o fado daquele primeiro dia de Primavera.

Salvador Maria e Serafim de Deus, hirtos na cinzenta verticalidade instantânea com que se faziam cobrir todos os dias, subiam desde o piso -27 no elevador, herméticos na seriedade Ovídica própria das pessoas de bem. As leis da termodinâmica confluiam a favor da maré libertária que tomara conta de Ricardo quatro horas atrás, quando acordara ensopado em sal e ureia, um avatar plutónico, a metamorfose de César em estrela ígnea. Gotículas de uma atmosfera asséptica pousavam, agitavam-se e desapareciam esquecidas sobre os números que iam surgindo, pálidos como os dedos de um Lapão em Novembro.
Os dois sócios subiam assim na paz beatífica de uma rectidão assumida. Todos os seus dias eram indistintamente agradáveis e sem prejuízo da mediania completa, afinal o único objectivo inteligível de qualquer homem.

Precisamente quando as portas de vidro triplo, polido até à estupidez, se abriram de par em par, cavalgou pelo ar o tinido sintético da campainha do elevador. A bota de Ricardo agrediu as lajes, de mármore do Congo, ao mesmo tempo que os pés direitos de Salvador e Serafim.
A recepcionista e os dois vigilantes respiravam quietos, em posição de sentido, de frente para a
porta do elevador. A gabardina castanha esvoaçou adornando a entrada de Ricardo como as asas de Uriel. A sua tocha era divina, a natureza fractal do mundo era isto.

Duas franciscas, lâminas recurvadas sequiosas, saltaram como rolhas das mãos de Ricardo e atingiram os vigilantes em pleno nó de gravata. Os sicários tombaram, sem urdir reacção, um quilo de ferro e madeira plantado em cada pescoço.

Salvador e Serafim permaneciam no limbo entre o elevador e o átrio, protegidos do violento cenário pela indecisão entre o pasmo e o fascínio. Seguramente que se trataria de um erro, e não de uma realidade diferente da sua. Com toda a certeza que tais situações, tão pontuais, teriam uma probabilidade diminuta de suceder ali, no átrio de entrada da sede global do grupo Bello e Gallo, em perfeito vilipêndio dos valores mais cristalinos aos quais cada homem, claramente, almejaria.

Ricardo deixou cair a gabardine. Trazia às costas um paralelipípedo translúcido com uma tampinha vermelha, cheio até ao gargalo de um fluido dourado e viscoso. Sentiu os olhos traírem a sua doutrina, saíndo-lhe das órbitas na antecipação do exercício da justiça. Avançou devagar, inumanamente devagar, até se postar como um totem malaio perante os dois esbirros do Nada. Ninguém vertia um só dedo de suor. O corpo da recepcionista pendia desengonçado sobre o balcão de granito, a língua roxa e inchada do último esforço em busca de um sopro de vida. Esganara-se fulminada num enfarte ao ver que iria possivelmente perder o seu direito às quinze horas diárias de trabalho.

Se quaisquer palavras houve, trocadas entre os três ícones que embarcaram na caixa inoxidável, rumo ao Hades gasocarbónico que jazia por baixo do edifício, esta crónica já vetusta não as traz recordadas. Cabe apenas assinalar o notável, porque não relativo, silêncio com que o pilar idólatra de aço e cristal veio a ruir, quando as centenas de veículos ali estacionados, com os seus grandes depósitos de combustível, se juntaram à celebração vulcânica começada às espaldas de Ricardo, temperada com a matéria vil de Salvador e Serafim.
É incrível: as explosões em Londres sabe-se lá com quantos mortos, e aqui todos ignoram, e fazem de conta que é um dia normal com o seu trabalhinho de escriturários normais.

É o nojo, Amor!, é a raiva.

É a cabra dos atadinhos.
At 4.48
when sanity visits
for one hour and twelve minutes I am in my right mind.
When it has passed I shall be gone again,
a fragmented puppet, a grotesque fool.
Now I am here I can see myself
but when I am charmed by vile delusions of happiness,
the foul magic of this engine of sorcery,
I cannot touch my essential self.

Why do you believe then and not now?

Remember the light and believe the light.
Nothing matters more.
Stop judging by appearances and make a right judgment.

- It's all right. You will get better.

- Your disbelief cures nothing.

Look away from me.

- Sarah Kane


excerto (b)

porque debaixo das nuvens
abres os olhos
humedeces a causa
na eira dos amantes
em busca do plano
a natureza sou eu
e tu
perdida entre os meus dedos
és o odor de um jogo de sombras.
canto as milhas
a celebração do sol
o espírito azul de três faixas sem fim
e afinal
afinal a criança baila no bosque
não há Outono em Berlim
o teu cabelo é um mar de humores
e eleva-me ao sonho
na ansia dos dias completos
o que tenho que dizer é que estoiro
é que a tua pele
na minha
torna o mundo brilhante
o teu cabelo é um mar de humores
e eleva-me ao sonho.